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A Gata Christie

Agatha Christie volta a constar do elenco de séries que, de tempos a tempos, renovam o olhar sobre os romances da Rainha do Crime, em duas produções estreadas no ano que há pouco findou: “Ordeal by Innocence” e “The ABC Murders”

Popperfoto / Getty Images

Começar o ano a falar de crimes pode não ser o melhor dos auspícios. Mas a ficção, a boa ficção, serve também para nos distrair das trevas da realidade, ao mesmo tempo que nos aninhamos confortavelmente no esplendor do melhor entretenimento. Neste domínio, com ou sem Brexit, é impossível resistir à herança que o canal público britânico nos vai... deixando

Juro que a culpa não é minha. A culpa é, uma vez mais, da BBC e da sua longa e irrepreensível tradição de qualidade em matéria de séries televisivas. Longe que estão os tempos da Granada, da Thames Televison e da London Weekend Television, só a ITV rivaliza com o colosso britânico no que concerne a conteúdos televisivos.

Fundada em 1922, a estação pública do Reino Unido tem construído um notável legado qualitativo e quantitativo nas suas produções para televisão, cinema e rádio – instrumento fundamental de entretenimento, mas igualmente fundamental no que diz respeito à informação, sobretudo no período coincidente com a II Guerra Mundial.

No âmbito da ficção, não há grande clássico que não tenha sido objeto de adaptação por parte da British Broadcasting Corporation. Os grandes nomes da literatura foram e são forte presença nos canais britânicos: Shakespeare, Chesterton, Dickens, Austen, P.D. James ou Agatha Christie são há muito “velhos amigos” do público britânico e do imenso palco do mundo, por força das exportações que propagam o saber-fazer das artes do país de Sua Majestade.

Agatha Christie voltou a constar do elenco de séries que, de tempos a tempos, renovam o olhar sobre os romances da Rainha do Crime, desta feita em duas produções estreadas no ano que há pouco findou, curiosamente cada uma delas composta por três episódios. A primeira chama-se “Ordeal by Innocence” e é baseada na obra homónima que viu a luz do dia pela primeira vez em finais de 1958. A própria autora considerava “Ordeal by Innocence” a sua obra favorita, juntamente com “Crooked House”(1949), mas o facto é que só tardiamente foi reconhecida como um dos melhores últimos trabalhos da autora falecida em 1976. Muitos viram no excesso de diálogos um desvio à narrativa que nos conduzia exatamente (e surpreendentemente) ao destino só conhecido pela escritora; outros consideraram-na um exercício excessivo sobre psicologia em detrimento do romance criminal puro e duro. E, no entanto, “Ordeal by Innocence” é, acima de tudo, uma reflexão sobre aparências e como estas podem ser a camuflagem perfeita para ocultar e simultaneamente revelar o lado mais obscuro da condição humana. A história é a de alguém que é julgado e condenado por ter alegadamente cometido um crime no seio de uma família abastada. E mais não digo e mais não conto, exceto para dar conta do notável desempenho do elenco, onde merece destaque o sempre digno Bill Nighy. São apenas três episódios, mas o último vale por todos, mesmo se todos valem a pena.

A outra série tem a curiosidade de passarem hoje exatamente 83 anos e um dia sobre a publicação da obra que a inspirou: a 6 de janeiro de 1936, a Collins Crime Club editava “The ABC Murders” (“Os Crimes do ABC”). Plena de engenho narrativo, a história de um assassino que poderá não sê-lo e a lógica imbatível que afinal não é mais que dissimulação tornaram esta numa obra de referência da grande escritora e uma das mais adaptadas para televisão. A última destas adaptações estreou um dia depois do último Natal, e pode e deve ser vista nas plataformas de streaming. A grande novidade deste enredo que puxa para a ação um quase retirado Poirot é que a figura do grande detetive belga é, pela primeira vez, interpretada por... John Malkovich. Algumas palavras, pois, sobre o assunto: em primeiro lugar, tenho para mim que o ator do Illinois peca de há muito a esta parte pela irresistível tentação de ceder de boa vontade ao “overacting”, ou seja, torna-se tão excessivo nas interpretações que é quase uma caricatura, com a agravante de moldar cada uma das suas atuações com a mesma fórmula – o que, convenhamos, se torna não apenas previsível como cansativo. Acresce por outro lado que, na minha modesta opinião, Malkovich tem dois incríveis desempenhos em outros tantos filmes que não mereceram a ribalta de outros títulos: “In The Line of Fire” (“Na Linha de Fogo”), do grande realizador germânico Wolfgang Petersen (1993) e na arriscada mas feliz adaptação de “Of Mice and Men”, inesquecível romance de John Steinbeck que Gary Sinise em boa hora dirigiu em 1992.

Pois bem: eis que a sua interpretação de Hercule Poirot nesta série de “Os Crimes do ABC” é motivo de regozijo e de um retorno ao plano de onde o ator nunca devia ter saído. Quiçá devido à tradicional direção de atores no Reino Unido, que foca na contenção ao invés da extravagância, a verdade é que aqui não há lugar para maneirismos, não há espaço para a cabotinice, não há tempo a perder com holofotes desnecessários sobre o ator quando estes devem estar (e estão) focados na narrativa. O que estranha primeiro entranha-se rapidamente: Malkovich é perfeito no papel de um detetive arredado da fama e do fulgor de outros tempos mas que, em virtude de um caso que o envolve diretamente, é forçado a um regresso pleno de obstáculos, a começar na própria polícia que durante tantos anos ajudou a servir. O resto é ver e crer nesta teia complicada e elaborada por Agatha Christie,tendo em conta que a série é baseada (ou inspirada, se quisermos) no livro de 1936, o que significa que não é o livro de 1936 (nomeadamente no seu final). Uma palavra final para o genérico inicial: classe, bom gosto, inteligência e eficácia são dignos de nota, tanto mais artística quanto técnica na lição básica e fundamental que nos diz que uma série pode começar antes... de começar.