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O desafio mais sangrento da história olímpica do pólo aquático

À primeira vista, não se enxerga um elo de ligação entre as figuras de Mark Spitz, Quentin Tarantino e Nikita Khrushchev. Um episódio ocorrido em 6 de Dezembro de 1956 liga-os firmemente. (Veja os vídeos no fim do texto)

Nem se descortina qual o nexo entre os dois norte-americanos com a época da Guerra Fria, com a URSS e com a invasão da Hungria em Novembro de 1956 pelos tanques do Pacto de Varsóvia, num dos episódios mais trágicos da história europeia do século passado. À segunda vista, também não se vislumbra nada. Em 1956, Spitz era um garoto com 6 anos de idade e Tarantino ainda nem sequer tinha nascido. Mas o nome do nadador húngaro Ervin Zádor (Budapeste, 1935) introduz o "missing link" necessário para o estabelecimento da conexão entre todos estes elementos. O atleta húngaro septuagenário, actualmente a viver na Califórnia, foi treinador do adolescente Spitz, tendo sido um dos homens que mais marcou o nadador que, em Munique, cometeu o feito histórico olímpico de ganhar 7 medalhas de ouro.

Este facto biográfico da juventude, o de ter tido um treinador húngaro exilado nos EUA, levou Spitz a interessar-se pessoalmente na participação como narrador do documentário Freedom's Fury que tem como produtores executivos Quentin Tarantino e Lucy Liu. O documentário apresenta-se sob o lema patriótico "Uma equipa, um país, uma oportunidade única para a vingança".

Quatro golos vingam História

De que vingança se trata? Nos Jogos Olímpicos de Melbourne de 1956, a equipa húngara de pólo aquático obteve a medalha de ouro após um jogo contra a equipa russa que foi suspensa após o resultado 4-0. A Hungria já era detentora de 14 medalhas olímpicas nesta modalidade, tendo uma prestigiada tradição de jogadores e de treinadores.

O evento ocorrido a 6 de Dezembro de 1956 foi classificado como "o desafio mais sangrento da história olímpica do pólo aquático". Na memória dos húngaros, ainda estavam demasiado frescas as imagens da violenta ocupação de Budapeste e da repressão que se seguiu à invasão que viria a depor o primeiro-ministro Imré Nagy, condenado em tribunal como traidor e executado por ordem dos soviéticos. As equipas olímpicas foram mantidas longe da frente de batalha em Budapeste. Os atletas foram enviados para a Checoslováquia e depois encetaram a longa viagem até à Austrália. Muitos deles não sabiam o que se passava com as suas famílias e amigos. A equipa olímpica enviada pela Hungria era formada por 100 atletas e, mal terminaram as Olimpíadas, metade pediu asilo ao Ocidente.

Sete jogadores húngaros vencem 200 mil soldados

O histórico jogo entre a Hungria e a União Soviética do dia 6 de Dezembro de 1956

O histórico jogo entre a Hungria e a União Soviética do dia 6 de Dezembro de 1956

Os atletas húngaros de pólo aquático, capitaneados pelo lendário Deszo Gyarmati, quiseram mostrar à equipa russa que, muito embora o seu país estivesse ocupado pelos tanques soviéticos e por 200 mil soldados enviados por Khrushchev, a supremacia no desporto olímpico praticado dentro de uma piscina não lhes poderia ser retirada nem sequer com golpes de política jogada nos bastidores.

Nas bancadas da piscina, muitos espectadores, com uma vasta colónia de húngaros exilados na Austrália depois da II Guerra, cantavam e gritavam Hajra Magyarok! (Força, Hungria!) para incentivar os seus compatriotas. A mensagem era clara: os dirigentes da URSS podiam dar ordens às tropas para pisar o solo da Hungria mas não conseguiriam nunca pisar o orgulho de um povo. Primeiramente estupefacto e depois em fúria, o público, em vez de assistir a um jogo de pólo aquático, assistiu a uma cena de pugilato sem regras dentro de água: socos, pontapés, caneladas, agressões de todo o tipo por debaixo da superfície da água, empurrões violentos, cuspidelas, gritos e insultos pontuaram todo o desenrolar do desafio em que o árbitro sueco muito aflito a correr de um lado para o outro, foi impotente para impor a ordem às duas equipas em fúria.

Correu mundo a foto do rosto ferido do jovem Ervin Zádor com o sangue a escorrer pela cara, com um corte na zona da sobrancelha direita e com a mão entrapada, ainda em calções de banho e touca, acabadinho de ser "salvo" da piscina onde se desenrolou o jogo amplamente fotografado pelos jornalistas que fizeram a cobertura dos Jogos Olímpicos de Melbourne em 1956.

Ouro, sangue e lágrimas

Com 20 anos de idade, Zádor foi um dos jogadores da equipa de pólo aquático que lutou pela medalha de ouro nesta modalidade em que a Hungria tinha um nível de excelência sensacional. Zádor marcou dois dos quatro golos da equipa húngara estando, por esse facto, na mira dos "atacantes" da equipa soviética. Zádor identifica o autor do soco que o impediu de ir à final com a Jugoslávia no jogo em que a Hungria ganhou o ouro olímpico por 2-0, momento em que Zádor desatou a chorar convulsivamente.

Guerra Fria jogada nos Olímpicos

O agressor foi Valentyn Prokopov, um atleta cujo rasto ainda não foi descoberto pela equipa de filmagens. Parte dos membros da equipa russa foi entrevistada em "Freedom's Fury", o documentário filmado freneticamente e narrado agora em detalhe por Mark Spitz, obra premiada em vários festivais como o de Tribeca e o de Toronto pelo seu impacto político. As imagens foram recolhidas após longa investigação nos arquivos e depois de se entrevistarem os atletas húngaros e os seus familiares.

É assim que os espectadores podem agora apreciar, 52 anos depois dos acontecimentos que marcaram a jornada olímpica na cidade australiana de Melbourne, o que se passou na piscina onde foi travado o jogo de pólo aquático entre as equipas da Hungria e da URSS. As imagens escandalosas mostram de que maneira o desporto e os seus ideais se entrelaçaram com a Guerra Fria. Os jornais da época intitularam o sangrento episódio "O dia em que a Guerra Fria penetrou nos Jogos Olímpicos", comentando de forma copiosa como o sangue manchou a água da piscina olímpica.
A imagem de Ervin Zádor correu o mundo

A imagem de Ervin Zádor correu o mundo

A cidade de Budapeste continua a exibir no topo da sua colina mais famosa uma Estátua da Liberdade (Szabadság-Szobor), um monumento de 14 metros de altura com uma estátua de bronze que primeiro celebrou a libertação da Hungria conseguida pelo exército russo em 1945 na batalha contra os soldados nazis. Os soviéticos celebraram à sua maneira esta libertação, erigindo uma estátua que empunhava uma metralhadora tal como se a arma estivesse a guardar a liberdade. Actualmente, a Estátua à Liberdade ostenta entre as suas mãos a palma da Vitória. No seu trágico caminho na conquista pela liberdade, são imagens como as do histórico desafio olímpico de 1956 que os húngaros continuam a recordar como fundamental. Os atletas em fúria na piscina olímpica de Melbourne lembram com muita pungência como é árdua e sem garantias essa longa caminhada.