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Crítica de cinema de 19 a 24 de Setembro 2009

A Guerra como droga 

O mais brutal e visceral filme sobre a guerra do Iraque.

Desde "Três Reis" de David Owen Russell, feito em 1999 que a guerra no Iraque tem sido objecto de atenção cuidada pelos cineastas de Hollywood, quer em forma de documentário, quer de ficção. Mas entre essa já vasta produção será difícil encontrar uma obra com a força e a dureza do mais recente trabalho de uma realizadora conhecida pela forma como se aproxima do universo masculino. Em "Estado de Guerra" não temos questões políticas, morais ou éticas. Temos o drama em estado bruto e puro. Temos o relato de uma série de acções marcado por um realismo brutal, e temos o retrato de militares de tal forma obcecados pelo seu trabalho que este se transforma numa verdadeira droga. Como mais de uma vez é referido ao longo do filme, a adrenalina é a mais potente das drogas (recorde-se que esse era já o tema de um dos filmes mais 'duros', de Kathryn Bigelow: "Ruptura Explosiva", em que no confronto em queda livre de Patrick Swayze e Keanu Reeves, o primeiro grita: "Adrenalina pura!"), capaz de viciar quem joga com a morte em cada segundo.

E é esse o trabalho, que se transforma em jogo e em vício para William James (Jeremy Renner), sargento do Exército especializado no desarme de bombas armadilhadas, que o inimigo deixa espalhadas pelo campo e em veículos. A sequência de abertura é fabulosa na forma como o suspense se desenvolve acompanhando a acção de outro especialista (o sargento Matt, interpretado por Guy Pearce, num pequeno mas notável trabalho, tal como é a aparição de outro 'convidado', Ralph Fiennes, que aparece mais a meio, na figura de um comando), primeiro com o uso de um carro robô que 'estuda' a armadilha, e depois com o trabalho de Matt desarmando o engenho. Contudo, o inimigo usa outras armadilhas dentro da armadilha e Matt será vítima da explosão. Entra então em cena William, e desde o começo é-nos dada a imagem de alguém que está praticamente obcecado pelo seu trabalho e que despreza os habituais meios de segurança. William é considerado um verdadeiro génio no seu trabalho (mais de 800 bombas desarmadas), e prova que o é, embora todo o seu comportamento demonstre que o desprezo que mostra pela morte seja maior do que a segurança de saber o que faz, e antes uma verdadeira obsessão para chegar ao ponto limite, obsessão que o devora a ponto de o fazer abandonar a família. Alguns planos perto do fim (os únicos fora do campo de batalha) mostram Will de regresso a casa e à família, incapaz de se adaptar e alistando-se de novo.

Para além de um argumento escrito por Mark Boal, de uma força pouco comum, "Estado de Guerra" destaca-se ainda pela realização soberba de Kathryn Bigelow, de um ritmo quase esquizofrénico, como que contaminado pelas próprias personagens, e que chega a pôr o espectador quase em estado de choque, o que é reforçado pelo realismo de algumas sequências. Duas, em particular, se destacam pela sua dureza, para além da já referida do começo: o cerco a que Will e outros soldados são objecto no deserto, por atiradores de longo alcance e o corpo bomba.

Tal como o cinema de Kathryn Bigelow, "Estado de Guerra" mais do que um filme é adrenalina pura! Manuel Cintra Ferreira

de Kathryn Bigelow

(EUA)

com Jeremy Renner, Anthony Mackie, Guy Pearce, Ralph Fiennes

Guerra/Suspense

M/12

ESTREIAS

de Joaquim Leitão

(Portugal)

com Carlos Nunes, Virgílio Castelo, Ana Padrão

Drama

M/12

Lourenço é filho de um treinador de futebol que, por excesso de honestidade, é despedido e não consegue encontrar emprego. E toda a vida se parece desmoronar.

Tá-se bem' na Cova da Moura - parece ser a conclusão lógica deste filme em que um betinho de vida protegida acaba feliz naquele bairro, depois da sua realidade familiar se desfazer e o próprio pai entrar em profundo processo depressivo. Provavelmente os argumentistas - o próprio produtor, Tino Navarro, e Manuel Arouca - pretenderam fazer um dramalhão de intenções sociais que Joaquim Leitão embalou, mas saiu apenas uma fita onde não se sabe o que vai pior, se uma história sem pés nem cabeça, se a escolha do elenco (Virgílio Castelo tira as suas castanhas do fogo, mas nenhum dos miúdos nasceu para actor), se a moral sem jeito. O que mais espanta não é que o filme seja mau, é o desnorte que ele materializa na carreira de um cineasta que já demonstrou ser capaz de infinitamente melhor. Jorge Leitão Ramos

de Barry Levinson

(EUA)

com Robert De Niro, Sean Penn, Bruce Willis

Drama/Comédia

M/12

Um produtor em Hollywood vê a sua carreira em perigo devido a um filme que o realizador não quer ver cortado. Surgem cedências e compromissos de parte a parte até a um inesperado final.

Barry Levinson faz uma curiosa paródia ao sistema de produção de filmes em Hollywood, mas que, apesar de tudo, podia ser mais divertida. Dir-se-ia que o realizador teve receio de ir mais longe. Robert De Niro é um produtor habituado a gerir o ego desmedido das estrelas e realizadores com quem trabalha. Agora, em simultâneo, enfrenta dois: um actor (Bruce Willis) que se recusa a cortar a barba (!) e um realizador muito caprichoso que não desiste do final cut do filme que assinou (interpretado por Sean Penn!), mas que é forçado a uma remontagem após uma preview desastrosa. A nova cópia está destinada ao distinto Festival de Cannes, onde terá lugar uma surpresa. Havia matéria suficiente para um filme mordaz como poucos, mas o resultado é algo titubeante e hesitante em ir longe de mais. M.C.F.

de Nick Cassavetes

(EUA)

com Cameron Diaz, Abigail Breslin, Sofia Vassilieva, Alec Baldwin

Drama

M/12

Anna, uma adolescente concebida para salvar a irmã, põe em tribunal os pais, exigindo emancipação médica.

Nick Cassavetes regressa a um género que muito estima, o melodrama, levado aqui a um ponto extremo. Uma adolescente (Sofia Vassilieva) sofre de leucemia e está irremediavelmente condenada. Para lutar contra a doença, os pais geram uma nova filha (Abigail Breslin) com o fim de servir de dadora. Do cordão umbilical ao sangue e à medula tudo tem sido extraído da segunda. Agora, os rins da primeira deixam de funcionar e necessita de um transplante. A única dadora compatível é a irmã. É quando esta resolve pedir a sua 'emancipação médica'. Amor e 'egoísmo', parece ser o leit-motiv do filme. Ou será dedicação extrema? Algumas surpresas nos esperam. De fazer chorar 'as pedrinhas da calçada' é, apesar disso, um filme curioso, com uma excelente interpretação de Cameron Diaz. M.C.F.

de Martin Provost

(França/Bélgica)

com Yolande Moreau, Ulrich Tukur, Anne Bennent

Drama/Biográfico

M/12

A vida da francesa Séraphine Louis, dita De Senlis, empregada doméstica e pintora de art naïf nos primeiros anos do século XX.

Na França do pré-I Guerra Mundial, Wilhelm Uhde, coleccionador e crítico de arte alemão, um dos primeiros a comprar Picasso e Braque, instala-se na pequena cidade de Senlis, perto de Paris, e recebe os serviços de Séraphine Louis (Yolande Moreau, num papel notável), uma empregada doméstica, secreta e piedosa, selvagem e um tanto mística (fala com os pássaros, etc). Nos tempos livres, ela entrega-se à sua paixão solitária, a pintura. Pinta árvores e flores. E é com espanto que Wilhelm descobre o talento daquela que seria baptizada para a posteridade como Séraphine De Senlis e se revelaria um dos nomes maiores da art naïf. O filme de Provost não é de todo impermeável ao academismo típico de um biopic de época mas é humilde perante a biografia, tem a câmara à altura dos enigmas da heroína e dá tempo ao tempo para fazer emergir o que é afectivo. Alcança os seus objectivos. Francisco Ferreira

de Ang Lee

(EUA)

com Demetri Martin, Imelda Staunton, Emile Hirsch

Comédia

M/16

A verdadeira história de Elliot Tiber, o homem que no verão de 1969 tornou possível a realização do lendário festival de música de Woodstock.

Ang Lee 'foi a Woodstock', e tudo o que nos trouxe foi este filme insosso. Insosso, não por falta, mas por excesso de condimentos inadequados, por exemplo: aquele olhar folclórico que se concentra mais nos penteados das suas personagens do que nas suas percepções, e que aposta forte em planos do género "vamos lá ver os hippies a brincar aos bons selvagens no Jardim do Éden". O resultado do guisado cifra-se na subnutrição das personagens e na sensação de que o filme comunga do destino do seu protagonista: aquele rapaz que quer 'ir lá', desfrutar da vida que lhe escapa, mas que acaba a sorrir para o tecto da camioneta de dois moçoilos que - adivinho - não terão feito carreira como terapeutas da fala. Em complemento, exibe-se ainda "Arena", a estimulante curta-metragem com a qual João Salaviza conquistou a Palma de Ouro, no último Festival de Cannes. Vasco Baptista Marques