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Frederico Gil: Não sou muito talentoso

Frederico Gil passou dois anos de muletas e disseram-lhe para esquecer o ténis. É o melhor português de sempre.

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Jornalista de Sociedade

O avô Limpo fez casas para as duas filhas na mesma rua. No meio ficava um terreno estreito com pinheiros. "E o meu pai, que nunca ligou nenhuma ao ténis, decidiu construir um court", admira-se Frederico Gil. "Nunca percebi porquê".

A família entusiasmou-se. "O pai começou a jogar aos 30 anos" e a convidar amigos "para umas partidas depois do almoço". Luís Flores Marques era professor e reparou no miúdo de 4 anos que batia bolas contra a parede energicamente. Levou-o para a escola de ténis da Praia das Maçãs e aos 7 anos Frederico Gil ganhava o primeiro torneio. "Eu gostava era de futebol e do Benfica. Foi aí que ganhei o bichinho da competição".

João Cunha e Silva lembra-se do court da casa do Banzão, nos arredores de Sintra: "Foi aí que o Frederico me ganhou pela primeira vez, quando já o treinava. Durante muito tempo não lhe dei hipótese", frisa o antigo campeão nacional.

Esta semana, Frederico Gil conseguiu chegar ao 83.º lugar da classificação ATP. É o melhor português de sempre, destronando o antigo rival de Cunha e Silva, Nuno Marques. E o mais difícil não foi derrotar Nicolas Almagro, número 18 do mundo. "Num treino, corri para apanhar um amortie (bola curta), senti uma dor insuportável no joelho e caí". Diagnóstico: osteocondroma. Um tumor no osso.

Frederico tinha 10 anos e passou dois de muletas. "Os médicos disseram-me para esquecer o ténis". Mas aos 13 já estava a treinar outra vez e tomou uma decisão rara num adolescente. "Decidi que aquela ia ser a minha vida e passei a treinar todos os dias. Não sou muito talentoso, mas sou obstinado. Quando quero uma coisa não desisto".

"Diziam que ele não tinha nenhuma qualidade por aí além, que a direita isto e a esquerda aquilo, mas esqueceram-se que a parte mental é muito importante", explica Cunha e Silva. "O Frederico é obstinado e consegue manter-se concentrado durante muito tempo. Não tem um grande golpe, mas também não tem pontos fracos. Se continuar assim não me admira que chegue aos 50 primeiros".

Os dois separaram-se durante quatro semanas em 2007. "Tínhamos maneiras diferentes de encarar a carreira dele", relativiza o treinador. "Foi uma parvoíce. Andava mal e tomei uma decisão estúpida, felizmente o João e toda a equipa aceitaram-me de volta".

Irritante?

Gil não é o tenista mais popular do circuito. Um russo, Dimitri Tursunov, ameaçou-o de morte depois de ter perdido com o português no Estoril Open. E o francês Richard Gasquet acusou-o de gritar de mais. "Foram só esses dois. Um porque eu demorava de mais no intervalo dos pontos e o outro porque, de facto, estava a gritar muito. Estou a tentar mudar isso". Provavelmente sem grande êxito: no Open do Brasil, Almagro tentou acertar-lhe uma bolada. "Ele é maluco, acha que resolve tudo na base da fúria. Depois cumprimentou-me normalmente". Nem tudo é mau: "O Federer, por exemplo, trata-me bem. Tinha um cacifo ao lado do dele em Roland Garros e quando ele me via gritava 'Frédérico Guuil'. É um senhor. Custou-me um bocado vê-lo a chorar na final do Open da Austrália. Acho que sente que já não consegue ganhar ao Nadal".

A vida de Gil não é como a dos outros jovens de 23 anos. "Não fumo, não apanho bebedeiras e só saio à noite para festejar bons resultados e quando não tenho treinos. Se ando bronzeado é por causa do sol que apanho no court". Mora com os pais e uma relação sentimental estável é impensável: "Passo três semanas fora em cada mês. Não tenho disponibilidade".

€296

mil é o dinheiro ganho por Frederico Gil em prémios oficiais nos torneios. Federer já conseguiu 36 milhões

83º

classificado na tabela ATP de tenistas profissionais, Gil é o melhor de sempre do ténis português. Falta uma vitória sobre um jogador do top-10 para o título ser indiscutível

3

torneios ganhos: Istambul, Sevilha e Sassuolo, todos de categoria Challenger, inferior às competições ATP

Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Fevereiro de 2009