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"Perguntavam-me: 'Mas tu és um jogador ou uma mascote'? E eu entrava e partia aquilo tudo"

Clássicos. Dominguez habituou-se aos jogos grandes, ou não tivesse jogado no Sporting e no Benfica

Reuters

José Dominguez era (e é) baixo, gostava de enfrentar matulões e jogou em dois grandes: no Benfica, quando era miúdo, e no Sporting, quando era menos miúdo. Voltamos a ele no fim-de-semana em que volta também o campeonato português.

Já falaste com o Sá Pinto? Não, porquê, passa-se alguma coisa? 

Eu pedi-lhe o teu número há tempos e ele disse-me que não o tinha. Ah, o Sá, pois. A questão é que eu sempre mantive este número só que quando estava na Colômbia deixei o meu iPhone aqui com a filhota. E também lhe perdi o rasto. Sabes, é que lá na Colômbia as comunicações da internet são péssimas: vão, vêm, vão, vêm, enfim. 

E o resto? Qual resto? 

Cartagena. Eu fui treinar o Cartagena por causa daquele protocolo com o Sporting. Posso dizer-te que a cidade é bonita e muito turística, a mais turística do país. Quanto ao clube... Bom, houve algumas dificuldades e tenho histórias que davam para um livro - as que puder contar claro. E quais são as que podes contar?Bom, a primeira é que cheguei lá com a promessa de que só me venderiam um dos goleadores - acabaram por vender três. E, depois, as condições não eram boas. O autocarro, quando tinha combustível (porque às vezes não tinha), servia de vestiário, de casa de banho e de gabinete técnico. E os miúdos que eu treinava eram muitos deles de estrato social baixo e então tinha eu de pagar o táxi para eles conseguirem chegar ao treino. Por exemplo, se marcava o treino para as 7 da manhã, já sabia eu aquilo começava às 11h30. 

Os miúdos tinham talento? Alguns deles, sim, mas só com bola. Falta-lhes formação porque sabem jogar com bola mas não sabem procurar o espaço, defender. Mas fico feliz porque notei uma grande evolução. 

Tu também não eras propriamente o tipo mais tático. (risos) Não é bem assim. Eu tive sorte porque tive escola de Benfica e também no Sporting. Aprendi e eu procurava o espaço para receber a bola, se bem te lembras. 

Lembro-me da ginga, isso sim. Chegaste a participar nos treinos com estes miúdos do Cartagena? Sim, claro, muitas vezes para criar uma relação de proximidade com o jogador, até para lhes explicar alguns conceitos. 

E que tal? Ainda os fintavas? (gargalhada) Fazia isso fácil! Ainda hoje! 

Sempre gostaste de fintar. Sempre, desde miúdo que era assim, na rua ou depois nas escolinhas do Benfica. Dava-me gozo (no bom sentido!) ir para cima do adversário e 'parti-lo'. 

Sentias que tinhas algo a mostrar? Por causa do teu tamanho? Talvez, não sei. Mas eu nunca tive medo de nada, nem das porradas que levava. 

Como foi a vida no Benfica? Foi boa enquanto durou. Aprendi muito mas também fui percebendo que nunca chegaria longe lá. Quando cheguei aos 19 anos fui emprestado ao Fafe e por lá andei até ir para Inglaterra. 

Para o Birmingham, da segunda divisão. Sim. Ainda me lembro do dia em que lá fui à experiência. Eu tinha um contacto lá, que era o David, um agente, que me foi apresentado pelo agente português que eu tinha, o Ângelo Martins. Cheguei lá, em finais de janeiro, salvo erro, com um grande frio e deram-me uma camisolinha, uns calções e umas botas. No balneário ninguém olhou para mim. Fui para o campo, puseram-me de lado enquanto o treinador adjunto dava o treino e o treinador principal, o Barry Fry, andava lá ao telemóvel para a frente e para diante.  E ouvia os jogadores uma coisa que já tinha ouvido antes "Então mas o que é isto? Tu és um jogador ou uma mascote?". Sou baixinho, lá está, e pensava para mim: "Mascote? Já vais ver como é. Deem-me a bola e eu mostro-vos quem é a mascote." Então o David foi ter com o Barry e disse que era inadmissível eu estar ali ao frio e a olhar para nada. 

E como correu? Fiz o que sempre fazia: entrava e partia aquilo tudo. Em duas jogadas. Fintei três, quatro gajos, cruzei, golo. E fintei novamente três, quatro gajos, cruzei, golo. Pronto. Calaram-se. Disseram-me logo que queriam ficar comigo mas eu tinha a minha situação do Benfica e do Fafe, a quem estava emprestado, para resolver. Então a minha vida era entre Portugal e Inglaterra durante uns tempos. Treinava e jogava no Fafe e ia lá mostrar-me ao Birmingham porque tinha de ser testado em competição, num jogo de reservas, que andava a ser adiado por causa da neve. Quando finalmente consigo então estrear-me, contra o West Bromwich, já toda a gente tinha ouvido falar de mim. Estavam 9 mil pessoas na bancada num jogo de reservas e eu entrei de início e ganhámos por 5-0. Fiz quatro assistências. Espectáculo. Acontece que estavam lá muitos olheiros de outros clubes e... 

Estiveste para ir para um deles? Lembro-me de receber um telefonema para o quarto do hotel às 6 da manhã. Era o David, o meu agente. "Tens botas de futebol?". E eu: "Tenho". E ele: "Então anda daí, vamos dar um passeio." E eu: "Não íamos assinar contrato agora?". "Vá, vamos a um sítio." Levou-me de carro para o Blackburn, que era treinado pelo Kenny Dalglish, e fui fazer um treininho à experiência. Entrei e parti aquilo tudo. A sério. Lembras-te do Colin Hendry? 

O escocês grandalhão. Esse mesmo, capitão da Escócia. Fiz-lhe logo uma debaixo das pernas e ele: "Pára com isso! Já percebi que para tirar a bola a este miúdo só com um pau". Sempre gostei de apanhar defesas grandes (risos). Mas acabei por ficar no Birmingham porque no Birmingham iria jogar a titular e eu não podia parar. E foi o melhor que fiz. Não estás a ver bem o ambiente em Inglaterra. Eu fintava um, dois, três e o público gritava: "[faz o som do vento] Ahhhhhhhh". E depois eu falhava o cruzamento e eles: "Ohhhhhhhh". Mas batiam palmas logo para incentivar! Eles gostavam daquilo, da minha atitude. O meu treinador só dizia: "Son, enjoy yourself". Foi o Birmingham que me levou aos sub-21 de Portugal e ao Sporting, através do Nelo Vingada. 

No Sporting estiveste apenas dois anos mas ficaste marcado como o futebolista da noite. Tu, o Dani, o Sá Pinto.  Ah, o Daniel. Era um bocado complicado porque ele era a estrela do Mundial sub-20 e tinha muitas miúdas à volta dele. Às vezes, exagerava-se um bocadinho mas, digo-te, também foi tudo empolado. Por exemplo, se estivéssemos os três a jantar às 22h30 toda a gente diria que estávamos bêbados porque estávamos a rir. É uma coisa latina. Em Inglaterra, por exemplo, os jogadores até se sentiam mal se não bebessem uma com os adeptos porque o que eles mais queriam era pagar uma pint. Havia convívio, percebes?  

E houve o episódio da passagem de modelos. Isso ainda é mais estranho porque nós fizemos aquilo tudo de forma legal. O Sporting deu a autorização e o que nós fizemos foi apenas emprestar a cara uma passagem de modelos da Abraço. Entregámos bolas de futebol autografadas para aquela instituição. Só que, lá está, quando os jogos corriam mal, eram logo coisas do género: "Lá estão os modelos". Não dava. 

Em Inglaterra com a camisola do Tottenham. E quem está ao seu lado? A lenda Ryan Giggs

Em Inglaterra com a camisola do Tottenham. E quem está ao seu lado? A lenda Ryan Giggs

D.R.

Mas deu o Tottenham, onde jogaste com o Ginola, por exemplo. Eh pá,o Ginola é um amigo pessoal. Fomos companheiros de quarto e é um tipo excecional. Para já, nunca vi (nunca vi!) um gajo jogar tão bem com os dois pés como ele. Era ambidextro. Depois, como era forte, usava bem o corpo que tinha e era classe pura. Extraordinário. E ele sabia falar português. 

Como assim? Não o português, português. Era mais o português malandro, se é que me faço entender. 

Asneiras, portanto (risos) Sabes porquê? Porque a casa dele, em Saint Tropez, fora construida por 21 portugueses e ele passava o dia todo a ouvir aqueles palavrões (risos). Ele era um espectáculo: tinha pinta, era a cara da L'Oreal, foi ao funeral da princesa Diana, enfim, e aquilo causava um bocadinho de inveja aos outros, estás a perceber? [silêncio] Bons tempos os da Premier league. 

E os adversários? Havia um que me dava muita luta, o Gary Kelly, do Leeds. Porque não era muito alto mas era duro. Ganhei algumas, perdi outras, mas ia lá sempre. O Lee Dixon, do Arsenal, também era complicado, mas eu não tinha medo porque não ligava a quem estava à minha frente. O que eu gostava era de partir o defesa, sempre foi assim. Imagina, o jogo começava e a primeira coisa que eu tentava fazer era fazer passar a bola debaixo das pernas do outro e já sabia que depois disso ia levar uma caceteada. Mas não me ficava por aí e na jogada seguinte ia lá outra vez fazer o mesmo. Queria desorientar e quando começas a levar pancada percebes que o adversário já não sabe o que fazer: "Então mas virei o gajo e ele vem aqui outra vez? O que é que eu faço?" 

Jogaste com muitos personagens. Como o Mario Basler, no Kaiserslautern. E o Mirolsav Klose também. Mas, o Mario não era o Mario, era o Supermario Balser. Ele já estava no fim da carreira mas ainda tinha uma qualidade extraordinária. E era maluco. Fervia em pouca água mas tinha uma moral... Às vezes sentava-se no banco de suplentes a beber uma cerveja, tirava cartões aos árbitros, era uma festa. E gostava de pregar partidas - aliás, eu e ele gostávamos de pregar partidas. Esconder roupa, mandar malta para o jacuzzi, trancar colegas no balneário. No Sporting, por exemplo, o Filipe era tramado: chegávamos ao balneário e tínhamos as nossas roupas penduradas no tecto! Mas joguei com mais gente, como o Pep Guardiola. 

E o Romário, no Vasco da Gama. Sim, já lá vamos. O Pep Guardiola era excelente no Al Ahli, no Qatar. Dava-me muitas indicações de posicionamento, explicava-me muita coisa, era um líder nato. E adorava golfe. Às vezes acabava o treino, e lá estava ele com o taco a treinar o swing! Quanto ao Romário... Bom é uma história longa porque eu, supostamente, era para ter ido para o Flamengo depois do Qatar e estive uns dias num hotel do Rio de Janeiro à espera de resolver a minha situação. Passava o dia no ginásio a fazer reforço muscular porque tinha sido operado pela quarta vez aos joelhos (lá está, da porrada que levei). Mas já sabes como é no Brasil: vão enrolando, vão enrolando, até ao dia em que entro num táxi com um dirigente que me dá dois contratos iguais: uma para o Botafogo, outro para o Vasco da Gama. Fui para o Vasco da Gama porque o vice-presidente era português e tinha 300 táxis no Rio. E lá estava o Romário.

O verdadeiro Baixinho. Pois (risos). Eu lá não era o Baixinho, era ele. O general Romário! Eu era o "Portuga". Mas olha que o Romário é um grande gajo. Ele fazia o que queria, é verdade: não jogava muitos jogos fora (São Paulo era o mais longe que ia), só treinava nos treinos coletivos e passava muitas horas na praia. Mas, quando a bola chegava à pequena área, era golo. Eu dava-me bem com ele. Aliás, lembro-me de um dia ele dar uma entrevista a um jornal carioca: "O Portuga tem de jogar". Era contra o Palmeiras, no Morumbi. Eu já sabia que ia jogar porque o meu treinador já me andava a dar minutos e, então, estreei-me a titular, com a camisola 10, e fiz uma assistência para o Romário. Muito bom, não? 

E jogaste com ele futevólei? Era para ter jogado uma vez. Entre treinos, porque havia treino de manhã e à tarde, fui com o Alex Dias [jogador] ao posto n.º3 da Barra da Tijuca, que era onde o Romário costumava jogar futevólei com a malta. Cheguei, ele sentou-se connosco, bebemos umas águas de côco e tal e quando estava na hora de ir para o treino, perguntei-lhe: "Vens, Romário?" E ele: "Não, e nem vocês precisam de ir que o papo está bom demais. Deixa eu só dar uma ligadinha para o presidente e vocês ficam liberados." Não quis arriscar e fui treinar. Mas o Romário era um personagem. Já que estamos a falar disto, também joguei com o Klinsmann, no Tottenham. Mas talvez o maior personagem de todos seja o Nicola Berti, o italiano. 

O que é que ele fazia assim de tão extraordinário. Jogava golfe com charuto na boca. E o fumo ia-lhe para os olhos e ele começava a verter uma lagrimita aqui e ali mas não perdia a postura de mauzão. Era um malandro, só rir. Um dia chamei-lhe palhaço e ele levou a mal porque não entendeu o que quis dizer. E eu: "Ó Nicola, não tem nada a ver, digo que és palhaço porque pões toda a gente a rir, não é por mais nada." E ele: "Vê lá, vê lá o que dizes." O futebol deu-me muitas coisas e arrependo-me de, por vezes não ter aproveitado mais, ouvido mais algumas coisas. Tive uma boa carreira, sim, mas talvez pudesse ter ido mais além. Mas fiz muitos amigos. [silêncio] Olha Pedro foi um prazer falar contigo, por acaso tens o contacto do Sá? 

Vou passar-to por mensagem Ok, obrigado.