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"O Paulinho Santos entrava e tinha um alvo: João Pinto"

Em fim de semana de clássico no Dragão, João Manuel Pinto, antigo central que jogou no FC Porto das grandes figuras e no Benfica pós-Vale e Azevedo, viaja no tempo e compara a realidade nos dois clubes. As diferenças que encontrou foram muitas; a rivalidade era a de sempre. 

João Manuel Pinto é de Tarouca ("Não confundir com Arouca, ok? Ta-rou-ca"), do distrito de Viseu. Anda numa azáfama para promover um torneio de beneficência no próximo domingo com antigas estrelas de futebol na sua terra, onde vive desde que deixou de jogar. A experiência de treinador no Cinfães não correu bem e é a ajudar as gentes de Tarouca que JMP (não confundir com JVP) se sente realizado.

 

João, conte-nos a história de um jogador de Lisboa, do Belenenses, que foi parar ao FC Porto.

Eu estava no Belenenses e até tinha convites de outros grandes. Mas eu, que não sou portista, fui parar ao FC Porto. Foi uma decisão de cinco minutos, muito rápida, e teve a ver sobretudo com a forma como o clube me abordou.

 

Directamente?

Através do presidente Jorge Nuno Pinto da Costa. E isso faz toda a diferença. Perguntou-me: "Gostavas de jogar no FC Porto?". E eu disse logo que sim. Nesses tempos, em que não havia assessoria, gabinetes de comunicação, SAD, empresários, etc. (embora o Veiga tenha estado sempre na origem dos meus contratos), as coisas eram feitas de forma menos transparente. E quando metia jogadores que iam do Sul para o Norte , as partes encontravam-se a meio caminho. 

 

Na estrada?

Nas autoestradas, às vezes.

 

Consigo foi assim?

Foi por aí, por aí (risos). Mas não vou dizer onde! Cheguei ao FC Porto e fui muito bem recebido. Tive de passar por um ritual que eu sei que ainda se pratica agora.

 

Que ritual? 

Que ritual? Ah... não posso contar. Digamos que é como ajoelhar, ir à igreja e pedir uma benção (risos). Mas não vou mesmo contar mais nada, que são coisas de balneário. 

 

E o que encontrou nesse balneário?

Aquilo havia lá grande jogadores e senhores, como o Bicho, o Jorge Costa, que era o líder da banda. E o João Pinto que tinha aquela mentalidade do norte, só queria trabalho, trabalho, trabalho. Havia os brincalhões, os traquinas... e esses eram o Sérgio Conceição e o Capucho. Às vezes, quando vejo o Sérgio na TV como treinador, com aquele ar sério... aposto que ele continua o mesmo com os seus jogadores, porque ele era danado para pregar partidas!

 

E como eram vividos os clássicos?

De forma intensa. Aquilo era uma rivalidade inacreditável. No jogo, o Benfica era o inimigo, sempre foi assim.

 

Ficaram célebres os encontros Paulinho Santos-João Vieira Pinto.

 O Paulinho era um trabalhador que ia a todas as bolas. E ele tinha um alvo no Benfica: o João Vieira Pinto. Dentro de campo, era como se fosse o inimigo n.º1 dele, porque, convenhamos, o João Vieira Pinto era de longe o melhor jogador do Benfica. Mas aquilo até acabou bem, depois de tanta guerra, com a troca de camisolas entre eles e um abraço! (risos) Mas também se não me falha a memória, o António Oliveira, quando era seleccionador nacional, ainda tentou apaziguar as coisas e pô-los a dormir no mesmo quarto. Não sei se terá resultado (gargalhada).

 

Não foi durante o seu tempo no FC Porto que aconteceu aquele caso com o Weah?

Foi. Um dia triste para o futebol. Aquilo começou no primeiro jogo da fase de grupos [11 de setembro de 1996], em San Siro. O Jorge Costa dá um salto para evitar um choque com o Weah e pisa a mão dele. Acontece que, na altura, podia-se jogar com fios, brincos, etc., e o Weah tinha um anel enorme que se lhe enterrou na carne. Mesmo. No jogo nas Antas [20 de novembro de 1996] eu percebi logo que havia ali uma emboscada por parte dos italianos. Quando o jogo acabou, enquanto uns e outros se cumprimentavam, vejo aquele guarda-redes alto que eles tinham, não me recordo agora como se chamava...

 

Sebastiano Rossi?

Esse mesmo. Então vejo o Rossi a ir disparado com o Weah para o túnel e percebi que ia haver confusão: apanharam o Jorge Costa e o Weah, por vingança, deu-lhe uma cabeçada. Depois, houve porrada: socos, pontapés, insultos, e o Weah foi a correr para o balneário do AC Milan com o resto da equipa a guardar a porta. Enfim. Cenas tristes.

 

Apanhou o FC Porto nos grandes momentos e foi para o Benfica em convalescença.

Seis anos depois, achei que tinha de sair. E sai. Surgiu a hipótese de ir para o Benfica, para um clube que gosto muito, mas que estava desorganizado depois da saída do Vale e Azevedo. Salários enormes, gente a ganhar muito dinheiro, plantéis construídos em duas, três semanas, em cima do joelho. O que valeu foi o trabalho de Manuel Vilarinho e do Luís.

 

Está a falar de Luís Filipe Vieira?

Sim, do Luís.

 

Isso revela intimidade.

Eu fui um dos capitães e quando tinha problemas falava directamente com o Luís. O capitão não é só para passear a braçadeira (risos). E ele é próximo dos jogadores - e tem feito um grande trabalho, diga-se. Também conheço pessoalmente o Jesus, embora não tenha sido treinado por ele, e garanto-lhe que aquilo ali é assim: naquela hora e meia de treino, ou se acompanha e se ouve o que o homem quer, ou então fica-se fora da corrida. Não há outra hipótese. 

 

E nesse seu Benfica, havia muitos problemas para resolver, enquanto capitão?

Alguns. Havia jogadores que eram conflituosos e não se davam ao grupo, não percebiam que estavam ali para o Benfica.

 

Está a falar do Argel.

Eu já conhecia o Argel dos tempos do FC Porto e ele já era assim. Trabalhador, é verdade, mas pegou-se com muitos colegas - comigo, nunca! - em treinos. Era um tipo muito complicado de perceber.