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Taça de Portugal: "É de Chaves!"

No bar do Desportivo de Chaves, apenas duas pessoas assistiram ao jogo entre o Chaves e o FCP à espera de uma surpresa. História, essa, já o Chaves tinha feito, ao chegar pela primeira vez , em 61 anos de existância, à final da Taça de Portugal.

Eduarda Freitas (www.expresso.pt)

Quatro e meia da tarde. Joaquim está sozinho. Sentado, com os olhos postos na televisão. Lá fora o sol aquece os carros que aqui foram deixados de madrugada. Estamos no bar do Estádio do Desportivo de Chaves. "Não fui a Lisboa porque estou muito magoado pela descida do Chaves...tenho uma mágoa muito grande, fiquei muito desiludido". Joaquim é funcionário do bar do clube. É homem de convicções.

" Não houve atitude por parte dos jogadores no último jogo... não fizeram nada para ganhar frente ao Fátima, se calhar tinham medo de se magoarem e de não irem jogar hoje para a montra...". As imagens passam na televisão, o onze das equipas é anunciado. Joaquim continua com os olhos no ecrã, os dedos imóveis sobre a mesa. É sócio do Desportivo de Chaves há mais de 30 anos. Quase os mesmos em que trabalhou na restauração. Há três que trocou os restaurantes pelo bar do Desportivo.

Neste domingo de Taça, o bar está quase em silêncio. Só o som da televisão. A máquina do café parece dormir. O bar parece maior sem o rebuliço do dia dos jogos. "Não faço ideia se vem aqui ter alguém ou não para ver o jogo...". A dúvida dissipa-se quase no mesmo instante. " Viste o Zé Manel na televisão?". É Celso Magalhães quem entra pela porta com um sorriso rasgado. Tal como Joaquim, é adepto do Chaves "desde sempre". Pega no telemóvel, liga ao filho que saiu às seis da manhã da cidade flaviense para ir ver o jogo à capital. "E que tal? Estou a ver... estou... O Chaves joga do vosso lado? Exacto...de sul para norte. Ok...".

Joaquim e Celso escolhem a mesa mais perto da televisão. Apertam as mãos num cumprimento rápido. "Boa sorte", dizem. O jogo começa. "Não estou nervoso. Temos a noção que não somos os favoritos...vamos lá fazer o melhor e pronto...é na proporção de 90 para 10... mas já se sabe, a bola é redonda...". Joaquim nem se mexe. "E não jogamos com o nosso equipamento porquê?", pergunta Celso em jeito de lamento. "É que o nosso equipamento é igual ao do Barcelona!".

A bola quase entra na baliza do FC Porto. "Edu!ai!ai!". Celso contorce-se na cadeira. Estica a perna, pontapeia no ar. "Quase entrava! Quase!". Quase, mas a bola, redondíssima, não fez a vontade a estes homens de Chaves. O jogo continua enquanto a garrafa de cerveja em cima da mesa vai esvaziando lentamente com os minutos. O Porto marca. "Frangada!". Celso lamenta. Joaquim abre a mão, solta os dedos cerrados. Deixa cair a carica da garrafa. Lá fora está muito calor. O céu veste-se de um azul inspirador. Aqui, no bar, a esperança - tímida - vai dando lugar ao encolher de ombros.

"Perfeito seria trazer a Taça..."

"Resistimos 13 minutos. Vá lá, não é mau!". Joaquim levanta-se e vai buscar um sumo. Segundo golo do Porto. Celso Magalhães não tem dúvidas: "Golo de caquinha!". Se acreditam na reviravolta, estes homens não o dizem de forma aberta. O jogo, o outro que se joga entre os sonhos e as probabilidades, está ganho. Chegar à final da Taça, dizem, já é tudo. Quase tudo. "Perfeito seria trazer a Taça... já temos lugar para a expor", diz Joaquim, apontando para a sala dos troféus onde repousam taças a galhardetes de tempos passados. "A de Portugal seria especial...". Os olhos de Joaquim Anes brilham quase tanto como o céu, ao mesmo tempo que grita "golo" do Chaves, que, afinal, não foi.

 Ao intervalo, Celso liga ao filho no estádio. Quer saber pormenores do golo anulado... "Pronto...pronto...está bem...não foi". O jogo vai-lhes passando diante dos olhos. Os sons de lá provocam emoções deste lado. "Ouve! É de Chaves! É de Chaves! São os nossos a cantar! Ao menos não se calam!". Celso deixa esmorecer a cerveja em cima da mesa. A festa não lhe pertence. "Se ao menos não tivéssemos descido de divisão...". A despromoção da Liga Vitalis para a 2ª B, não lhe sai da memória. "Vai haver menos entusiasmo, menos sócios...", antevê Joaquim. "Já só somos mil, dantes já fomos mais de sete mil...". A matemática angustia estes dois adeptos que olham para o relógio. E só já faltam dez minutos para acabar o jogo.

Mas... "golo!golo" este valeu!". Golo do Chaves. Celso salta da cadeira. Joaquim dá uma gargalhada. "Ó vida...". Levanta-se. Troca a garrafa de cerveja já velha por uma fresquinha. Novo remate do Chaves. "Era lindo irmos ao prolongamento...mas eles marcam já a seguir", diz, desconfiando da própria vontade e esperança. "Vamos, vamos...!". Joaquim senta-se outra vez. "O nosso povo salta! Olha o nosso povão! E ainda não acabou...calma! Quatro minutos de fé...de compensação". Aqui, no bar do Desportivo, acredita-se, nem que seja só um bocadinho. Até ao fim. E no fim... "resignados. Foi o que deu...". Celso e Joaquim ficam quase como estavam, a olhar para a televisão, a ver os de Chaves, lá longe, no Jamor.