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"Para ser campeão é preciso tempo e alguma paciência!"

Assume como objectivo uma vitória do Benfica já no próximo campeonato?

No jogo do adeus, os adeptos agradeceram ao ídolo

No jogo do adeus, os adeptos agradeceram ao ídolo

O clube não pode entrar em nenhuma época assumindo que não vai ganhar, ou partindo do princípio que não vai ganhar. Todo o trabalho no Benfica, em qualquer ano da sua história, tem como objectivo ganhar. No meu primeiro ano, sendo um ano zero para toda a estrutura que está a ser montada - com o intuito não de ganhar um campeonato, mas de abrir ciclos -, espero estar ao nível das exigências e lutar para ser campeão. Mas o objectivo será sempre não passar onze anos sem ganhar um campeonato; será formar uma estrutura, uma equipa consistente, hoje e no futuro. Agora, ninguém se iluda o futebol precisa de tempo e alguma paciência!

Para ficar claro: quer ser campeão já no próximo ano? Se conseguir ganhar no primeiro ano, não vou dizer que não o vou fazer. Conhecendo o clube, nunca poderei permitir começar um trabalho sem o objectivo de tentar ganhar. Portanto, vou tentar ganhar no primeiro ano.

Não vai pedir tempo? Ponho a questão de outra forma. O que é preferível? Ganhar já no primeiro ano, para mostrar a toda a gente que tenho capacidades, e depois ficar a navegar mais uns anos, porque a estrutura foi montada só para um ano e não para o futuro? Ou não ganhar neste ano, mas criar uma estrutura consistente, que me abra possibilidades para depois abrir ciclos? Nestes termos, eu preferiria esperar. Mas sei que não tenho esse tempo de espera. Hoje, é preciso sobretudo estabilizar o clube. E essa estabilização exige tempo. Exigindo tempo, não é obrigatório que se ganhe tudo no primeiro ano.

Mas é obrigatório ser campeão? É obrigatório lutar para ser campeão. Não é obrigatório ser campeão se percebermos que estamos no bom caminho para o vir a ser. Pode parecer uma vitória moral, mas não é. No ano que acabou, o Benfica esteve longe de poder ganhar (É interrompido por um cliente do restaurante). A obrigação de estabilizar o futebol pode obrigar a que não se chegue à vitória de imediato. Não é fácil, devido à mentalidade do presente, à urgência que todos colocam no curto prazo, mas ripito: É preciso criar uma base de estabilidade como houve no passado, em que, em dez campeonatos, o Benfica lutava pelos dez e ganhava sete. Ora, o Benfica de hoje não está a lutar pelo campeonato. O primeiro passo é colocar o Benfica a lutar pelo campeonato.

"O golo contra a Irlanda, em 1995, foi o melhor da minha carreira. Foi perfeito!"

Qual foi o melhor futebolista com quem jogou? Paolo Maldini, do Milão, o jogador mais completo de todos.

Qual o futebolista com quem jogou e que passou ao lado de uma grande carreira? Luís Mariano, um ex-jogador do Benfica. Cresceu comigo nas camadas jovens, era um ano ou dois mais velho. Era também um número 10 (um médio centro ofensivo). Tinha um talento fora do normal.

Era tão bom quanto o Rui? Não, era sem dúvida melhor que eu. Foi sénior do Benfica, jogou na 1ª divisão vários anos, mas não atingiu o patamar que as qualidades exigiam. Nunca percebi porquê, e tenho pena que se tenha perdido esse talento!

Que treinador mais o marcou? Carlos Queirós, na selecção, e Eriksson, no Benfica. Cada um à sua maneira.

E o pior?

O pior é feio dizê-lo (risos).

Foram muitos? Não, graças a Deus, até porque os clubes por onde passei obrigavam a ter bons treinadores. Mesmo aqueles que considero menos fortes (não digo mais frágeis) me ensinaram sempre alguma coisa.

Dos dois referidos, nenhum é italiano. Carlos Queirós é o treinador que apanho na formação, que me deu uma consistência futebolística forte, para aquela idade. Eriksson é o meu primeiro treinador no Benfica, ganhador em toda a parte onde trabalha.

Qualquer um deles seria um bom treinador para o Benfica? Claro que sim. Qualquer grande treinador é um bom treinador para o Benfica. E qualquer dos dois é um grande treinador.

Não falou no actual seleccionador nacional... Perguntaram-me por aqueles que mais me marcaram. Mas posso juntar outros: Scolari, Anceloti, Malesani... Ao escolher Queirós e Eriksson, não quis dizer que os outros são maus. Todos me fizeram aprender muito - até os menos fortes. Não encontrei muitos que me tivessem desiludido, e tive muitos com quem gostei de trabalhar.

O golo marcado no Estádio da Luz, contra o Benfica, pela Fiorentina, foi o "mais difícil" da sua carreira, como diz num anúncio. E o mais marcante, ou que deu mais gozo? No Portugal-Austrália, nas meias finais do campeonato do mundo de juniores, em 1991, em que ganhámos 1-0; e o primeiro golo do Portugal-Irlanda, que garantiu a qualificação para o Europeu de 1996 (vitória final por 3-0). Considero este o melhor golo da minha carreira. Além da beleza, teve outro significado: bastava o empate para sermos qualificados, mas o golo, a meio da segunda parte, praticamente garantiu o apuramento.

Foi o golo mais artístico? Foi o golo de maior inspiração. Tenho outros que recordo com muito orgulho e prazer. Mas aquele foi onde usei mais a potência e é o mais perfeito tecnicamente. Foi talvez o meu maior momento de inspiração. Foi um golo todo intencional.

E o golo em que teve mais sorte? Marquei alguns, não muitos, porque também nunca fui de fazer muitos golos. E quase sempre marcados de fora da área, o que dá uma certa beleza... O de mais sorte foi talvez num Portugal-Hungria, num livre directo. Bati mal a bola, que chegou muito devagar ao guarda-redes. Ele, em vez de defender, tentou agarrá-la logo, para lançar um contra-ataque. Como o campo estava molhado, e ele devia ter as luvas molhadas, a bola escorregou-lhe das mãos e entrou na baliza, numa altura em que eu já me estava a virar para trás, para defender, e chateado comigo porque o remate não me saíra bem. Quando voltei a olhar, a bola já estava dentro da baliza.

Não falou do pénalti que deu a vitória a Portugal no Mundial de juniores de 1991. Esse foi o momento de maior alegria da minha carreira. Foi um pénalti marcado numa discussão a pénaltis. Não entra nos golos de uma carreira.

Qual foi o maior falhanço? O pénalti contra a Inglaterra, nos quartos de final do Europeu de 2004. Aconteceu depois de ter feito também um dos melhores golos da minha vida, que na altura deu o 2-1 a Portugal. Esse é um golo de potência, em que eu saio de um drible e dou um remate seco. Tanto podia sair como saiu, como podia ter saído por cima da baliza.

"O presidente de quem guardo mais carinho é Jorge de Brito"

Domingo, 11 de Maio de 2008, o ponto final de uma garnde carreira

Domingo, 11 de Maio de 2008, o ponto final de uma garnde carreira

O melhor jogo da sua vida? Um Milão - Real Madrid, para a Liga dos Campeões. E tenho um Benfica-Parma, nas meias finais da Taça das Taças, no Estádio da Luz. Faço a assistência para o 1-0 e marco o 2-1. Mas a maior recordação desse jogo é outra. Quando entrei no campo para aquecer, surgiu nos placars do estádio a inscrição do dia dos meus anos, que era aquele, e os votos de 'Parabéns Rui'. Enquanto fazia o aquecimento, estavam 120 mil pessoas a cantar os parabéns. Foi a vez em que convidei mais gente para o meu aniversário (risos). Um momento e uma sensação únicos.

A melhor época? A de 2002-2003, quando fui campeão europeu pelo Milão.

A época que agora terminou foi a pior para si? Não. Ficou muito aquém das expectativas, mas não foi das piores. Pessoalmente, até foi muito positiva. A pior que tive foi nos primeiros tempos da Fiorentina.

Qual foi a melhor equipa em que participou? O Milão campeão europeu e a selecção portuguesa do campeonato da Europa de 2000.

O melhor ponta de lança com quem jogou? Gabriel Omar Batistuta, avançado argentino da Fiorentina.

O médio que lhe deu mais trabalho? Didier Deschamps, capitão da França e jogador da Juventus.

Ele secou-o? Não direi secou, porque ele também sofreu bastante. Eram duelos difíceis para os dois. Assim como o Marcel Desailly, outro francês, quando eu era médio da Fiorentina e ele médio do Milão.

Quem foi mais duro consigo? Nesses parâmetros, nunca entram jogadores das grandes equipas, são sempre de clubes mais fracos, que jogam menos e têm de usar menos meios. Em Itália apanhei alguns, com marcações pelo campo todo. Lembro-me de um, em que eu chegava a ir beber água e ele ia comigo. Chama-se Bonacina, jogava no Atalanta. Fui muitas vezes ao tapete com ele, mas nem com ele consegui ter má relação.

Era uma espécie de Paulinho Santos versus João Vieira Pinto... São jogadores que têm como grande qualidade servir a defesa, quando a minha era servir o ataque. Com o Paulinho tive alguns problemas, mas sem grande importância. Cheguei a fazer dupla de médios com ele na selecção. Ele dizia-me: "Não te quero do meio campo para trás. Vai lá para a frente, para ajudares a resolver o jogo".

O melhor clube? AC Milão e o Benfica

O melhor presente? Entre as 120 mil pessoas a cantarem-me os parabéns no Estádio da Luz, a despedida no passado domingo e as 35 mil bandeirinhas portuguesas em Florença, quando voltei à cidade e fui lá com o Milão (não joguei, estava lesionado, mas pediram-me para ir lá), são presentes muito iguais, não é fácil escolher.

O melhor presidente? O melhor presidente, o melhor presidente... (hesitação). Não tive muitos. Nos sete anos na Fiorentina, tive um; nos cinco no Milão, tive um; no Benfica, tive cinco: Fernando Martins, João Santos, Jorge de Brito, três meses de Manuel Damásio e Luís Filipe Vieira. (Nova hesitação) O presidente de quem guardo mais carinho - porque passou uma fase muito difícil no Benfica, porque deu o que tinha ao Benfica e acabou por sair de forma inglória - é o Jorge de Brito, mas é evidente que seria injusto excluir Luís Filipe Vieira. O Clube e eu pessoalmente devemos-lhe muito!

O melhor estádio? O estádio da Luz, o antigo. Este é mais moderno, mais confortável, o antigo era mágico!

A melhor claque? Ainda está para vir. Estou convencidíssimo que no próximo ano vou ter a melhor claque do país. Faz parte dos meus objectivos que o estádio da Luz tenha cor e vida.

"Para se ser futebolista é preciso equilíbrio entre o aplauso e o assobio"

“É preciso saber lidar com o sucesso”

“É preciso saber lidar com o sucesso”

Alguma vez foi vaiado? Várias vezes, inclusive no estádio da Luz.

É difícil superar isso? É difícil. Mas sempre usei um lema, que gosto de usar quando falo para futuros jogadores. Uma pessoa só será futebolista se conseguir alcançar um equilíbrio entre o aplauso e o assobio. Não se pode empolgar demasiado com o aplauso, nem afundar-se demasiado com o assobio. Quando conseguir criar uma estabilidade emocional para aceitar ambas as coisas, ultrapassou o maior obstáculo para vir a ser jogador. Uma das coisas que priva mais um jogador é não aceitar a crítica: não conseguir conviver com os maus momentos, recear a forma como o estádio o vai receber. Assim, perde-se auto-confiança, determinação, e tudo o mais. E pode perder-se um talento.

Entre os dois extremos, não saber conviver com a crítica ou deslumbrar-se com a euforia, o que é pior? Não saber lidar com o sucesso. Quanto menos se consegue lidar com o sucesso, mais a pessoa sobe e maior é, depois, a queda. Acontece a muita gente.

Lê atentamente o que escrevem sobre si? Nem sempre, nem sempre...,

Já se incompatibilizou com algum jornalista ou cronista? Não. No passado, já tive críticas que não aceitei, mas nunca transmiti isso a quem escreve. Assim como também já tive elogios que não estavam correctos, por serem excessivos. Num caso e noutro, nunca me dirigi ao jornalista. As críticas negativas serviram-me sempre muito para crescer. Nunca me preocupei em ler só as partes positivas.

Tem amigos entre os jornalistas? Tenho muita gente, sobretudo da minha geração. A maior parte dos jornalistas com quem tenho algum relacionamento entraram na profissão quando comecei a jogar no Benfica. São carreiras paralelas.

"Sempre fumei mas nunca o revelei para não dar mau exemplo"

Consome bebidas alcoólicas em alguma circunstância? Em certas circunstâncias, sim. Nunca tive o vício do álcool. Se tiver companhia à mesa, posso acompanhar com um copo de vinho. Enquanto jogador, de férias, podia beber uma cerveja, ou um uísque, se fosse à noite a uma discoteca. Mas nunca fui um consumidor de bebidas alcoólicas.

Fuma? Fumo. Hoje já posso dizê-lo: sempre fumei. Nunca o disse, ou nunca o assumi, para não dar um mau exemplo, sobretudo a jovens ou futuros jogadores. Sei que não é bom para um desportista, é um mau vício e estou decidido, muito em breve, a parar.

É um fumador compulsivo? Não, não.

Fumava quanto? Um maço? Não, nunca cheguei a um maço de tabaco por dia.

Viu as recentes confissões do Jardel? Não vi todas, mas estou a par do que o Mário disse.

Há muita cocaína por onde passou? Sinceramente, não. Também aqui, como em todas as profissões, há os que são mais frágeis e os que são menos frágeis. A cocaína nunca foi um problema do futebol. Sempre foi um problema social e não do futebol.

Alguma vez consumiu? Não.

Foi tentado? Não. Nunca me tentei a mim mesmo.

E foi assediado? Não, e convivi com muita gente. Nunca me droguei - nem nunca estive tentado a fazê-lo.

Já não é futebolista, poderá responder: dopou-se alguma vez? Vou dizer-vos que nunca me senti alterado por natureza - e, espontaneamente, nunca me doparia na vida. Acho que respondo nas duas vertentes: "doping" voluntário e involuntário. Estranhou a condenação do Fernando Couto? Estranhei. Essa tal nandrolona, que vitimou o Fernando Couto, passou a ser o bicho mau do desporto. É uma situação de doping que nós não sabemos de onde vem. Já deixei de jogar e estou à vontade para o dizer. A nandrolona não é um medicamento ou substância que se tome para...

... melhorar o rendimento. Exacto. Passou a ser o papão do desporto. Sei que não me estou a dopar, mas não sei se vou acusar nandrolona ou não... Pode estar na carne, até no leitão... Há uma informação muito vaga sobre como é criada a nandrolona no nosso corpo. O Fernando Couto não acusou droga em lado nenhum - o problema dele foi a nandrolona.

"Só uma vez apoiei um candidato, Jorge Sampaio"

O ex-futebolista afirma que sempre protegeu a sua vida privada

O ex-futebolista afirma que sempre protegeu a sua vida privada

Onde investe o seu dinheiro? No imobiliário, desde há alguns anos.

No Algarve? Não, por todo o país.

Tem investimentos em Itália? Já tive; neste momento, não. Fiquei com este restaurante (onde se realizou a entrevista) em Novembro de 2007. Mas os meus investimentos são sobretudo no imobiliário.

Tem algum profissional que o auxilie na gestão? Tenho uma estrutura montada desde há três anos, uma empresa de promoção imobiliária, onde se avaliam oportunidades, medem-se os riscos e se tomam decisões em relação a determinados investimentos.

Teve negócios que correram mal? Tive alguns que não correram tão bem quanto desejava, mas isso é o risco inerente ao negócio. Mas, felizmente, nunca tive um que me tenha dado prejuízo.

Já entregou a sua declaração de IRS? Este ano ainda não.

Quanto pagou no ano passado? Paguei... Foi muito. Algum.

Em quanto estima a sua fortuna? Não estimo no sentido em que vocês pretendem (risos). Estimo e muito, no sentido em que a cuido - (risos). Se não perder a cabeça, os meus filhos terão uma vida bastante segura.

Continuará a fazer publicidade? Depende dos contratos, mas serão seguramente situações muito pontuais. Hoje já não sou jogador. Enquanto director, penso em tudo menos na publicidade.

Há semanas, algumas publicações falaram da sua vida privada. Em Portugal, os futebolistas são demasiadas vezes notícia por razões sociais e familiares? Expõem-se demasiado? Não diria que se expõem. Sempre protegi a minha vida privada. Estou casado há 15 anos e uma revista decidiu fazer uma primeira página sensacionalista, dizendo o contrário. Não me expus em nada. Portugal é pequeno para tantas revistas. É normal (não deveria ser, mas é) que haja muitas vezes notícias imprecisas ou mesmo falsas. Sendo errado, temos de saber conviver com isso.

Em relação aos futebolistas, há uma contradição. Às vezes, são mais notícia pela vida pessoal, familiar ou empresarial, do que pela profissão... Até porque muitas vezes não podem falar do jogo, porque nos clubes impera a lei da rolha. Os clubes pretendem apenas salvaguardar a coesão e a imagem do grupo, é normal. Não acredito que o Dr. Balsemão não imponha algumas regras aos seus profissionais! A vida pessoal surge, quase sempre, contra vontade do jogador. As audiências e as vendas assim o ditam!

Há diferenças nessas regras restritivas entre Portugal e Itália? Não, são idênticas. Concordo com um equilíbrio nessas regras.

Costuma votar? Sim. Quando estava no estrangeiro era mais difícil, porque jogava aos domingos. Mas sempre que posso, voto.

Qual foi a última vez que votou? Para a câmara da Amadora

Em presidenciais, já alguma vez votou? Nunca estive cá - tive sempre jogos nesses dias.

E em referendos? Também nunca votei.

Alguma vez apoiou algum candidato?

Filipe, 13 anos, e Hugo, 9, ambos nas escolas do Benfica, estiveram ao lado do pai na noite da despedida

Filipe, 13 anos, e Hugo, 9, ambos nas escolas do Benfica, estiveram ao lado do pai na noite da despedida

Só uma vez dei o meu apoio explícito a um candidato, o Dr. Jorge Sampaio. Não por qualquer inclinação ideológica, mas apenas pelas qualidades pessoais que lhe reconheci.

Chegou a ser convidado por mais de um partido ou candidato numa mesma eleição? Sim, ao mesmo tempo. Dois.

Foram o PS e o PSD? Se calhar (risos).

Em Itália ver-se-ia a votar em Berlusconi? Via, porque conheci a pessoa. Durante cinco anos, convivi com ele, fiquei com boa ideia da pessoa e das suas capacidades. Repito, não tem nada a ver com questões ideológicas, acredito nas pessoas.

Um bom presidente de um clube dá um bom primeiro-ministro? Testemunhei as capacidades de Berlusconi enquanto dirigente desportivo. Perguntam-me, essas capacidades valem no capítulo político? A maioria dos italianos entenderam - ainda recentemente - que sim!

Mas uns canais de televisão também dão jeito. Isso é gestão empresarial. Para todos os efeitos, ele é um empresário.

"É um erro os pais obrigarem os filhos a serem futebolistas"

Os seus dois filhos jogam nas camadas jovens do Benfica... Num jogo recente do Benfica, na Luz, o mais velho estava atrás de uma baliza, como apanha-bolas. Quando marcou um golo, o Rui Costa deu-lhe um beijo... Foi injusto para o mais novo, coitadinho, estava atrás da outra baliza... Ainda hoje me faz pagar por isso (risos). No domingo, felizmente, pude contar com os dois ao meu lado na despedida.

A que posições jogam os seus filhos? O mais velho, que tem 13 anos, está nos iniciados, joga como médio ofensivo. O mais novo corre atrás da bola, como todas as crianças de nove anos.

Quando você tinha 11 anos, o Eriksson, então treinador do Benfica, olhou para si e terá dito que havia no miúdo um potencial futebolista. Vê no seu filho mais velho um futuro craque? O que eu quero é que ele se divirta. (Pausa). Sobre todos os filhos de jogadores é lançada uma responsabilidade exagerada. Embora nem tenha 14 anos, quando olham para ele é o filho do Rui Costa -e, portanto, tem de ser igual ao pai. Se não faz alguma coisa bem - "ai, este não vai sair ao pai!". Mesmo entre os colegas não deixa de ser o filho do Rui Costa. É uma responsabilidade excessiva e o que eu quero - unicamente - é que se sinta bem e se divirta.

São raros os casos de filhos de futebolistas que atingem o nível dos pais. Sim, são raros. Muitas vezes, precisamente por essa responsabilidade, que sentem desde criancinhas - que outras na mesma idade não têm. Em relação ao meu filho: se for jogador, é; se não for, não é. Ele sabe que o pai nunca o obrigará a ser futebolista. Adoro vê-lo a divertir-se com a bola, porque sei o quanto feliz isso faz uma criança.

Há muitas famílias que fazem pressão sobre os filhos para que sejam jogadores. Em jogos de iniciados ou de juvenis, comportamentos de pais a gritar aos filhos chegam a ser doentios. É o maior erro que se pode cometer, incutir nos miúdos a ideia que têm de ser jogadores de futebol e craques. Ouvir os pais a dar instruções aos filhos num campo é, até, uma falta de respeito para com o treinador. Em todas as equipas do mundo, há uma pessoa que está à frente: o treinador. É ele que terá de fazer com que os jogadores cresçam. Com um pai impulsivo, a intrometer-se no processo de evolução do jovem futebolista, obrigando a criança a ser jogador, a história acaba sempre mal.

"Na única vez que fui expulso estava a ganhar tempo, mas de forma legítima"

Alemanha-Portugal, 1997, o único cartão vermelho em 18 anos

Alemanha-Portugal, 1997, o único cartão vermelho em 18 anos

Arquivo Record

Jorge Jesus, treinador do Belenenses, disse uma vez que "o fair play é uma treta". Isso é verdade? Em certas situações, sim. E naquela a que se referia em concreto tinha razão. Creio que caímos num extremo em que por tudo e por nada se pára o jogo! Não é por uma lesão menor que deve mandar-se a bola fora, pois há uma quebra tremenda de ritmo e gera-se uma má disposição, com discussões entre os jogadores... Nesse sentido, as palavras de Jesus foram bem aceites por quem está dentro do campo. Um excesso de simulações gera um falso fair-play.

Isso significa que muitas lesões são simulação? Não. Há muitas situações em que a própria pancada é momentaneamente dolorosa. Isso não quer dizer que toda a gente seja fiteira.

Fez muitas simulações? Fiz algumas, mas nunca usei muito essa malandrice, de me atirar para o chão para ganhar faltas inexistentes. Nunca foi a minha especialidade, nunca soube cair. Se quisesse fingir, percebia-se logo que estava a fazer fita.

Simulou grandes penalidades? Grandes penalidades não, mas faltas sim. Ao sentir que ia perder a bola, procurava um contacto físico para cair. Mas nunca fui um especialista.

Alguma vez beneficiou de um penaltí inexistente? Nunca. Nunca tive arte para isso. Cheguei a cair na área em situações que não eram penaltí, mas que também não eram simulação.

Quem foi o maior artista, o maior malandro? Futre. O meu querido amigo Paulo Futre.

Foi bem-sucedido? Muito bem-sucedido (risos). Extraordinariamente bem-sucedido.

Quando foi expulso no jogo Alemanha-Portugal (1997), estava a tentar ganhar tempo? Estava, mas de forma legítima. Não há nenhuma lei que obrigue o jogador a sair do campo em determinado tempo. A única coisa a que o jogador está obrigado é dirigir-se para a zona de saída e não interromper esse trajecto. A minha substituição demorou 22 segundos. Foi perdido mais tempo pelo árbitro a mostrar o cartão vermelho, do que propriamente pelo meu percurso. Não fui a correr, mas também não fui a passo de caracol. Foi uma saída normal.

Depois desse jogo, mudou o seu comportamento? Depois disso fiz a mesma coisa várias vezes. E depois disso, milhares de jogadores fizeram a mesma coisa e nada lhes aconteceu. E vão continuar a fazer. Sou o único jogador da história do futebol expulso dessa forma. Se soubesse que tal iria acontecer, evidentemente não o teria feito. Mas não estou arrependido - nessa mesma semana, o árbitro (Marc Batta) pediu-me desculpas, por se ter precipitado. Respondi-lhe que não tinha de se desculpar a mim, mas a um país, porque eu estava a representar Portugal.

Quantos cartões vermelhos apanhou na carreira? Quer que lhe diga? Quer mesmo que eu lhe diga?

Claro! O de Marc Batta.

Só? Só. Foi a única vez que fui expulso. É por isso que ainda me custa mais aceitar ter sido expulso daquela forma.

Nunca chamou nomes à mãe do árbitro? "De maneira nenhuma!"