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Os festivaleiros de verão

Têm bandas sonoras diferentes, mas sabor comum a férias e aventura. Como uma febre sazonal, a cada verão os festivais de mùsica arrastam milhares de jovens. A festa começa com uma mochila às costas.

Mafalda Ganhão (www.expresso.pt)

A Ana faz uma pausa, antes do sorriso aberto que acompanha a confissão: "O primeiro concerto a que assisti foi do Gomo." Os amigos riem divertidos, mas ela encolhe os ombros, dando-se à paródia. "O que é que vocês querem? Pode não ser o melhor para o meu currículo musical, mas eu tinha aí uns 14 anos, foi na primeira vez que assisti a um festival, ao Super Bock Super Rock."

A estreia não foi auspiciosa. "Fui com uma prima mais velha e não estava à espera de ir parar a um sítio com tanta gente", recorda Ana Matias, hoje com 20 anos: "Como ficámos logo na terceira ou quarta fila, a experiência tornou-se ainda mais assustadora."

De então para cá, garante, os gostos musicais refinaram-se e a ida a festivais, por assim dizer, "profissionalizou-se". Como qualquer jovem que se preze, a Ana e o seu grupo de amigos aprenderam a dominar a arte de escolher e assistir a estes megaeventos musicais e estão sempre atentos aos cartazes divulgados, empenhados em não perder o que realmente interessa.

A música é o mais importante? "Para mim é determinante, até porque, em função das bandas anunciadas, dá para perceber o tipo de pessoas que o festival atrai e prever o género de ambiente", diz Yolanda Tati, 18 anos, estudante de engenharia civil. Mas há exceções. Para Joana Guiomar, também de 18 anos, há festivais tão especiais que "quase não interessa quem lá vai cantar". "Paredes de Coura é assim", garante a estudante de produção teatral, "porque em Paredes vive-se um espírito diferente. Além do próprio espaço junto ao rio ser bonito e as condições para o campismo serem muito agradáveis, as pessoas são... mesmo boas".

A descrição inspira. Mas se é quanto basta para deixar os pais mais tranquilos na hora de verem os filhos partir de mochila às costas, rumo ao Norte ou ao Sudoeste, é assunto para aprofundar.

Diogo Ribeiro é filho de pais separados e a primeira vez que foi a Paredes de Coura, em 2006, com 16 anos, teve de ultrapassar a ira paterna: "Coincidia com a altura em que devia estar de férias com o meu pai, por isso ele não queria que eu fosse. Mas eu insisti que tinha de ir e ele lá se convenceu."

Educar os pais

SARA, DIOGO E (NO CHÃO) YOLANDA. AMIGOS DE LONGA DATA, NEM SEMPRE VÃO JUNTOS AOS FESTIVAIS. DIVIDEM-SE EM MATÉRIA DE PREFERÊNCIAS, MAS TODOS CONCORDAM QUE ELES GARANTEM EXPERIÊNCIAS ÚNICAS

SARA, DIOGO E (NO CHÃO) YOLANDA. AMIGOS DE LONGA DATA, NEM SEMPRE VÃO JUNTOS AOS FESTIVAIS. DIVIDEM-SE EM MATÉRIA DE PREFERÊNCIAS, MAS TODOS CONCORDAM QUE ELES GARANTEM EXPERIÊNCIAS ÚNICAS

Foi a única vez. "Os meus pais não me chateiam nada", conta Diogo, aluno de engenharia zootécnica,"só querem saber onde estou e recomendam a toda a hora que tenha juízo". "À medida que crescemos torna-se mais fácil", reconhece Yolanda, "acho que nós próprios os vamos 'educando'". A jovem reconhece que a mãe, agora, "só insiste em dizer-me para ter cuidado com o meu copo, por ter medo que me deitem qualquer coisa lá para dentro".

Boas notícias para os juniores, a maior parte dos pais parece ter-se já habituado à ideia de dar rédea solta aos filhos festivaleiros. Luís Raimundo, médico responsável pela Luramed, empresa privada que garante o apoio clínico a festivais como o Sudoeste, não podia estar mais de acordo: "Mais facilmente deixava um filho meu ir a um festival de música que a um jogo de futebol."

Podem acontecer acidentes - em 2006, uma rapariga de 23 anos morreu afogada num canal de rega - e é impossível desmentir que a droga circula. Durante a edição do ano passado do Sudoeste, o Comando Territorial de Beja da GNR apreendeu milhares de doses de haxixe e de drogas como cocaína, ecstasy e selos de LSD, além de ter detido 15 pessoas por tráfico. As autoridades sabem que raves e festivais são ocasiões muito aproveitadas pelos traficantes, mas quem está no campo desvaloriza os efeitos desse consumo no ambiente geral.

Igor Cândido, aluno de mestrado de engenharia informática, tem 21 anos e assiste a festivais, pelo menos, desde 2005. "Claro que se vê circular droga", reconhece. "Mas não mais que em outras ocasiões", diz o jovem: "Já vi gente a consumir, mas nunca fui aliciado num festival para o fazer também."

A maior parte das ocorrências, "ao contrário do que se possa supor", diz Luís Raimundo, pouco tem a ver com o consumo de drogas ou álcool. "Claro que aparecem casos de excessos, mas no balanço geral da nossa experiência, esses são casos que não chegam a dez por cento dos atendimentos." Medidas como o controlo policial nos acessos ao festival e a própria limitação das bebidas permitidas - no caso do Sudoeste só a cerveja é permitida, nada de bebidas brancas -, são pontos a favor.

O bom ambiente tem tudo a ver com o espírito à partida. "Por mim falo", considera Diogo: "Eu vou para me divertir, para conhecer gente nova e para ouvir a música de que gosto. Quero tudo menos problemas, tal como a maior parte das pessoas que lá estão."

"O pior que pode acontecer a um miúdo num festival é perder o concerto que sonhou tanto ver", constata Luís Raimundo, "por isso o ambiente é de festa, de certa forma mesmo entre nós, médicos e enfermeiros, que estamos lá para trabalhar". Luís já assistiu vários miúdos magoados e sabe que a principal preocupação de quase todos eles "é voltar depressa para junto dos palcos".

Escaldões e picadas de insetos

Em matéria de emergências, imperam então outro tipo de problemas. "Em festivais só de um dia esperam-se doenças súbitas, como entorses, queimaduras solares ou casos de desidratação", conta o médico da Luramed, "se falamos em festivais associados ao campismo e a mais dias de permanência, então aparecem as amigdalites e as picadas de insetos, por exemplo".

Seja como for, ir a um festival e ficar acampado é sempre uma aventura. "Aprende-se muito", faz questão de enfatizar Sara Brás, 20 anos, estudante de audiovisuais e multimédia e fã incondicional do festival de danças populares Andanças: "Dá-nos um conjunto de vivências que nos ensinam muito sobre camaradagem, entreajuda e, sobretudo, a noção de respeito pelo outro."

Pena os preços. Porque ir a um festival não sai barato e, se os pais são uns "porreiros" que não levantam obstáculos às agendas estabelecidas para o Verão, já não serão assim tão mãos-largas ao ponto de as financiar.

Querem festivais? Então organizem-se e poupem para a farra. Faz parte do compromisso. "Da primeira vez que quis ir vendi o meu telemóvel por 35 euros, o preço exato do bilhete", recorda Ana Matias, estudante do 12º ano, habituada também a trabalhar no verão para sustentar o "vício". O Diogo nunca o fez, mas poupa da mesada durante o ano inteiro: "O ano passado devo ter gasto aí uns 600 euros, mas para isso evito sair à noite, porque sei que é uma ocasião em que gasto muito e, às vezes, também corto nas despesas do bar na faculdade. Como menos."

Espírito prático, precisa-se

Se o dinheiro obriga a ginásticas muito próprias, a logística de cada partida não se fica atrás. "É preciso ver horários de comboios, combinar quem leva o quê, encarregar cada um de tarefas específicas", ensina Joana. Ir em grupo é bom, mas requer capacidade de funcionar em equipa. "Gente picuinhas, nem pensar, e levar namorados também não aconselho", avança Diogo como regras principais. Depois, nada de ficar "escravo" do todo. Em "campo", cada um deve movimentar-se de acordo com o que lhe apetece. Vê os concertos que quer, no lugar onde quer, vai dormir quando lhe apetece. Só é preciso combinar muito bem os pontos de encontro e "não vale a pena contar muito com os telemóveis para esse efeito", como diz a Sara, "porque na maior parte dos casos as linhas entopem pelo excesso de utilizadores e as mensagens só chegam quando já não fazem falta.

Os festivais valem pelas recordações que deixam. Alguém que, no meio de um moche perdeu os ténis de marca que adorava, a viagem tormentosa de sete horas porque o condutor não sabia o caminho, os amigos que se fazem e ficam para a vida, entre as mensagens no Messenger e novos encontros noutros concertos.

E namorados/as? "Paixões. Igor, queres dizer alguma coisa", desafia Ana Fonseca. Mas o Igor permanece imperturbável. "Não, não tenho nada para dizer..." Prefere recordar o concerto dos Metallica e o dos U2, inesquecíveis até hoje. À volta da mesa no café, a conversa deriva para as bandas que por cá passam este ano. As Anas querem ir ao Optimus Alive, "de certeza", e a Joana, claro, não dispensa Paredes de Coura, mesmo que isso implique deixar o emprego temporário que a ocupa desde há uns meses.

Perder a festa? Nem pensar. O verão está aí. Armem-se as tendas.

Publicado na Revista Única de 26 de Junho de 2010