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B Fachada: Música para fazer meninos

É pròs papás de agora. É pròs papás de amanhã. Também é pra meninos e meninas. B Fachada criou um disco de incentivo à desobediência infanto-juvenil.

Cristina Margato (www.expresso.pt)

O título deste artigo pode parecer enganador. Mas não é. É verdade que o novo disco de B Fachada (a que este texto se refere) não é uma coleção de baladas para ouvir à lareira, numa noite de inverno, com o seu par. Mas é um conjunto de canções que o músico criou na expectativa de que os ouvintes possam desejar constituir família.

Esta é uma parte da história. Porque a outra, a não esquecer, é que o disco se destina a 'formar' ouvidos infanto-juvenis. Pelo menos uma parte dos miúdos, cujos pais não tenham medo de B Fachada e das suas letras "imorais".

"B Fachada É pra Meninos" - o segundo disco deste ano, depois do EP "Há Festa na Moradia" - não vem com um selo "Parental Advisory" nem dá voz a palavrões. Tem antes uma assumida e explícita perversão; e é um claro manifesto a favor da desobediência e da deseducação.

B Fachada reflete e diz: "80 por cento da cultura que as crianças e jovens consomem é para adultos. Os outros 20 por cento que lhes restam estão ao nível do politicamente correto insultuoso."

Crescer a ouvir Toquinho

De qualquer modo, e é ele mesmo que o sublinha, não foi assim há tanto tempo que saiu desse mundo cheio de regras tão propício a ignorar avisos parentais. Nasceu em 1984 e cresceu a ouvir Toquinho e outros cantores brasileiros.

Para arranjar inspiração, o músico só precisou de andar para trás pouco mais de dez anos. Juntar todas as influências musicais, remisturar a ironia com a rebeldia. Olhar para a sua sobrinha de 2 anos ou para a sua irmã de 15: "São os dois polos do disco, a primeira está no limite mínimo do disco, a segunda no limite máximo."

E polvilhar o assunto com um certo descontentamento adulto: "A culpa do estado do mundo é sempre colocada nas gerações mais novas e, na verdade, o mundo foi estragado por sucessivas gerações muito bem educadas. Gostava que pudéssemos responder pelos nossos próprios erros e não, como nos andam a ameaçar, pelos erros dos nossos pais."

Um disco para 'des-castrar'

O resultado é um disco para 'des-castrar'. Para trabalhar junto das crianças e adolescentes no sentido contrário da castração e da defesa das regras de boa educação.

"B Fachada É pra Meninos" (Mbari) incentiva de forma obstinada à rebelião. Pega no clássico 'Joana Come a Papa' e vira a ideia do avesso: "Larga a sopa João/ não comas mais/ não dês ouvidos às mentiras dos teus pais."

Questiona o que é bom e o que é mau; desfaz o medo do Pai Natal; pergunta porque é que é certo ser cara de pau e está mal ser filho da mãe; lembra que pode ser bem mais giro "brincar/ fugir e desaparecer/ esquecer a escola e o dever/ fazer as coisas por prazer", que mais vale ser "louco e malcriado que pensar só de emprestado", que toda a vida "te vão dar o mundo mastigado" e que é preciso começar "a praticar a desobediência para não ficar moralizado".

"B Fachada É pra Meninos" defende uma infância independente do mundo que ela herda e da moral que ela veicula. Um crescimento livre de princípios absolutos, das tiranias de Camões ou Gil Vicente, ou das conquistas dos Descobrimentos.

No país em que está tudo por fazer

Num país no qual acredita "estar tudo para fazer", o músico assume-se como um criador arrogante na carreira, mas humilde nas canções: "Qualquer ideia que tenha é boa, e é nova. Então é só uma questão de ordenar as ideias de uma forma coerente."

Quando pensou em fazer um disco para crianças (algo que planeou há cerca de dois anos) - apanhado pelo embalo do nascimento da sobrinha -, B Fachada apercebeu-se que o último disco para crianças feito por músicos nacionais que ele considerava interessante datava de 1989 ("Os Amigos do Gaspar", de Sérgio Godinho) e que não havia música para crianças criada por pessoas que não fossem pais, como é o caso dele.

Mesmo considerando "Os Amigos do Gaspar" um disco interessante, B Fachada acredita que é complicado pôr as crianças de agora a ouvi-lo: "O som não é fácil." E é por isso que o desafio dele não passa apenas por essa necessidade urgente de elaborar um manifesto anticastração mas também por criar uma música e uma letra que fossem de hoje e que chegassem aos ouvidos das crianças dos nossos dias.

De resto, B Fachada tinha-se apercebido de que as crianças gostavam da música dele e de que a sua geração estava a mudar de atitude no que diz respeito ao assunto 'filhos': "Em países desenvolvidos, não faz sentido as pessoas esperarem pelos 35 anos para terem filhos. Andámos muito tempo a ter filhos muito tarde."

Disco para pais e filhos

O disco, que neste contexto é para pais e filhos, tem um som mais cru do que os seus anteriores e muito menos camadas sonoras. Recorre a instrumentos musicais infantis: xilofones, pianinhos e baterias de criança. Francisca Cortesão - com quem partilhou campos de férias no verão - é uma das "cantoras narradoras" de uma das canções, e Lula Pena aparece como convidada num tema que B Fachada compôs a pensar nela - depois de ter ouvido o seu último disco.

Apesar de todas as convicções - e de uma autoconfiança que o faz anunciar que sabe bem o que vai fazer nos próximos três anos -, B Fachada também vacila. Tem medo que tenham medo dele.

"Dizem-me: 'As crianças interiorizam tudo.' E eu não sei o que responder a essas pessoas. Vejo os pais a gritarem: 'Não corras!' E elas continuam a correr. Porque é que uma criança não há de perceber que a cultura é sempre ficção? Parece-me preferível explicar às crianças que a cultura é uma mentira do que lhes fazer crer que há umas verdades que são melhores que outras."

B Fachada

Mbari

Dar música aos infantes sem ter de atirar o pau ao gato não é tarefa simples. E até pode gerar pequenos equívocos, como o que surgiu à volta de 'Puff, the Magic Dragon', durante décadas - por mais que o seu autor, Peter Yarrow, jurasse que esse sucesso de Peter, Paul & Mary era absolutamente inocente e nada tinha a ver com o tipo de inalações que Bill Clinton também negou veementemente -, encarada como uma drug song encapotada.

Mas não é difícil entender-se que as melhores canções para miúdos são aquelas que, quando escutadas por gente mais crescida, contêm matéria suficientemente interessante para lubrificar dois ou três circuitos cerebrais.

Nos últimos anos, houve, pelo menos, dois ótimos exemplos: "The Tragic Treasury", de Stephin Merritt/ versão-Gothic Archies (2006), um conjunto de "histórias de terror para crianças", repleto de educativos ensinamentos políticos ("Be vicious, vain and vile, everything's yours to steal if you'll just smile"), e "Leave Your Sleep", de Natalie Merchant (2010), coleção de poemas musicados submetida ao lema "Girls and boys, come out to play, (...) leave you supper and leave your sleep, and come with your playfellows into the street".

"B Fachada É Pra Meninos" sintoniza a mesma onda e, em registo de Comelade-Playmobil (com baterias de plástico e tudo) que, só aparentemente, se desvia dos álbuns anteriores, alinha interpelações morais ("Porque é que o bom é melhor que o mau? Porque é que o mal é pior que o bem? Porque é que é certo ser cara de pau mas está mal ser filho da mãe?"), miminhos de avô sábio ("antes louco e malcriado que pensar só de emprestado") e faz regressar o mítico João, sem balão, mas com mais pertinente aconselhamento: "Larga a sopa João, não comas mais, não dês ouvidos às mentiras dos teus pais."

João Lisboa

Texto publicado na revista Atual de 18 de dezembro de 2010