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O meu primeiro guarda-redes do Benfica

Teria eu os meus cinco ou eis anos quando pisei pela primeira vez o Estádio da Luz cheio até ao terceiro anel. A festa fazia-se nas bancadas de betão mais de três horas antes do começar: Taça UEFA, quarta-feira à noite. Tinha faltado às aulas da parte da tarde e vindo de Portalegre com os meus pais e os meus irmãos para assistir ao jogo. Foi a primeira vez que vi o senhor do bigode – o meu primeiro guarda-redes do Benfica, o pequeno grande Bento só com 1,73 m.

Às quartas-feiras de competições internacionais nunca mais faltei e, ao lado do Néné, que estava sempre a cair mas era o grande ponta-de-lança daquela minha equipa, adorava o Humberto Coelho, o Chalana, o Shéu, o Veloso, mas era para o Bento que passava o tempo a olhar, aflita, cada vez que a equipa adversária se aproximava da grande área. Decorei defesas, vibrei com saltos e socos na bola. De tal forma que, a dada altura, o meu pai resolveu dar-me, a mim e aos meus irmãos, mais alguma emoção. Em cada victória, saíamos da Luz a correr Lisboa para encontrar a festa dos jogadores do Benfica. No Pinóquio, nos Restauradores, foi a primeira vez que falei com o Bento e levei para o Alentejo, cheia de orgulho, um autógrafo lindo do meu senhor dos bigodes (não confundir com o Chalana, apesar do bloco também levar a assinatura dele).

Assisti depois a todos os jogos em território nacional em que o Bento bateu o recorde mundial dos mil minutos sem sofrer um golo.

Mas as recordações do meu primeiro guarda-redes do Benfica não se ficam pelos jogos e jogos em que o vi voar à frente da baliza na Luz. Sem conseguir recordar o ano, tenho a imagem visual e a emoção na pele do dia em que o Bento, num célebre jogo na Rússia com o Torpedo de Moscovo, a que assisti pela rádio. Era já noite. Tínhamos chegado ao Alentejo de uma viagem longa e vínhamos presos ao relato. Entrámos na alameda que dá acesso à casa e não saímos do carro. O rádio continuou a soar alto. Bento fazia uma das suas melhores exibições de sempre. Mas, depois do prolongamento, chegaram os penalties. O silêncio fazia-se sempre que cada equipa ía marcar, mas as mãos juntavam-se em forma de oração quando chegava a vez do Bento defender. E defendeu, defendeu até marcar o golo decisivo da victória e ganharmos a Liga dos Campeões, sairmos do carro em alvoroço, gritos e palmas num estádio improvisado na relva do jardim lá de casa.

A partir daí, nasceu para mim um novo herói. Vi-o à frente das redes até se retirar do campo, 20 anos depois de servir o Benfica. Só tenho pena de nunca o ter visto guardar a baliza da selecção ao vivo. Mas não esqueço o "homem borracha" que fez vibrar o mundo em França e na Escócia. E muito menos a exibição mais memorável de sempre. Aconteceu em Estugarda.

Tudo, mas mesmo tudo, ficará guardado na minha caixinha de recordações privada das grandes paixões pelo futebol.