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"Confio nos espectadores e nas estradas que escolhi"

A organização do Rali de Portugal está muito confiante no bom desenrolar do próximo Rali de Portugal, que marca o regresso da prova ao calendário do Campeonato do Mundo, após seis anos de ausência.

Em entrevista ao Expresso, Pedro Almeida, director da prova que vai decorrer no Algarve entre 29 de Março e 1 de Abril, refere que a edição 2007 tem tudo para repetir o nível das duas anteriores – muito elogiadas pelos observadores da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), o que permitiu a reentrada da corrida no Mundial – e confia "sem receios" no trabalho realizado.

O Rali de Portugal está pronto para a pressão que decorre do facto de este ano ser de novo pontuável para o Mundial?
O Rali de Portugal, na sua actual configuração, foi concebido para ser uma prova do Campeonato do Mundo. Quando em 2004 decidimos renovar o Rali de Portugal, tínhamos já como meta o Mundial e, nesse sentido, a prova foi estruturada, desde a edição 2005, com base no exigente caderno de encargos desta competição. A própria escolha da região do Algarve e do Baixo Alentejo – com excelentes estruturas turísticas e uma rede de estradas de terra de grande qualidade – enquadrou-se já neste objectivo, o mesmo acontecendo com a utilização do Estádio Algarve como base do rali, com o figurino da prova e com todos os aspectos regulamentares. Desta forma, o Vodafone Rali de Portugal 2007 surge como a evolução natural das duas edições anteriores, organizadas com o estatuto de "prova candidata" e que mereceram grandes elogios por parte de todos os intervenientes e, em particular, dos observadores da FIA. Por tudo isto e também pela experiência acumulada ao longo dos dois últimos anos, o Rali de Portugal está pronto para integrar o Mundial da especialidade, sem receios, mas com a consciência de que a competição entre os organizadores é actualmente muito elevada – nada menos de 22 países disputam os 16 lugares disponíveis. Só uma organização de grande nível e uma prova isenta de problemas permitirão manter o Rali de Portugal no mais alto nível desta disciplina.

O que mais teme: um violento temporal, como já aconteceu, ou um eventual mau comportamento por parte do público?
As estradas de terra do Algarve e Baixo Alentejo seleccionadas para o Rali de Portugal revelaram, em 2005, toda a sua beleza e competitividade. Em 2006, a prova foi assolada por um verdadeiro dilúvio e as mesmas estradas mostraram a sua capacidade para resistir à intempérie e à dupla passagem dos carros de prova. Por esse lado estamos, portanto, tranquilos. O público é bem-vindo, faz parte do espectáculo, e sem ele, sem a sua presença e o seu entusiasmo, o Rali de Portugal não seria o mesmo. Estou convicto que, seis anos após o último Rali de Portugal pontuável para o Campeonato do Mundo, o público português tem agora uma noção mais exacta das suas responsabilidades e das consequências, positivas ou negativas, que o seu comportamento implica para o futuro da prova. Os espectadores compreendem hoje melhor as exigências da FIA em matéria de segurança – particularmente no que respeita à obrigatoriedade da sua presença nas chamadas "zonas-espectáculo" – e os verdadeiros apaixonados do automobilismo de competição colaboram activamente com a organização, chamando a atenção daqueles que, pontualmente, possam ter atitudes menos correctas. Em conclusão, diria que confio nos espectadores como confio nas estradas que escolhi para o percurso da prova. Conto com ambos para que o Vodafone Rali de Portugal 2007 seja um sucesso e para que a prova mantenha as suas aspirações de continuidade no Mundial de Ralis.

Não terá sido um tanto arriscado vender metade da lotação do Estádio do Algarve a uma gasolineira, para posterior cedência aos seus clientes? É que esses bilhetes podem ir parar às mãos erradas e o estádio onde vão decorrer duas classificativas ficar menos bem composto…
As super especiais a realizar no Estádio Algarve, uma das grandes novidades do Rali de Portugal 2007, representam um esforço elevado, particularmente em termos financeiros. Apesar disso, o Automóvel Clube de Portugal, na sua qualidade de organizador da prova, quis que os bilhetes tivessem um preço acessível, bastante inferior, por exemplo, ao de um jogo de futebol da Liga, de modo a que os aficionados não fossem privados deste espectáculo. A fórmula encontrada para a comercialização dos bilhetes constitui uma solução que conjuga estes dois factores aparentemente inconciliáveis e, do nosso ponto de vista, não será obstáculo, muito pelo contrário, a que o Estádio Algarve apresente uma moldura humana compatível com a qualidade e a novidade dos espectáculos que ali irão decorrer.

A quanto monta o investimento feito para montar um rali que este ano é "mundial"?
Trata-se de um investimento elevado, como elevado fora já em 2005 e 2006 aquando da realização das duas provas candidatas. Mas, se pensarmos no retorno gerado, em termos económicos directos e em termos de imagem, pela realização em Portugal de uma prova pontuável para o Mundial, fácil é concluir que se trata de um investimento muito rentável para o nosso país e para os patrocinadores do evento. Lembro que um estudo feito há poucos meses pela Universidade do Algarve situa em mais de 27 milhões de euros o retorno resultante para o nosso país da realização do Rali de Portugal no âmbito do Campeonato do Mundo.

Vale a pena todo este esforço, sabendo-se que em 2008 o rali, por força das novas regras de rotatividade, não pontuará para o Mundial?
O Campeonato Mundial encontra-se numa fase de charneira, sendo a edição actual e a do próximo ano consideradas como um período de transição com vista à definição do futuro figurino do campeonato, que deverá ser implementado a partir de 2009. Para poder manter a pretensão de figurar entre o número restrito de provas que integrarão o campeonato nas temporadas de 2009 e seguintes, o Rali de Portugal teria que, obrigatoriamente, se disputar em 2007 ou 2008 como prova do campeonato. Fundamental, no imediato, é que o Vodafone Rali de Portugal 2007 se situe ao nível das duas anteriores edições, de modo a precaver o futuro da nossa prova no Mundial.

O que é mais importante: "fazer um rali" que agrade à FIA ou à Associação de Construtores?
Do meu ponto de vista, o mais importante é levar a cabo um rali que prove, mais uma vez, a capacidade dos portugueses para organizar bem um evento de nível mundial, na circunstância desportivo, que ajude a divulgar o nosso país como um destino turístico de qualidade e que contribua, a nível interno, para a promoção de um desporto que nos apaixona. Para atingir estes objectivos é necessário conjugar um conjunto enorme de factores e corresponder a múltiplos desejos e variadas interpretações, muitos dos quais veiculados pelos vários agentes deste desporto: FIA, construtores, pilotos, jornalistas especializados, etc.

Se as coisas correrem menos bem, o seu lugar na direcção da prova poderá ficar em perigo?
Um evento desta dimensão é, hoje em dia, resultado do trabalho de uma equipa muito vasta, com responsabilidades diversas, na qual eu tenho prazer e orgulho em me enquadrar. A Direcção do ACP empenhou-se muito fortemente neste projecto, desde a primeira hora, sendo da maior justiça sublinhar todo o esforço que foi desenvolvido ao longo destes três anos pelo seu presidente, Carlos Barbosa, e pelo vice-presidente e presidente da Comissão Organizadora da prova, Mário Martins da Silva, aos quais se deve, em grande parte, o regresso do Rali de Portugal ao Mundial. Um "núcleo duro", que integra cerca de duas dezenas de especialistas nas diversas áreas, é responsável por toda a concepção e implementação do projecto que, nos dias de prova, envolve quase 2.000 pessoas, muitas das quais voluntárias. Trata-se de uma equipa fortemente empenhada no sucesso do Rali de Portugal e preparada para desempenhar as suas funções de forma cabal. Com o apoio de todos, e particularmente do público, ao qual se exige uma atitude consciente e responsável, o Vodafone Rali de Portugal 2007 será seguramente um êxito, na linha das tradições daquele que foi, por várias vezes, considerado como "o melhor rali do Mundo".