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A voz fulminante de Anna Calvi

Brian Eno declarou ser o surgimento de Anna Calvi o acontecimento musical "mais importante desde Patti Smith". Primeiro duvidámos, depois concordámos.

João Lisboa (www.expresso.pt)

Poderia duvidar-se da pureza das intenções do Príapo, Brian Eno - justamente famoso, enquanto jovem, pelas suas lendárias e confessadas maratonas sexuais de 36 horas non-stop -, quando, publicamente, declarou ser o surgimento de Anna Calvi o acontecimento musical "mais importante desde Patti Smith" e, posteriormente, lhe enviou uma carta em que afirmava que a música dela era repleta "de inteligência, romance e paixão... que mais podemos exigir da arte?"

Embora, hoje, um respeitável cavalheiro Lib Dem de 62 anos, teríamos de compreender o turbilhão hormonal do insigne teorizador-pop perante a encandeadora visão da diminuta ítalo-britânica de lábios escarlate, olhos de lobo, salto alto e flamejantes chemises vermelhas ou de renda negra, brandindo uma Telecaster.

De igual modo, os louvores sobre ela derramados por Nick Cave pareceriam, eventualmente, suspeitos ao darmo-nos conta de que, por mais de uma vez, Calvi foi associada a PJ Harvey (e escolheu até como produtor Rob Ellis), e, em particular, se nos recordarmos, igualmente, da preferência de Cave pelos pequenos formatos do tipo-Kylie Minogue.

Uma voz fulminante

Mas, não descartando a indiscutível importância desses fatores de avaliação, todas as reticências se extinguem instantaneamente no momento em que começamos a escutar o álbum de estreia de Anna Calvi e somos, literalmente, fulminados por aquela voz algures entre o gótico-Siouxsie Sioux, o épico-Grace Slick e o operático-Alison Goldfrapp (a do primeiro "Felt Mountain").

E, sim, sem dúvida, os espetros de Patti Smith (o galope vertiginoso de 'Desire') e de Polly Jean ('I'll Be Your Man' em registo "To Bring You My Love") pairam. Ela própria insiste em referir Maria Callas, Nina Simone, Scott Walker, Édith Piaf e David Bowie e, do ponto de vista da composição e da execução na guitarra, um eclético leque que começa a abrir-se em Robert Johnson, Captain Beefheart e Jimi Hendrix e alcança Dr. John, Ravel, Debussy e Messiaen.

ANNA CALVI, Anna Calvi, Domino/Edel (À venda dia 24)

ANNA CALVI, Anna Calvi, Domino/Edel (À venda dia 24)

Inicialmente identificada pelos radares que captavam sinais da cena nu-folk londrina (colaborou com gente dos Mumford & Sons e Johnny Flynn), na verdade, embora ainda razoavelmente distante, o parentesco mais legítimo será com as também moças-de-conservatório, Shara Worden/My Brightest Diamond e St. Vincent, por via de alguma dimensão orquestral que, aqui e ali, Anna Calvi cultiva.

Porque, em todo o resto que importa, esta música, arquipélago de emoções intensas encenadas em amplo espaço aberto - essencialmente, ela, na guitarra e voz, Mally Harpaz, em múltiplas percussões e harmonium, e Daniel Maiden-Wood, bateria -, incorpora muito do que se poderia imaginar ser uma variação de Morricone sobre o flamenco (tal como o delta do Mississippi o viu nascer), escrita para um argumento de Robert Rodriguez, com cenografia de David Lynch e realizado por Wong Kar Wai.

Sim, exatamente isso: o cálculo de reagentes, catalisadores, inibidores e velocidades de reação foi rigorosamente calibrado e, naquilo que Calvi descreve como "mini-filmes que nos conduzem para outro lugar e nos comovem, quer isso signifique fazer-nos pensar em sexo ou sentir vontade de chorar", geram-se assombrosos unicórnios sonoros, relâmpagos de guitarra arrepiantemente carnais e árias empolgadas para oratórios interpretados em fundo de cetim vermelho-bordel. Brian e Nick, como foi possível termos duvidado de vós?...

Texto publicado na revista Atual de 15 de janeiro de 2011