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Entre as quatro linhas e a História de Belgrado

Sub-21 podem ter perdido do jogo particular com a Sérvia, mas até para os locais a selecção é a favorita para o jogo de logo à noite.

Viajar no mesmo avião que os jogadores da Selecção Nacional, quer os da selecção principal quer os sub-21, é um privilégio que está ao alcance dos mais aficionados por futebol que estejam dispostos a pagar mais de mil euros por uma viagem de ida e volta aos jogos, com passagem aérea, alojamento, ligações ao hotel e estádio e bilhete para os jogos incluídos.

Pouco mais de 20 pessoas deslocaram-se esta semana a Belgrado, com viagem directa a partir de Lisboa, para assitir ao jogo decisivo entre Portugal e a Sérvia para a qualificação para o Europeu de 2008, que se realiza na Áustria e na Suiça em simultâneo.

Integraram a comitiva composta por jogadores e equipa técnica, jornalistas e patrocinadores. Mantidos cuidadosamente à distância, acabaram por conseguir filmar e fotografar os jogadores, não sem antes provocarem a preocupação das hospedeiras de bordo, quando viram ser utilizados telemóveis em pleno voo. Questão que se coloca: os adeptos estavam de tal forma entusiasmados que se esqueceram que o telefone tem de estar desligado durante os voos, ou os telemóveis em causa já oferecem a possibilidade de ser utilizados nos aviões com a captação de rede desactivada e apenas para funções acessórias, como fotografar ou filmar?

Os mais assediados

Entre os recordistas do assédio pelas câmaras estavam os mais novos, alguns deles recentemente promovidos à equipa principal, como João Moutinho, Ricardo Quaresma e Nani, que aproveitam para confraternizar com os colegas sub-21, sentados mais atrás no avião. E claro, Cristiano Ronaldo e o seleccionador nacional, Luís Filipe Scolari, também não deixaram os adeptos indiferentes. O guia da Cosmos, agência de turismo que organizou a viagem, admitiu que no regresso a Portugal (chegada prevista às 03h30 de quinta-feira), caso o jogo corresse bem, poderia haver um maior entrosamento entre a massa associativa e os jogadores.

A chegada a Belgrado dá-se por volta das 20 horas (uma hora mais do que em Portugal) de segunda-feira, directamente do aeroporto, que fica a 15 quilómetros do centro da cidade, para o Hotel Intercontinental, que fica na parte nova da cidade, não muito longe do hotel Hyatt, onde ficam alojados os jogadores e a equipa técnica.

Está escuro mas dá para perceber que a cidade mantém as características do que foi o seu passado enquanto parte do império soviético – quarteirões de prédios residenciais sempre iguais e avenidas largas. Mas para quem esperava uma cidade com marcas da recente guerra provocada pela desintegração da Federação Jugoslava, Belgrado surpreende pela positiva.

Os primeiros contactos com a cidade não revelam essas feridas, talvez visíveis apenas nos rostos rudes de algumas pessoas que percorrem as suas ruas. Apesar disso, os sérvios não se mostram distantes. Muitos falam inglês e esforçam-se por comunicar. Uma das primeiras abordagens é ao taxista que faz o trajecto do hotel ao centro da cidade, do outro lado do rio. Apesar de conduzir a grande velocidade e sem parecer perceber para que servem os traços contínuos pintados nas estradas, sempre adianta que o favorito para o jogo é Portugal.

E diz que conhece futebolistas portugueses porque foi jogador da selecção da ex-Jugoslávia. Quando lhe é pedida a factura pelos 400 dinares da corrida (5 euros, pois um euro corresponde aproximadamente a 80 dinares), entrega uma factura em branco para que seja introduzida a quantia que se quiser. Não será o único a fazê-lo.

Meia dúzia de portugueses

Quem esperava também ver muitos portugueses pelas ruas, como aconteceu no Mundial da Alemanha no ano passado, também ficará desiludido. Ontem (terça-feira), dia do encontro particular entre as selecções de sub-21 da Sérvia e de Portugal – em que o resultado é desfavorável a Portugal por duas bolas a zero – são pouco mais de 30 os apoiantes da equipa portuguesa, sendo que destes apenas cinco não tinham vindo com a comitiva de Lisboa. O resto do estádio do futebol clube Vojvodina está bem composto com sérvios – não serão mais de oito mil pessoas, no total. Nesta cidade de Novi Sad, a 80 quilómetros de Belgrado, o estádio está numa zona relativamente descuidada.

Belgrado tem zonas de algum caos arquitectónico, com prédios modernos e altos misturados com outros antigos e mais baixos, alguns em más condições e muitos a precisar de limpeza. Vêem-se vários carros modernos, de marcas ocidentais, mas o parque automóvel da cidade ainda exibe muitas pérolas do passado, como os pequenos Yugu, produção própria da ex-federação jugoslava.

Há ruas cosmopolitas onde podem ser feitas compras das mais variadas cadeias internacionais de roupa, encontrando-se com algum destaque lojas de roupa desportiva. Não faltam as cadeias espanholas, como a Zara. Aqui e ali pontuam algumas igrejas ortodoxas mas um dos mais imponentes monumentos da cidade é a fortaleza e o parque de Kalemegdan, que a circunda, o maior da cidade, erguidos sob a confluência entre os rios Sava e Danúbio.

A língua falada é o sérvio, cujos caracteres são incompreensíveis para um português. No entanto, as indicações espalhadas pela cidade incluem o alfabeto dos países ocidentais.

Memórias de guerra bem vivas

A desintegração da Jugoslávia, que deu origem a novos países como a Eslovénia, Croácia, Bósnia Herzegovina, República da Macedónia e mais recentemente ao Montenegro e à própria Sérvia – estes últimos após terem decididido separar-se depois de terem tentado manter a federação, uma vez terminada a guerra –, continua a dar que falar. Pega-se no "The Belgrade Times" e a manchete é "primeiro tiros disparados na batalha pelo Kosovo".

Dá conta do final das negociações em torno do estatuto do Kosovo, que decorreram durante 14 meses sob a égide da Organização das Nações Unidas (ONU), e de que resultou a conclusão de que o território, de maioria albanesa, deve ser independente da Sérvia, embora a minoria sérvia deva ter um estatuto especial. Um cenário que agrada à Albânia e às autoridades do Kosovo, mas que não é naturalmente aceite pela Sérvia. Alguns diplomatas temem mesmo que um veto da Rússia a esta solução gizada pela ONU resulte numa nova guerra.

Num guia turístico comprado no centro de Belgrado, da autoria de Predojevic Sasa, pode ler-se, na parte referente à história da capital da Sérvia, que "em Março de 1998 estalou o conflito armado no Kosovo, que foi utilizado como argumento para a NATO começar a bombardear a República Federal da Sérvia em 24 de Março de 1999, sem o consentimento do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O alarme demorou um total de 774 horas e 30 minutos e durante os ataques aéreos morreram ou ficaram feridas muitos milhares de pessoas e houve grandes danos patrimoniais. A última sirene foi ouvida 78 dias depois do primeiro ataque, às 06h29 de 9 de Junho de 1999". Ou seja, há apenas pouco mais de oito anos.