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Crítica de música de 10 a 17 de Abril

Nelson Freire Decca/Universal

Após as celebradas gravações com peças de Chopin e Schumann, o pianista brasileiro admite que a música de Debussy (sugerindo de forma delicada e com imenso pudor mais do que dizendo de forma ostensiva e exuberante) se relaciona de maneira muito profunda com a sua própria personalidade tímida, estabelecendo-se uma "conversa íntima entre o piano e o eu" como preconizou o músico francês. Tendo despertado para a música de Debussy com a professora Lúcia Branco, no Rio de Janeiro (a cidade apresentada por alguns como 'a mais francesa' da América Latina), Freire vê como superficiais as leituras que consideram Debussy apenas um mestre da cor, o homem do impressionismo ao piano. Comoveu-se até às lágrimas ao descobrir uma carta onde é narrado o encontro entre o compositor francês e Guiomar Novaes, a sua pianista de culto. Numa gravação onde realiza uma articulada defesa do piano de Debussy, o intérprete termina o seu recital com o hipnótico poder encantatório dos mistérios de "Clair de Lune" com o seu clima tão próximo das "Fêtes Galantes" de Verlaine. Ana Rocha

Lisboa tem fados novos

Pedro Moutinho resume dez anos de trabalho.

A maturidade bateu-lhe à porta dez anos depois de ter começado a cantar profissionalmente. Descobrira, logo no segundo álbum de originais - "Encontro" (Som Livre, 2006) -, que para vingar como fadista teria de construir a sua própria identidade. Fê-lo com cautela, sem pretensões, marcando a bitola com uma intensa personalização das interpretações de fados tradicionais. A voz a demarcar-se dos demais, mas fiel a um fado incorruptível.

Três anos depois, Pedro Moutinho diz querer "arriscar". Quer fazê-lo enquanto intérprete e num percurso ao qual ainda lhe custa chamar carreira. Esse risco espelha-se em "Um Copo de Sol", onde o fadista deixa para trás não só os temas mais tradicionais da canção de Lisboa como também a linguagem a que estes nos habituaram. "Sabia perfeitamente que era isso que queria. Fi-lo com calma, persistência e consciência. O resultado não podia deixar-me mais satisfeito", conta.

Mas o caminho para a construção deste seu terceiro álbum foi longo. Foi demorada a procura do repertório, feita de novas cumplicidades. Amélia Muge, Manuela de Freitas, Rogério Oliveira, Jorge Fernando, Aldina Duarte, Pedro Campos e Rodrigo Leão foram alguns dos compositores e letristas a quem pediu ajuda. "Fui criando um fio condutor para um disco que tinha que dar às pessoas algo de novo, ao fado nova roupagem", continua. De sonoridades mais abertas, temáticas mais actuais, o disco desvenda um fado menos pesado, "com sabor a sol", embalado pelos murmúrios de esplanadas e mar, amores tristes e felizes, "histórias verdadeiras com as quais me identifico em pleno".

A harmonia é a tónica dominante de um disco em que não existem sobressaltos. Atravessado pela calma, que uma voz agora mais melódica, mais suave e aveludada lhe impõe. Pesa apenas, e no bom sentido, a mão de Carlos Manuel Proença. O viola é o produtor do disco e marca-lhe a homogeneidade como ninguém. Na forma que introduz em cada arranjo e na capacidade de ligar e alinhar cada tema em conformidade com uma ambiência musical previamente definida por Pedro Moutinho: "É algo de fresco que quero transmitir." José Manuel Neto, na guitarra portuguesa, e Daniel Pinto, na viola-baixo, completam o trio de músicos que acompanham Moutinho nas 13 canções que compõem o álbum. De todas elas, só uma poderia parecer despropositada - 'Colchetes d'Oiro', um tema criado pelo mestre Marceneiro -, mas a leveza interpretativa integra-a no conjunto com facilidade. Alexandra Carita

Pedro Moutinho iPlay

Leonard Cohen 2 CD ou DVD Sony

Julian Schnabel (real.) DVD Fortíssimo/ZON Lusomundo

Lou Reed Matador/Popstock

A noite de 19 de Julho do ano passado, em Lisboa, foi o momento de todos os dilemas: correr em direcção a Algés para assistir ao concerto da anunciada tournée de despedida de Leonard Cohen ou marchar sobre o Campo Pequeno, não perdendo a oportunidade (supostamente) única de estar presente na interpretação ao vivo de "Berlin", de Lou Reed, pela primeira vez levado ao palco, após trinta e tal anos de maldição? Havia importantes factores de ponderação: por um lado, aos 73 anos, Cohen já não estava propriamente a ir para novo, a devoção roça perigosamente a irracionalidade (leia-se: o ancião Lenny, se lhe apetecer, até pode partilhar o microfone com Celine Dion que, aos ouvidos dos fiéis, isso nunca será menos que sublime) e despedida é despedida; por outro, a lenda de "Berlin" é poderosa, Lou Reed, só por ele, já carrega aos ombros História pop suficiente para ser partilhável por várias gerações e as duas coisas juntas são tudo menos desprezáveis. É capaz de ter havido quem não tenha sido capaz de melhor do que a moeda ao ar. Alegando motivos de ordem religiosa, dirigi-me à beira-Tejo. Afinal, daqui por três meses e picos, Cohen estará de volta (acossado pela acústica assassina do Pavilhão Atlântico, é verdade) e "Berlin" pode, agora, ser tranquilamente apreciado (em disco e DVD) da perspectiva do sofá. O que, aliás - e, mais uma vez, coincidentemente - acontece também com os registos da digressão de Leonard Cohen. E, nestes (na O2 Arena, dois dias antes de Lisboa), nenhuma surpresa relativamente ao que vimos e escutámos naquele sábado, no Passeio Marítimo de Algés: o guião é idêntico, o oficiante da liturgia não foge à observação rigorosa de todos os passos rituais; apenas, lá como cá, naquele instante, ainda não se sabia quão longe poderiam chegar palavras como "everybody knows that the plague is coming, everybody knows that it's moving fast". "Berlin", ao vivo na St. Ann's Warehouse, de Brooklyn, mostra-nos o outro lado 'daquela noite', tal como fora ensaiado, em Nova Iorque, em Dezembro de 2006: higienicamente despojado de muita da indesejável ganga orquestral da edição original, seco e atlético, com o fogo do interplay das guitarras de Reed e Steve Hunter a atear incêndios localizados e, no DVD (realizado por Julian Schnabel), a intromissão absolutamente desnecessária e escusada das imagens, redundantes e nem sequer 'decorativas' - que, em palco, projectadas em fundo, poderão ter feito algum sentido mas que, aqui, actuam somente como ruído visual. João Lisboa

Papercutz Apegenine/Compact

Não será caso para dizer que Bruno Miguel descobriu a pólvora. Porque não há ideia neste ensaio de 'poesia electrónica' em registo impressionista que não tenha sido detectada na vaga renascentista da canção pop em contexto tecnológico formada em águas territoriais britânicas nos anos 90. Mas - mais que um novo indício da actual febre criativa - será elementar confirmar aqui a ascensão da pop lusa a um estádio de maturidade decorrente do sábio cruzamento de referências da produção exterior e dos impulsos criativos de um mundo interior. E é, justamente, na redobrada atenção à importância da singularidade estética na era da massificação que se joga a sorte deste 'estudo em lilás'. Porque, mesmo admitindo que seria necessária uma ingenuidade acima da média para acreditar que a escolha do idioma inglês se deve a uma visão lúdica da frente fonética e não a (legítimas) ambições artísticas, há nesta simbiose de canção introspectiva e desassossego rítmico, de minimalismo electrónico e memórias fugazes da música de câmara e de sentido bucólico (ecos dos jardins de Virginia Astley na voz de Melissa Veras) e urgência urbana superior capacidade de insinuação de uma realidade singular nas entrelinhas de uma sub-região da pop contemporânea densamente povoada. Na terra do Sol, pelo menos, pouco terá que mudar para que não tenha como destino a sombra. Ricardo Saló

Madeleine Peyroux Rounder/Universal

O mundo anda difícil. E não há avanços visíveis no programa espacial. O que não quer dizer que se deva baixar o nível de exigência. Mas, sobretudo quando vem de uma indústria em agonia, à música já só se pede que distribua prazer pela humanidade. E, na improvável revelação de 'admiráveis mundos novos', ninguém ficará desiludido se a audição de um disco lhe devolver o sabor das coisas simples. Até porque esta não é uma arte menos difícil que a invenção do futuro. Neste caso, não se trata, sequer, de converter a complexidade de referências na inteligibilidade da expressão. E menos, ainda, de sugerir cenários nunca antes pisados pela música. Numa rara aptidão para incutir o gosto do regresso a uma essência perdida reside a virtude maior de um álbum onde as memórias de Bessie Smith e Billie Holiday (como que filtradas por Rickie Lee Jones e Tom Waits) parecem recuperar numa sóbria orquestra de restaurante versada em Django Reinhardt, Ry Cooder e canção d'auteur a consciência de que menos pode ser mais e que não é preciso gritar se a substância já constar do DNA da música. Quando o furacão Krall ameaça, de novo, a costa, esta discreta voz da Geórgia chega para reduzir tudo a um ridículo aguaceiro. R.S.

Enrico Rava ECM/Dargil

Depois do sucesso de "Easy Living" de 2004 para a ECM, Enrico Rava consolidou o estatuto de estrela. Com o seu quarteto, tem tido muitas actuações nos EUA. Longe vai a década de 70, quando Rava (ainda no início) abraçava em Nova Iorque um jazz duma estética mais revolucionária. Com os anos, o trompetista refinou o seu som e ganhou uma tranquilidade e peso na improvisação que tornaram a sua música mais sumptuosa. Parece, todavia, que o grão de risco que a sua música antes continha (lembro o encontro com Roswell Rudd) está um pouco arredio. Mesmo uma peça de intenções mais dinâmicas como 'Outsider' parece querer desenvolver-se com uma rede de segurança. A atmosfera sombria que domina toda a obra como, por exemplo, em 'Interiors', a peça mais longa do CD, é felizmente quebrada em 'Thank You, Come Again' ou em 'Luna Urbana' com a sua batida mais latina. Se há um músico que está a um nível elevado, ele é o saxofonista tenor Mark Turner, cuja propensão para a meditação musical ajusta-se bem ao ambiente nostálgico das composições de Enrico Rava. Enrico é um grande músico, é impossível que faça música desinteressante, mas em Nova Iorque aguardava que gravasse um jazz mais enérgico. Raul Vaz Bernardo