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"Temos de ganhar pelo país que nos segue"

Portugal joga hoje frente ao Uruguai o apuramento para o Mundial.

A selecção portuguesa de râguebi está a 80 minutos de conseguir, pela primeira vez, um lugar entre os finalistas de um Campeonato do Mundo. Os ‘Lobos’ – como também são conhecidos no meio – actuam hoje (18h30, SportTv2) em Montevideu, diante a poderosa formação do Uruguai, dispostos a justificar os sete pontos de vantagem (12-5) recolhidos no encontro da 1.ª mão, há duas semanas, no Estádio Universitário de Lisboa. E querem chegar ao Mundial (França, de 7 de Setembro a 20 de Outubro próximos) também para ajudarem a acrescentar mais um feito memorável no currículo de Tomaz Morais, que desde que assumiu o cargo de seleccionador nacional, em 2001, revolucionou a modalidade em Portugal.

Antigo praticante, precocemente retirado a contas com uma grave lesão, este excelente líder de homens e adepto da organização é, aos 35 anos, o rosto do râguebi luso. E também o mais forte crente no sucesso do ‘quinze’ que dirige, apesar das esperadas dificuldades pelo ambiente hostil que promete rodear o jogo de hoje. Conforme disse em entrevista ao Expresso (concedida ainda em Portugal), “esta equipa, na prática, já demonstrou, em situações muito adversas – inclusive sem poder apresentar o ‘quinze’ mais forte, por causa de lesões e outras impossibilidades – ser capaz de fazer grandes jogos a muitos quilómetros de casa”. Muito confiante, vai até mais longe quando confessa: “Aquilo que me passa como imagem pessoal e interior é ver os jogadores de braços no ar, no final do jogo, a telefonarem para casa e a dizer: ‘Nós conseguimos’".

O que mais teme na selecção uruguaia?
A capacidade da equipa, nomeadamente a força física que eles têm. É uma equipa de muito coração e muita alma, que vai tentar intimidar-nos em termos físicos. Conseguem jogar feio e fechados durante os 80 minutos. Têm muita experiência, inclusive dois dos seus jogadores já disputaram dois Campeonatos do Mundo, e provaram isso em Lisboa. Mas eles ficaram também a conhecer-nos melhor nesse mesmo jogo. Que somos uma equipa alegre e joga aberto. Por isso vão tentar fazer um jogo feio, pôr pressão sobre os meus jogadores, usar o público, os tais 15 mil espectadores que terão do seu lado para nos intimidar. Acontece que eu não temo nada mais que o adversário. É o que faço sempre. Tenho imenso respeito pela equipa opositora, mas este será um jogo final, um jogo especial. E a minha preocupação vai toda para a forma como melhor parar o Uruguai e como surpreendê-los.

Como é que tenciona fazê-lo?
Com uma atitude redobrada. Se no jogo de Lisboa a minha equipa teve uma atitude louvável – e creio que todos os 5.000 espectadores que viram o jogo o perceberam, a dinâmica em termos de atitude, de valores, de princípios –, no Uruguai teremos de dobrar. Não poderá ser de outra forma. Os jogadores terão de sentir que o sistema e organização defensivos terão de ser mantidos durante os 80 minutos. Não poderá haver desconcentrações, falhas ou enganos, e teremos de ser pacientes, não querer que o jogo acabe rápido. Temos de viver com alegria e intensidade todos os segundos e centímetros do jogo.

Sente os seus jogadores preparados?
Eles estão preparados! Costumo dizer que a teoria é importante para aprendermos, lermos e tirarmos conhecimentos. Mas a prática, depois, é que nos diz se é assim ou não é. E esta equipa, na prática, já demonstrou, em situações muitíssimo adversas – inclusive sem poder apresentar aquele que considero ser o ‘quinze’ mais forte, por causa de lesões e outras impossibilidades – ser capaz de fazer grandes jogos a muitos quilómetros de casa. Lembro-me do jogo na Sibéria, em Krasnodar, num estádio cheio, na época 2004/05, em que revelámos uma capacidade de sofrimento notável, a defender a nossa linha de ensaio durante 20 minutos. Nunca tínhamos vencido a Rússia e conseguimos surpreendê-los (16-18), com um jogo brilhante, e aí em termos atacantes até. Recordo ainda uma vitória em Tiblissi, em que estivemos metidos durante 70% do jogo nos nossos 222 metros, a defender, e saímos de lá com um triunfo por 14-19.

Ou seja, é uma formação habituada a grandes sacrifícios…
Sim, é uma equipa que tem no sofrimento a sua principal característica. E isso tranquiliza-me.

Além das investidas do Uruguai, estarão preparados também para jogar sob a pressão de 15 mil espectadores?
As nossas conversas e reuniões têm batido muito nesse ponto. Eu já lhes disse que estou convencido de que até hoje nunca jogaram num ambiente tão adverso. Muitos já alinharam perante 40 mil ou 50 mil pessoas, mas com um sentido positivo pelo jogo, a aplaudirem râguebi e bom râguebi, independentemente do lado onde eram obtidos os ensaios. Agora, isso não vai acontecer. Eles vão ser confrontados com pessoas que não querem saber do râguebi, querem é que a sua equipa vá ao Mundial! Porque o país só chega a dois campeonatos desses: ou no râguebi ou no futebol. A selecção uruguaia vai ter um país inteiro a puxar por si e eu creio que eles vão tentar explorar ao máximo esse aspecto.

Mas Portugal fez o mesmo há quinze dias, ‘jogou’ também com os 5.000 espectadores que foram ao Estádio Universitário…
Sim, é verdade. Mas lá vai ser o triplo. Além de que eles são muito mais agressivos. O nosso público é alegre, aplaudiu o hino adversário, aplaudiu o ensaio que os uruguaios obtiveram quase no final da partida. Foi uma boa jogada e um bom movimento e as pessoas aplaudiram, naturalmente. Esse lance mostrou também a coragem e não desistência dos uruguaios até final do jogo. Mas não vamos poder contar lá com o mesmo «fair-play». Vão chamar-nos tudo, tentar intimidar-nos, isso é garantido. Aliás, à semelhança do que aconteceu num jogo que já lá fizemos, há cerca de dois anos.

Dos jogadores que agora leva ao Uruguai, quantos participaram nesse jogo?
Muitos dos meus jogadores estavam nessa equipa, que perdeu por 20-14, e sabem o que vão reencontrar. Para eles e todos os outros exibimos há dias a cassete com imagens do jogo Uruguai-Estados Unidos, que é um exemplo claríssimo da intensidade e ambiente que podem esperar no jogo de sábado. Mas aproveito também para dizer, e os jogadores sabem-no, que a minha equipa tem um trunfo muito grande. É que não teremos 15 mil pessoas no estádio, mas 50 mil, 60 mil, se calhar mais ainda, mentalmente connosco. E é por todos esses que em Montevideu eles terão, a cada momento, de passar, marcar, placar, correr, chutar. Porque eu sei que neste momento nós conseguimos mover uma pequena parte de Portugal, para não exagerar. E esse apoio reflecte-se na quantidade de mensagens que temos recebido, a maior parte das quais de pessoas que nada têm a ver com o râguebi, entusiasmadas com a possibilidade do país pela primeira vez qualificar-se para um Mundial. Essas pessoas chegaram-se à equipa e estão com ela, sentem que a selecção as representa. E é por todos esses que os meus jogadores terão de jogar.

Este jogo será necessariamente diferente do de Lisboa…
Não tenho a mais pequena dúvida. Tal como fez cá, o Uruguai vai tentar na primeira meia hora resolver o jogo.

Mas o ‘Uruguai de Lisboa’ era aquele que você estava à espera?
Sem dúvida. Nós montámos a nossa estratégia, à espera de uma equipa que joga da maneira como eles jogam sempre. Eles não sabem jogar de outro jeito. O que aconteceu foi que em Lisboa a nossa defesa surpreendeu-os por completo. O facto de terem atingido o intervalo sem pontos assustou-os. Mais, cansou-os.

Há diversos jogadores importantes que não poderão dar o seu contributo?
É verdade. O David Mateus (micro-rotura), o Frederico Sousa e o Pedro Vieira (ambos com problemas nos ligamentos de um joelho) tiveram de ficar. Tenho pena por todos eles, mas sobretudo pelo Frederico, que era um jogador para aquele palco, ideal para ambientes pesados: quanto mais difícil é, mais ele cresce. Ainda por cima, magoou-se logo no primeiro treino deste estágio.

A equipa fica diminuída com as suas ausências?
Tenho de reconhecer que sim. Mas também é mais um motivo de união, que teremos de fazer com que jogue a nosso favor. Quem for para o lugar deles sabe que terá de fazer uma coisa extra, que é jogar por si e pelos que não estão!

É reconhecido como um excelente líder de homens e pelo modo diferente como costuma motivar os seus jogadores. Tem alguma surpresa reservada para este jogo?
A maior motivação já está a acontecer. É constante e dinâmica. No treino desta manhã (sábado passado), nós penalizámos cada situação má com flexões de braços, que serviram para transmitir aos jogadores que não podem errar. Seja na conquista da bola, no passe, nas placagens, no posicionamento em campo. Já ontem – e a nove dias do jogo – tivemos no final do treino, ainda no campo, uma conversa fortíssima em termos sentimentais. Falámos acerca daquilo que foi o nosso passado e dos 80 minutos que faltam. O meu adjunto Daniel Horcada, por ser argentino e estar mais próximo do Uruguai do que nós, chamou a atenção para a rudeza com que vamos ser confrontados. Configurou o palco onde vamos actuar como o mais difícil de sempre, vincando que os jogadores nunca estiveram num ambiente tão hostil. E logo a seguir eu disse exactamente o contrário, que acho que é aí que nós actuamos bem. Eu conheço-os mentalmente e disse-lhes que os uruguaios podem ser 15 mil no estádio mas nós teremos um milhão atrás de nós, a fazer força positiva. Disse-lhes que temos de ganhar por nós próprios, mas também pelo país, pelas nossas famílias – das quais temos estado muito ausentes, não podendo dar a atenção devida aos filhos, mulheres e namoradas –, pelos nossos clubes.

E para o dia de jogo, tem alguma surpresa que possa antecipar?
Já tenho tudo preparado. Vou-lhes pedir, como sempre faço, para desligarem os telemóveis bem cedo. Podem enviar um beijo a quem quiserem, mas depois que desliguem os aparelhos. É que às vezes basta receberem uma mensagem, de alguém que lhes é muito querido, que quer transmitir o melhor que pensa no momento e acha que vai ajudar, para tudo funcionar ao contrário. Às vezes, essas mensagens não têm nada a ver com o contexto do que se vai passar e tira os jogadores do sentido colectivo que estamos a tentar criar à sua volta. De resto, vão ver um DVD momentos antes de entrarem dentro do campo, só com imagens de râguebi, sem qualquer mensagem exterior, em que se vai focar exactamente os jogadores que gostavam de lá estar e não podem, porque não optámos por eles – apesar de terem sido de uma entrega fantástica e darem tudo para serem chamados. As imagens vão focar muito esses jogadores e também a juventude, os quase 2.000 miúdos que jogam râguebi em Portugal e têm uma paixão louca por todos estes que estão aqui na selecção, considerados uns autênticos heróis. Essa pequenada conhece-os a todos pelos nomes e colecciona autógrafos. Vamos também mostrar fragmentos das famílias deles a gritarem por Portugal, a sofrerem na bancada. E vamos mostrar râguebi, os melhores momentos desta equipa em jogos anteriores. Finalmente, haverá uma surpresa na exibição desse DVD, que eu não posso revelar. Penso que irá criar um grande efeito em termos motivacionais e não quero desfazê-lo.

Da maneira como fala, parece que já só falta mesmo ganhar. Se não ganharmos, imagino quão penosa será essa desfeita?
Eu sou uma pessoa que me dou a missões. Dou-me a projectos e às vezes acredito primeiro e mais do que aqueles que me convidam. Tenho esse dom, se assim lhe posso chamar. Olho sempre para o futuro, com muita prudência mas, acima de tudo, o que me marca é olhar sempre com confiança. Preparei-me a mim e aos jogadores para ganharmos. Aquilo que me passa como imagem pessoal e interior é vê-los de braços no ar, no final do jogo, aí sim, a telefonarem para casa e a dizer: “Nós conseguimos!”. É isso que neste momento ocupa todo o meu pensamento, o sentido da vitória. Se perdemos, terei de reagir e ajudar o grupo a reagir, com todas as forças que tiver no momento. Sempre fui um líder no bom e no mau. Há uma coisa que vou dizer aos jogadores antes de entrarmos em campo: confiem a 1000% na nossa estratégia e façam tudo o que pedirmos. Se ela falhar, nós, treinadores, assumiremos; se correr bem, serão eles os vencedores. Mas o que eles vão fazer não é nada fácil. Já estive na pela deles e nunca consegui ser melhor. Nem eu nem aqueles que comigo jogaram.

O que é que Portugal tem a ganhar com uma ida ao Mundial?
Vou ser franco. Portugal já ganhou muito. A imagem do râguebi é hoje totalmente diferente. Todas as pessoas que têm trabalhado na modalidade, que é centenária, tiveram um papel importantíssimo no crescimento do râguebi. Mas, sinceramente, eu acho que foi este grupo, através da selecção nacional e através da postura e atitude dos jogadores, que modificou, e muito, a imagem do râguebi. Este grupo, inclusive, pôs todas as estruturas, a todos os níveis, a trabalhar muito mais. Mas isto é um trabalho de equipa e não foram só os jogadores que o fizeram. Foram os dirigentes, o pessoal de suporte, os treinadores dos clubes, os árbitros, os miúdos. Toda a gente no râguebi português está a trabalhar como nunca, está muito motivada e alegre. A vitória de uma primeira ida à fase final de um Campeonato do Mundo seria o culminar disso tudo. Se me questionar se a presença no Mundial vai trazer muito mais ao râguebi, eu não sei. Essa pergunta terá de ser feita ao presidente da Federação. Mas eu penso que seria um grande prémio, acima de tudo para aqueles que fizeram o râguebi crescer. Se calhar essas pessoas não são a imagem visível da modalidade, mas são o suporte de tudo isto. E para os jogadores, então, seria um prémio fantástico, uma coisa que não está ao alcance de todos.

Embora no caso de sermos apurados, e na condição de única equipa amadora, a única coisa que tenhamos garantida seja o último lugar…
É, mas temos de ter ambição, apesar de estarmos num grupo muito complicado, com a Nova Zelândia, Escócia, Itália e a Roménia. Mas veja-se: jogar com a Nova Zelândia é hipótese que surge uma vez na vida! Defrontar os ‘All Blacks’ no Mundial? Meu Deus, até dessa possibilidade eu creio que os jogadores retirarão uma motivação extra para o jogo de hoje. Os ‘Lobos’ contra os ‘All Blacks’! Se calhar abriria pela primeira vez as notícias num Telejornal! Depois, o jogo com a Itália serviria para mudar a imagem que deixámos na última partida (derrota por 83-0). E, para fechar, a Roménia, naquela que seria a nossa grande final. Talvez, quem sabe, pudéssemos surpreendê-los ‘em casa’, já que 90% dos jogadores da selecção alinham em clubes franceses. Seria como ganhar na casa deles, podendo contar com a ajuda dos inúmeros portugueses emigrantes. Porém, tão importante como garantir o lugar no Mundial será, depois, ver como é que vamos fazer para conseguir estar sete semanas num Campeonato do Mundo…

Como assim?
Refiro-me ao tipo de preparação que poderemos fazer para nos apresentarmos em condições mínimas. Porque com o ritmo interno que existe, não há hipóteses. Ou os jogadores continuam a trabalhar todos os dias da semana, com a intensidade que se mete num treino da selecção, ou então não chega.

O facto do Mundial decorrer após as férias de Verão, no início de uma nova época, não ajuda muito…
Nem mais. A partir do momento em que nos qualifiquemos, o râguebi português ao nível dos clubes vai ter de sofrer mais um bocado, vai ter de abrir mão dos jogadores. Os clubes vão ter de ser excelentes, que é o que têm sido até agora. Por isso, tenho de deixar aqui, desde já, uma mensagem de agradecimento aos clubes por tudo o que têm feito. Termos chegado até aqui é muito deles. E para o Mundial, se lá formos, teremos de manter este nível de exigência. As férias terão de ser adiadas e os jogadores de submeter-se a trabalho diário sistematizado, de se reforçar muscularmente. Se assim for, poderemos ser um Mini a correr contra Ferraris. Caso contrário, poderemos chegar à partida e nem sequer arrancar. Por isso, o trabalho nesses quatro meses até ao Mundial terá de ser de altíssima qualidade.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 24 de Março de 2007, 1.º Caderno, página 41