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Canaima: Um banho de selva

Em Canaima, na Venezuela, as montanhas e as cascatas esmagam os visitantes, tentados a esquecer o resto do mundo. Clique para visitar o canal Life & Style.

Pedro Cordeiro (www.expresso.pt)

Não é preciso pôr o pé no solo de Canaima para saber que esta região do Sudeste da Venezuela é especial. Quando o pequeno avião que traz os turistas de Puerto Ordaz se aproxima do destino, uma meseta de parede quase vertical ergue-se da selva frondosa, inspirando respeito. Trata-se de um tepui - "casa dos deuses" em pemon, dialecto que é também nome de um povo caribenho -, uma das mais antigas formações rochosas do mundo, surgida no período pré-Câmbrico, que durou da formação do planeta até há 542 milhões de anos. Feitos de quartzo e calcite, os tepui são típicos dos 30 mil quilómetros quadrados de parque nacional que a UNESCO designou património mundial da Humanidade em 1994. Há-os com nome de abutre (Kurun), veado (Kusari) e flecha (Kuravaina). O maior de todos, Roraima (mãe das águas ou monte verde-azul), fica na zona da Grande Savana, na zona leste do parque, e inclui a tripla fronteira Brasil-Venezuela-Guiana.

No sector oeste fica o Waku Lodge, um dos oito recintos turísticos que rodeiam a lagoa de Canaima. Ao calor tropical - a temperatura média é 28° e pouco arrefece à noite - junta-se o humano, num acolhimento sorridente que sela a hospitalidade com sumo de tamarindo e um colar ao pescoço do viajante. O instinto imediato é descer à pequena praia de areia rosada e contemplar a lagoa e as impressionantes quedas de água (saltos em castelhano, meru em pemon) da margem oposta. São cortinas de espuma branca, de força avassaladora, sobre o manto azul da lagoa. À volta, palmeiras esguias destacam-se da vegetação densa.

Do lado direito, um areal mais extenso onde ao fim da tarde se reúnem homens a jogar à bola, crianças a tomar banho e mulheres a lavar roupa. São índios kamarakoto, um ramo dos pemon e parte dos 15 mil que vivem em Canaima. Habitam um povoado pequeno, equipado com escola, igreja, hospital e várias lojas de onde se pode trazer canoas em miniatura, máscaras tribais, molhos afrodisíacos hiperpicantes e outras recordações. Em 1999, o presidente Hugo Chávez outorgou aos povos indígenas a exploração das "terras ancestrais". "Ninguém pode fazer negócio aqui sem ter um sócio nativo", explica a guia Makelis Freire, índia orgulhosa da raiz portuguesa do seu apelido. Os olhos enchem-se-lhe de lágrimas ao falar do nosso país. Nunca o visitou, mas diz estar "eternamente grata" pela atenção que Portugal prestou às vítimas da queda de um avião, a 3 de Setembro de 1976, nos Açores. Morreram 68 pessoas, incluindo todo o Orfeão Universitário da Universidade Central da Venezuela. "Trataram dos nossos mortos com tanto carinho como se fossem vossos."

O barulho das quedas de água embala toda a estadia, e mais para quem for na estação húmida, de Maio a Dezembro. O período seco não permite ver as cascatas na máxima pujança (algumas, raras, secam), mas proporciona caminhadas pela selva tropical que seriam impossíveis com a subida do rio Carrao. A pé ou de barco, há uma variedade de excursões a combinar ao sabor dos dias, sem pré-marcação. Grutas de Kavac, ilha Orquídea e Poço da Felicidade, Salto do Sapo... cada um dirá qual dos nomes lhe soa mais sugestivo. Imprescindível é, em todo o caso, visitar o Salto Angel, a maior queda de água do mundo, que cai de 979 metros de altitude, com uma torrente ininterrupta de 807 metros. Esta maravilha natural deve o nome ao primeiro aviador que a sobrevoou, um americano, em 1933. Chávez anunciou a intenção de rebaptizá-la de Kerepakupai merú (cascata mais funda, designação original em pemon), mas nem isso impedirá que milhares de pessoas continuem a imitar Jimmy Angel, em avionetas trepidantes de seis lugares. Os menos amigos das alturas podem optar pela expedição pedonal, e nesse caso ficarão a conhecer os meandros do Ayuan tepui (montanha do diabo), em cujo coração fica o Salto Angel.

A estadia do Expresso incluiu pensão completa (realcemos os deliciosos peixes de rio) e um passeio de canoa na lagoa de Canaima, durante o qual somos convidados a atravessar uma cortina de água. Atrás do Salto Hacha (machado em castelhano, devido ao formato de uma saliência na rocha que a lenda garante ter sido ali cravada pelo herói Macunaima), antes ou depois de um duche consolador na cascata, Makelis Freire conta o ritual iniciático que ali se desenrolava noutros tempos. Ao chegarem a certa idade, os jovens de ambos os sexos tinham de mostrar que sabiam viver em harmonia com o meio ambiente. Uma série de provas físicas e metafísicas, em que iam com o xamã para a selva, culminava no Hacha. "Aqui eram visitados pelo Deus, que aparecia como homem às raparigas e como mulher aos rapazes. Seguia-se uma união sexual e era-lhes dado o privilégio de verem os filhos e netos que dela resultariam", explica a guia. Esse périplo pelo futuro era, porém, muito breve. "Se ficassem demasiado tempo naquele transe, perdiam a ligação ao mundo dos vivos e já não podiam regressar."

Perder a ligação ao mundo é uma tentação em Canaima. Outra é trocar a cama que nos foi atribuída pela rede de pano à entrada de cada quarto ou por uma espreguiçadeira junto à lagoa. Sem stresse, a única azáfama é a da fauna que se faz ouvir, enquanto a água das cascatas vai caindo, qual areia na ampulheta. Sem isso, diríamos que o tempo tinha parado.

INFORMAÇÕES ÚTEIS

Para chegar - Há que voar até Caracas e dali a Puerto Ordaz (linhas domésticas: Conviasa, Aserca, Avior), para apanhar o avião que leva ao aeroporto nas imediações da lagoa.

Preços - Conte com €1200 euros para o trajecto completo, ida e volta, €250 para a estadia com pensão completa e €200 a €700 para as excursões, dependendo de quantas fizer. Estes valores são para a taxa oficial, em que um euro vale 5,7 bolívares.

Câmbio - Tudo é mais barato se comprar bolívares no câmbio paralelo (a taxa chega a 9,8 bolívares por euro).

Operadores - Há 17 operadoras turísticas, entre elas Canaima Tours, Tiuna e Makunaima.

Mais informação em

http://www.wakulodge.com

Publicado na Revista Única do Expresso de 8 de Maio de 2010