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O dia (e o cheiro) em que a Polícia chegou ao homem que fazia milhões com amêijoa do Tejo

TIAGO MIRANDA

A Polícia chegou pela manhã sem avisar. Bateu à porta e não abriram. Insistiu e teve de arrombar o portão. Contava apanhar um dos maiores traficantes de amêijoa japonesa da margem sul. E apanhou. O negócio da amêijoa vale milhares de euros. Há quem diga que se aproximam dos do tráfico de droga. A diferença? O esquema da amêijoa é mais fácil e menos arriscado

O portão é aberto e o cheiro espalha-se: é peixe podre, é lodo que a maré baixa deixou para trás no areal, é lixo há dias esquecido de ser despejado. Entranha-se na pele, agarra-se aos cabelos, há desconforto no estômago, o abdómen contrai. Algo sobe pelo esófago. O peito arde e os lábios fecham-se instintivamente. Num impulso, a mão tapa a boca como se impedisse algo de sair. Há náusea, vontade de vomitar. O cheiro continua mas aos poucos habituamo-nos. Mentira. É tão forte que nunca passa. Há segundos que trazem novas nuances daquele fedor.

Há mais de um mês que as amêijoas japonesas estão no armazém num pequeno frigorífico. Estão estragadas. Num armazém no porto de Sesimbra, em Setúbal, o cheiro é o primeiro sinal de que algo está mal. Há uma dúzia de tanques. Só três têm bivalves. Apenas um com amêijoas japonesas, de casca partida – tudo indica que foram apanhadas por arrastão. No meio um balde cheio de espuma amarelada, suja. É também dali que sai o cheiro. É lixo da amêijoa, o que sai ao passar por água. Há apenas um filtro à vista, como o de uma piscina, e não há muito mais limpeza do que essa.

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  • Escravos do rio: um trabalho premiado

    São mais de mil. Todos os dias apanham no Tejo toneladas de amêijoas japonesas, contaminadas mas que geram milhões. Não para eles. Tailandeses e romenos são controlados por redes que começam no estuário e terminam na Galiza. Pelo caminho há agressões, armas, furtos, falsificações, fraude fiscal, atentados à saúde pública, exploração laboral e suspeitas de tráfico humano. “Escravos do Rio”, de Raquel Moleiro e publicado na revista E do Expresso no final do ano passado, foi um dos três trabalhos distinguidos na 20ª edição do Prémio AMI – Jornalismo Contra a Indiferença