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Muito mais do que fado e saudade. A semana em que Guadalajara se transformou num enorme Largo do Chiado

António Costa e Manuela Júdice (esq.) no encerramento da Feira Internacional do Livro em Guadalajara

IGNACIO REYES/LUSA

Muitos livros, muitos escritores, muitos leitores. A terra da tequila e dos mariachi recebeu a cultura portuguesa de braços abertos durante uma semana de intensa atividade literária e cultural. Os autores nacionais deram dezenas de conferências e visitaram escolas, os músicos da comitiva nacional conseguiram receber convites para regressar à América-Latina. António Costa esteve no encerramento da maior feira do livro em língua espanhola e prometeu: “o Orçamento da Cultura vai continuar a crescer”

Os números não enganam: perto de 750 escritores presentes, 630 livros apresentados, 820 mil visitantes (mais de 90 mil por dia). Foram nove dias de enorme intensidade naquela que é a maior feira do mundo em espanhol e que este ano recebeu Portugal como país convidado. Só no pavilhão lusitano foram vendidos cerca de 3 mil livros, com Saramago, Gonçalo M. Tavares e Lobo Antunes nos lugares cimeiros. Na música, Camané, Amor Eletro, Capicua e Dead Combo receberam convites para voltar ao México. Já os Moonspell vieram à Feira do Livro confirmar aquilo que já eram: um fenómeno de popularidade na terra da tequila e dos mariachi.

“Estou certa de que muitos mexicanos descobriram que Portugal é muito mais do que fado e saudade, assim como os portugueses que nos visitaram descobriram que aqui há muito mais do que tequila e mariachi.” Assim começou o balanço final da 32.ª edição da Feira do Livro de Guadalajara, no México, feito pela diretora do evento, Marisol Schulz. “O pavilhão (de Portugal) recordou-nos o conforto de uma biblioteca caseira, onde convivem objetos que tanto amamos, como os livros, com muitas recordações que vão dando sentido à nossa vida e memória. (...) Obrigada a António Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares, José Luis Peixoto, Lídia Jorge, Ana Luísa Amaral e Jerónimo Pizarro, para mencionar apenas alguns dos escritores que seguramente vão regressar a esta Feira, onde serão sempre recebidos de braços abertos.”

Só na livraria do Pavilhão de Portugal foram vendidos cerca de 3 mil livros (números até dia 1 de dezembro, sábado) e no top cinco estiveram José Saramago, Gonçalo M. Tavares, António Lobo Antunes, Fernando Pessoa e Eça de Queirós. No entanto, o número total de vendas de autores portugueses não se limitou à livraria do pavilhão. Obras de José Luís Peixoto, Nuno Júdice, José Saramago e Lobo Antunes estiveram também representadas nos stands das suas editoras espanholas e latino-americanas, e esses números não foram possíveis de obter até ao encerramento da Feira do Livro (FIL) este domingo. Um pormenor curioso diz respeito ao sucesso de vendas da biografia dos Moonspell, “Lobos que foram homens”, traduzida para espanhol por iniciativa da banda e posta à venda em dois momentos da FIL: durante uma sessão de apresentação e ao longo do concerto da banda de heavy metal mais famosa de Portugal.

Em nove dias o palco da feira acolheu nove concertos, num total de cerca de 15 mil espetadores. Os que tiveram mais público foram os de Lila Downs com Gil do Carmo, Moonspell (primeiro concerto de heavy metal em 32 edições de FIL), Amor Electro e Hello Seahorse. No balanço final da feira, Manuela Júdice, comissária responsável pela participação de Portugal na FIL, revelou que “Camané, Amor Eletro, Capicua e Dead Combo receberam convites para voltar a tocar no México”.

Entre 24 de novembro e 2 de dezembro, o Pavilhão de Portugal assemelhou-se a um enorme Largo do Chiado. De Afonso Cruz a Mia Couto, de Hélia Correia a Ana Luísa Amaral, de Germano Almeida a António Lobo Antunes, sem esquecer editores, tradutores, bibliotecários, músicos, arquitetos e jornalistas, só se ouviu falar língua portuguesa. Segundo a organização da FIL, 45 das 65 conferências apresentadas no auditório do espaço dedicado à literatura nacional tiveram lotação esgotada.

“Estou certo de que Portugal e o México seguirão juntos”

A afirmação é do primeiro-ministro português que, em 48 horas, qual Speedy González, conseguiu assistir à tomada de posse do novo Presidente do México na capital do país e, no dia seguinte, domingo, dar um salto a Guadalajara, segunda maior cidade, para visitar a exposição de Almada Negreiros no Instituto Cultural Cabanas, participar na sessão de encerramento da FIL e ainda fazer uma breve “vistoria” à obra de ampliação do metro da cidade a cargo da empresa Mota-Engil.

Clara Azevedo

No discurso de encerramento da Feira do Livro, António Costa começou por citar autores portugueses e mexicanos para reforçar a importância da cultura como marca de exportação: “A literatura e as artes são forças vivas de qualquer país, de qualquer cultura. Elas têm uma capacidade insuperável para dar a conhecer uma nação, um povo. Podemos frequentar um país muito antes de visitá-lo pessoalmente porque lemos e amamos a sua literatura”.

Mas, além da cultura, o primeiro-ministro não escondeu a importância dos “fluxos comerciais” entre os dois países: “O México é um parceiro incontornável com o qual Portugal está empenhado em reforçar e ampliar as modalidades de cooperação. Os fluxos comerciais entre os dois países intensificaram-se nos últimos anos. Existe um conjunto significativo de empresas portuguesas que estão a desenvolver projetos de infraestruturas, como a construção do Metro Ligeiro de Guadalajara pela Mota-Engil”.

“Se me pergunta se chega, não, não chega”

Aos jornalistas, em declarações após a cerimónia de encerramento da FIL, Costa voltou a falar de cultura e do respetivo orçamento: “este é o maior orçamento de sempre da Cultura e vai continuar a crescer”. E continuou: “Se me pergunta se chega, não, não chega, como não chega ainda o orçamento na área da Educação, Saúde, Habitação. É um caminho que temos de fazer, dando uma prioridade cada vez mais reforçada ao Ministério da Cultura”. Sobre a ministra Graça Fonseca, o primeiro-ministro reforçou o voto de confiança que nela deposita: “Terá toda a capacidade para executar este Orçamento”.

Precisamente uma semana antes da vinda de António Costa a Guadalajara foi a vez da ministra da Cultura inaugurar a Feira do Livro, mas aquilo que se previa ser uma passagem pacífica pela América-Latina acabou por se transformar numa polémica em Portugal pelas seguintes declarações: "Uma coisa ótima de estar em Guadalajara há quatro dias é que não vejo jornais portugueses."

Ao Expresso, este domingo de manhã à saída do Instituto Cultural Cabanas, o primeiro-ministro afirmou precisamente o contrário: “(Hoje) Já li todos, online. Tenho um serviço ótimo”.

Comentário de António Costa à leitura de jornais

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Na comitiva oficial de António Costa surgiu Luís Filipe Castro Mendes e o primeiro-ministro aproveitou para agradecer ao ex-ministro da Cultura o “excelente trabalho” desenvolvido na organização do programa para a FIL. “Sei que ele teria imensa pena de não visitar a Feira de Guadalajara.”

Ainda na cerimónia de encerramento, coube ao primeiro-ministro português cumprir a passagem de testemunho de Portugal para a Índia, convidado de honra da FIL em 2019. António Costa assumiu a ascendência indiana por parte do pai - momento de algum entusiasmo no rosto do embaixador da Índia no México e em toda a sua comitiva oficial - e sublinhou que Portugal tem "uma profunda e contínua ligação histórica e cultural" com aquele país, que "tantas vezes foi lugar de idas e vindas da literatura escrita em português".

A feira que encerrou este domingo teve 3128 jornalistas acreditados de 492 meios de comunicação social de 20 países, e, segundo dados da organização, foram publicados mais de 6 mil artigos, desde entrevistas, crónicas, fotogalerias e reportagens. Nas redes sociais, teve quase 279 mil seguidores no Facebook, 195 mil no Twitter e 26 mil no Instagram. Já a app da FIL foi descarregada por quase 18 mil telemóveis. Nesta última semana de novembro e início de dezembro, o livro foi seguramente uma das "drogas” mais transacionadas em Guadalajara.

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