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Realidade alternativa

Maciej Musial, no papel de Kajetan Skowron, e Michalina Olszanska, como Ofelia, estão entre os protagonistas de “1983”

KRZYSZTOF WIKTOR/NETFLIX

A primeira série polaca da Netflix apresenta um mundo em que a Guerra Fria nunca terminou. “1983” já está disponível em streaming

Um país renascido após o terror, uma sociedade muito diferente da que se conhece e uma realidade que nem sequer se pensou possível. Como seria a vida se a Polónia nunca se tivesse libertado da União Soviética? Como seria o ano de 2003 se a Cortina de Ferro se mantivesse? É de uma realidade alternativa que se trata, é certo, mas nem por isso o exercício se torna menos interessante.

Em “1983”, o mundo continua mergulhado na Guerra Fria e os dois blocos mantêm-se. Na série, a Polónia vive sob um Estado Policial repressivo, que dividiu a população e opôs aqueles que seguem o regime aos que contra ele lutam. Opositores e dissidentes são controlados através de um sistema que junta a polícia política, as forças armadas e ainda outros órgãos de controlo ideológico e repressão política, mas 20 anos depois dos ataques algo pode estar prestes a mudar. Mergulhada numa calma aparente depois do caos inicial ditado pelos ataques terroristas de 1983, há uma nova voz (ou será antiga?) a querer ser ouvida na Polónia.

Num país em que obras como “1984”, de George Orwell, ou mesmo “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, de J.K. Rowling, são proibidas, há dois homens que se preparam para descobrir a verdade e a conspiração que levou a este estado de coisas. O inspetor Anatol Janów e o estudante Kajetan Skowron são dois aliados improváveis, mas são também a única esperança para o país (num mundo em que Al Gore é Presidente dos Estados Unidos). É aqui que uma série histórica alternativa se transforma em thriller criminal, mas essa é apenas uma parte do guião.

Depois há algo de “The Man in the High Castle” (sobre um mundo em que os nazis haviam ganho a Segunda Guerra Mundial) em “1983”, mas Agnieszka Holland optou por não carregar os sets de símbolos comunistas — estes surgem essencialmente em uniformes militares polacos —, numa escolha muito diferente da dos responsáveis pela série da Amazon Prime Video. A rodagem em locais reais na Polónia (houve filmagens em cidades como Varsóvia, Wroclau, Lublin e Silesia) no início do ano permitiu à realizadora de vários episódios de “House of Cards” explorar mais a história sem desviar as atenções da narrativa criada por Joshua Long. É que nos tempos que correm as séries distópicas (como “The Handmaid’s Tale”, no NOS Play) continuam a marcar pontos e esta é uma oportunidade para a ficção polaca conquistar o seu lugar.

Embora seja uma coprodução das norte-americanas Netflix e The Kennedy/Marshall Company com a polaca House Media Company, “1983” contou essencialmente com equipas locais — onde se incluem atores e realizadores mas também operadores de câmara, designers de interiores e figurinistas, entre outros — e entrou já no catálogo mundial do serviço de streaming da Netflix. A série, protagonizada por Robert Wieckiewicz, Maciej Musial, Michalina Olszanska, Andrzej Chyra e Zofia Wichlacz, é composta por oito episódios e já está disponível. Numa altura em que há outras produções polacas em marcha, a segunda temporada de “1983” ainda não foi confirmada pelos produtores.