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Critica de livros de 11 a 17 de Julho

A arte da tristeza e da atenção 

Um livro de poesia trabalhado e amadurecido como uma 'obra' singular e acabada.

Este é um livro póstumo. Por uma nota biográfica incluída na badana e também pelo prefácio de Joana Matos Frias, ficamos a saber que Nuno Rocha Morais nasceu no Porto em 1973, foi jornalista do "Comércio do Porto", depois de ter terminado o curso de Línguas e Literaturas Modernas, e de 1999 até à data da sua morte - 8 de Junho de 2008 - foi tradutor da Comissão Europeia, no Luxemburgo. Esse prefácio crítico e introdutório dá-nos também a informação de que o autor deixou o livro organizado e de que o título - "Últimos Poemas" - é aquele com que, desde os 20 anos, tinha decidido inaugurar o seu percurso de poeta. Mas essa inauguração em livro foi diferida, e até agora só alguns poemas tinham sido publicados em revistas.

Os cerca de cem poemas que constituem este livro valem como uma 'obra', sem nada de avulso, sem concessões generosas ou piedosas que as circunstâncias poderiam propiciar - uma 'obra' que irrompe com força na cena da poesia portuguesa actual e com a qual temos de contar.

A característica principal desta poesia consiste em manter vivo, em vários planos, um estado de tensão que lhe dita a complexidade e a torna refractária a classificações disponíveis. Antes de mais, a tensão formal entre a regra classicizante do equilíbrio e da harmonia e o imperativo moderno da liberdade e do desregramento. Veja-se, por exemplo, como este poema (pág. 127) entra nas regiões do sinistro e do irrepresentável sem abandonar, no entanto, a solidez formal, o rigor expressivo e o modo sóbrio: "Pequeno, quase caseiro, o campo./ Em torno, maciços, os Vosges./ Os meus passos afundam-se/ Na terra húmida e mole./ Vindas de todo o lado/ No vento que o arame esgarça,/ Uivam as alcateias do terror./ E por todo o lado irrompe o vento,/ Osso furando a pele/ Deste espaço quieto e gelado,/ Desta memória com olhos/ Maiores do que o rosto."

Tensão importante é também aquela que deriva da relação que os poemas estabelecem com as suas mediações literárias. Esta é uma poesia culta, e o diálogo com outros poetas é muitas vezes explicitado. Porém, essas referências são incorporadas como matéria que o texto elabora sem o hiato da mediação. Excepção a esta regra é um texto em prosa intitulado "Um Método", designado como um "exercício pongiano" (pág. 71). Mas mesmo aqui temos uma declinação completamente idiomática da escrita de Francis Ponge. Nuno Rocha Morais não chega ao ponto de reescrever, para uso próprio e à maneira de uma arte poética explícita, o "My Creative Method" pongiano (a Ponge, ele vai buscar uma qualidade: a exactidão), mas a questão do método não lhe é de modo nenhum indiferente. Podemos, aliás, dizer que essa questão é responsável por uma outra tensão: aquela entre as emoções e a contemplação intelectual, entre a relação com o mundo e os outros, que é da ordem das afecções e que é determinada por uma atitude analítica.

Estes são os dois pólos que dinamizam a poesia deste autor e que fazem com que a sua poesia se erga num intervalo entre a ponderação reflexiva e as forças emotivas obscuras: "Vou por vielas sombrias,/ Só pensamento e passos,/ Com os olhos afundados em espiral./ Que operações do espírito/ Se entregam a estes passos?/ Vou pelas espirais sombrias/ Daqueles que não têm amor,/ Vielas sombrias como perguntas sem resposta,/ Entranhando-se numa cidade animal,/ De desejos mal iluminados" (pág. 53). E eis-nos chegados a outro ponto, também ele um campo de tensões: entre a harmonia austera de uma poesia que nomeia a presença com uma exactidão própria da fórmula e a atitude discretamente elegíaca que nasce de um lamento, de uma perda, de uma impossibilidade de proferir os nomes divinos capazes de dominar o mundo. António Guerreiro

Nuno Rocha Morais

Quasi

2009

pref. de Joana Matos Frias e ilustr. de Rasa Sakalaité

152 págs.

€13,65

Laura Ferreira dos Santos

Sextante

2009

416 págs.

€19

Ensaio Uma católica reflecte sobre um tema polémico: o direito a decidir da sua própria morte. Ela é a favor.

De entre aquilo a que se convencionou chamar temas fracturantes, a eutanásia é aquele que mais dúvidas e polémica levanta. Laura Ferreira dos Santos, licenciada em filosofia e professora na Universidade do Minho, aborda o assunto num livro cujo título evita, precisamente, a expressão eutanásia: "Ajudas-me a Morrer? A morte assistida na cultura ocidental do século XX". Ao substituir o termo controverso, que remete, entre outros, para o programa nazi de eliminação de deficientes, a autora indicia uma posição favorável àquilo a que prefere chamar "morte assistida". A obra é, porém, muito mais do que uma simples defesa do direito de cada um a "morrer segundo as suas próprias convicções". Dá a conhecer a diversa legislação vigente nos países europeus onde a eutanásia já foi despenalizada (estendendo também o estudo à Colômbia e a vários estados norte-americanos), discute exemplos concretos, alguns particularmente mediáticos (como o caso recente da italiana Eluana Englaro), trata com minúcia da situação em Portugal, distingue terminologias, e não recusa reflectir sobre as implicações religiosas, filosóficas, éticas e políticas que o assunto obrigatoriamente levanta. Estamos perante um ensaio sereno e bem alicerçado que não convencerá os defensores da sacralidade absoluta da vida, nem eliminará todas as dúvidas daqueles que torcem o nariz a legislação permissiva em domínio tão sensível. Apesar disso, pela clareza e seriedade de exposição, o livro de Laura Ferreira dos Santos, uma crente que já havia surpreendido pela heterodoxia do seu "Diário de Uma Mulher Católica a Caminho da Descrença" (dois volumes), vem contribuir de forma significativa para um debate cada vez mais urgente. Ana Cristina Leonardo

Luis Maffei

Deriva

2009

68 págs.

€13,50

Poesia Segundo livro de um autor brasileiro doutorado em Herberto Helder.

No primeiro poema deste livro, , Luis Maffei estabelece de imediato uma espécie de circunferência, um limite para o alcance da sua escrita: "Só quero te deixar um breve fio, uma notícia, vaga/ luz que de fulgor tem pouca/ coisa". Eis uma poesia que abdica da transcendência e de altos voos, uma poesia rente ao chão e às coisas terrenas, atraída pelo "belo gesto do malogro" e capaz de intrometer-se no "cirúrgico intervalo entre uma escarpa e uma escultura". Além de breve, o "fio" que une os versos de Maffei é também frágil. Cada poema parece sempre à beira de se desfazer, vítima de um aceleradíssimo staccato e de uma sintaxe irregular, como que partida e colada de novo com fita-cola. O efeito é de vertigem verbal, queda a pique, salto no escuro. O poeta fala do tempo ("cruel, frenético e exigente"), dessa contabilidade dos anos que "não fecha/ nunca", de futebol e das suas gatas, das cidades e dos corpos, do "metrô" e do Maracanã, como que em fuga, impossível fuga, para um lugar exterior à literatura: "Estamos, amigo, fora/ dos livros,/ num cálido corpo que eu cria não/ ser de palavras". Estudioso e divulgador da poesia portuguesa, Maffei dialoga subtilmente com a nossa tradição poética, de Camões a Pessoa, de Gastão Cruz a Rui Pires Cabral. É um trabalho de filigrana, feito de paráfrases e desconstruções, bela homenagem de quem, diante de Sophia, se considera "andreseniano em mão segunda" e, dirigindo-se a Bocage, consegue escrever um soneto digno do vate de Setúbal. José Mário Silva

Neil Gaiman

Presença

2009

trad. de Fátima Andrade

496 págs.

€20

Romance/Fantasia

Um thriller teológico sobre os padrões migratórios das divindades tramadas pela globalização.

Um número desproporcionado de histórias de Henry James envolve um americano à deriva na Europa, claudicando perante suas densas e antigas corrupções. Neil Gaiman - que, para que não restem dúvidas, não possui qualquer outra característica em comum com Henry James - inverteu a dinâmica e expôs a sobriedade do Velho Mundo à letal inocência recém-nascida de uma América fantasiada. A premissa de "Deuses Americanos" - e, em qualquer produto da literatura de fantasia, a premissa representa metade do orçamento - é tão escandalosamente eficaz que o autor pode ser perdoado por enunciá-la dezenas de vezes. "Os deuses morrem. E, quando morrem mesmo, são esquecidos e ninguém os chora. As ideias são mais difíceis de matar do que as pessoas, mas, no fim, é possível matá-las." Segundo o catecismo alternativo de Gaiman, os migrantes europeus levaram as suas religiões e mitologias consigo, mas votaram-nas ao esquecimento. Tramados pela globalização e forçados a diversificar, os Ifrits, Thoths e Odins conduzem táxis em Nova Iorque, dirigem mortuárias no Illinois, prostituem-se em Los Angeles. Entretanto, uma nova geração - deuses da televisão, da Internet e dos cartões de crédito - considera a velha geração um punhado de jarras e prepara-se para efectuar um colossal golpe palaciano. Uma ideia assim é difícil de matar, mas, no fim, é possível matá-la. "Deuses Americanos" depressa resvala para o formulaico, e todos os arquétipos e convenções do género acorrem ao palco numa ordeira procissão. Há um protagonista ambíguo (cujo nome é Sombra) que poderia ter sido esquematizado por Joseph Campbell e George Lucas: órfão e alienado, entra na história aos trambolhões, antes de decifrar o seu 'destino' e o papel preponderante que lhe cabe no desenrolar dos acontecimentos. Há também o maniqueísmo caricatural que arrasa uma parte substancial do género fantástico. E uma gritante incerteza no tom narrativo, que nunca decide quão a sério levar a realidade que criou. Inesperadamente, o livro acaba por funcionar, arrastado pela fluência imaginativa de Neil Gaiman, mais evidente na atmosfera e nos pequenos jackpots de improvisação à ilharga do enredo: uma espectral Lucille Ball a despir-se num ecrã a preto e branco; um cadáver a pedir cigarros num motel; e um duende irlandês a fazer truques de magia num bar onde todas as conversas param misteriosamente vinte minutos depois da hora certa. Rogério Casanova

David Wroblewski

Bertrand

2009

trad. de Patrícia Xavier

586 págs.

€19,95

Romance

A estranha história de um rapaz mudo a quem os cães escutavam.

Se o cão é o melhor amigo do homem, o inverso não é de todo verdadeiro, uma vez que o homem continua a ser o pior inimigo de si próprio. Baseado nesta invariável, Clifford D. Simak escreveu "City" (1952), uma parábola em que a Terra, depois de a Humanidade se ter extinguido, é dominada por cães inteligentes, dotados de fala, servidos por robôs e que edificam uma nova civilização em tudo diferente da humana. A utilização literária de tão simpático animal teve muitos outros cultores, tanto lá fora como cá dentro, e com bastante proveito, de Bulgakov a Manuel Alegre. Não sei se o autor deste longo livro de estreia conhece aquela obra de antecipação, mas parte de uma premissa e uma citação de Darwin, segundo a qual "há grandeza nesta ideia de que a vida, com os seus diversos poderes, surgiu em escassas formas que continuam a evoluir para formas tão belas e maravilhosas". Edgar, o rapaz mudo e muito dotado para se entender com os animais, tinha uma ligação muito especial com a leal cadela Almondine, que a seu modo o percebia e com ele comunicava. O lento apuramento da espécie, cisma que começara com o avô, dera os seus frutos, e os cães Sawtelle espalhavam a fama e a admiração e alguma inveja e disputa científica em todo o continente e até ao Japão. Contudo, no paraíso rural do Wisconsin, intromete-se o veneno da desavença, e tudo acaba em tragédia e morte. A paisagem natural é omnipresente e bem desenhada, o drama um tanto lento até ao desfecho abrupto, mas a fuga do rapaz e a descrição de tão extraordinário feito, baseado em selecção natural e muito treino, que foi produzir uma estirpe canina tão inteligente, desgasta um pouco a leitura. Talvez pecha dos cursos de escrita que frequentou e do seu passado de programador informático, o autor não resistiu a acumular temas e variações, desde o entrecho de "Hamlet" a "O Livro da Selva". A história é regida pelo sacrifício do pequeno herói sem voz, personagem inesquecível, fazendo aqui as vezes de príncipe dos animais quase falantes, tentando escutar e compreender os humanos, não muito saudáveis, nem de intenções pacíficas. Tecido que foi em fios ténues mas inelutáveis, o destino é bastante imperativo quando se trata do desfecho, que, por sinal, fica bastante em aberto. Nesta elegia sombria e no mundo que resta, apenas a mulher e os cães parecem ter lugar na evolução futura.

José Guardado Moreira

Oscar Málaga Gallegos

Teorema

2009

trad. de Jorge Fallorca,

130 págs.

€13

Romance

Uma das vozes mais originais da literatura latino-americana.

Esta é a história de uma rapariga chinesa, Sha Li Pi, que estuda na Universidade de Pequim e quer aprender inglês, lendo no original o poeta e romancista Charles Bukowski - o maldito Gato Velho -com a ajuda de um dicionário Oxford. Para além do inglês que aprende, ela fala todas as línguas, como os pássaros. Não surpreende, pois, que se exprimisse fluentemente na sedutora linguagem do amor e com ela quisesse construir uma história de paixão com Charles, o narrador, desmesuradamente terna e sensual, ficcionada por Gallegos em pequenos capítulos, que se sorvem com avidez, como se fossem ostras frescas. Tudo neste livro transpira afectos, o abismo desconhecido das palavras, os desencontros que teimam em não sarar, a nostalgia do que poderia ter sido, a solidão que impregna o bater das horas, mas também a redenção da entrega e do amor generoso, de que são protagonistas Sha Li Pi e Charles, que ousaram ser humanos, demasiado, talvez, e perder a pele do divino. A última frase do romance resume, em poucas palavras, o projecto poético - quase sublime? - de Gallegos: "Escrevi este livro porque compreendi que a palavra é a água sagrada, rio inexplicável, o único que é sulcado pelos anjos que esperam reencontrar-se no Egipto." Como todos os gatos, todos os Bukowski, Charles e Gallegos, que um dia se enroscam serenos e se entregam por fim ao sonho imemorial do Mundo. A prosa do peruano Oscar Málaga Gallegos espelha não só as inquietações do autor, que são muitas, mas também as características do seu percurso e formação. A sua escrita tem leveza, musicalidade e encantamento poéticos (ele é um dos poetas mais representativos da sua geração), e a narrativa seduz pelo humor, rigor, lucidez e liberdades da linguagem (estudou psicanálise e sociologia da comunicação em Paris, onde viveu uma década, tendo sido editor da revista "Beijing Informa" e docente em diferentes universidades de Pequim). Além de "Blues de Um Gato Velho", a Teorema publicou o seu "O Segredo da Trapezista", um romance deliciosamente original e circense, metáfora literária do endémico caos peruano, obras que por si só o colocam entre os melhores escritores da América Latina. Vítor Quelhas

Maria Isabel Barreno

Sextante

2009

221 págs.

€16

Romance

Regresso de Maria Isabel Barreno ao universo do livro "O Senhor das Ilhas".

O sucesso chegou mesmo antes da co-autoria da publicação das "Novas Cartas Portuguesas" (1971), com o romance "De Noite as Árvores São Negras", em 1968. E o certo é que o registo que caracteriza a sua escrita permanece, impresso no modo de contar, enlaçando sentimentos e pressentimentos de seres invulgarmente enérgicos e transgressores, entre silêncios habitados. Tornei-me leitora incondicional ao ler "A Morte da Mãe" (1972) e ainda não me curei. Com "O Senhor das Ilhas" (1994), envolvi-me mesmo com a autora na história "dos seus" e fui definitivamente vencida por essa espécie de recriação imaginária de registos rasurados de existências ouvidas e lidas. Porque Maria Isabel Barreno é também "de Faria Martins", e é-o numa lógica que a aproxima do intangível através do sentido das coisas, recorrendo apenas ao talento, à inspiração e à ternura. Outros dirão que é "a voz do sangue". Talvez. O facto é que, 15 anos depois, Isabel Barreno nos convida a revisitar a memória do tetravô paterno, o senhor das ilhas, o primeiro Martins a chegar a Cabo Verde. Mas desta vez a história dos antepassados chega-nos através das Vozes do vento, quando João António Martins, o novo chefe da Casa, troca a ilha do Sal por São Vicente e se instala no Mindelo, onde seu pai projectara o porto que ligaria Cabo Verde ao mundo inteiro, já depois de banida a escravatura. Mas o projecto e o próprio esfumam-se em escassos 12 anos. Quem regressa a este livro vindo do primeiro é Maria Josefa, a mãe, terminando a sua vida longa de 79 anos e a primeira das duas partes de que o romance é composto. Gertrudes Maria, a mais convicta das suas filhas vivas, "a enérgica senhora", toma o lugar de Marta, e Tomásia é a ama-de-leite que substitui Cremilde pela lei da vida e da morte, e prepara-se Joana para integrar o movimento elíptico e interminável, perpetuando de geração em geração a completude e o amparo entre mulheres, entre ilhas, entre conjecturas que a História tece, entre o grito que se reprime, a perda de que não se fez o luto. Uma após outra, as ilhas e as vozes são silenciadas por desaparecimentos precoces e ventos repentinos. Há apenas um modo de ler os sinais deixados pelo vento que encobre as vozes, entre ficções e razões, e asseguro que é um exercício irresistível. Que contam cada um dos dez baús transportados de ilha em ilha e dos quais Manuel Maria se recusa a separar? Que se esconde entre os sons das contas de um colar irremediavelmente partido entre as mãos trémulas da própria matriarca, guardadas numa taça como se nela pudesse congregar os filhos desavindos ou apenas ausentes. Entre estas duas metáforas, identidade reencontrada em fragmentos que o vento dispersou, perdura a voz dos homens e dos seus destinos. Luísa Mellid-Franco