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Palma de Ouro

Nunca reconhecido pela todo poderosa Academia enquanto realizador, tal facto nunca impediu Brian De Palma de crescer em popularidade e em talento

Foto Sylvain Lefevre / Getty Images

E que tal uma “masterclass” sobre cinema, vida e Hollywood, apresentada por um realizador que conhece como poucos os três parâmetros que o tornaram conhecido e que o legitimaram como contador de histórias, entre as quais a sua? Fica o convite para quem estiver disposto a mergulhar durante cerca de duas horas nas águas sempre agitadas da indústria cinematográfica mais conhecida do planeta

Reinaldo Serrano

Nasceu no mês e no dia que, pelas piores razões, eternizaram em data a história recente dos Estados Unidos. A 11 de setembro de 1940, Brian Russell De Palma abria os olhos pela primeira vez, não podendo saber que o seu olhar seria um dos mais seguidos no cinema norte-americano, sobretudo nas últimas três décadas do século passado. Newark foi a cidade que o viu nascer, o mundo o palco que o viu progredir e surpreender com algumas das obras mais marcantes (ou, pelo menos, mais conhecidas) no vasto panorama da sétima arte. Esta fez dele artesão depois de ver em pequenos cinemas de bairro “Citizen Kane” (“O Mundo a seus Pés”), de Orson Wells, e “Vertigo” (“A Mulher que Viveu Duas Vezes”), de Alfred Hitchcock. O realizador britânico tornar-se-ia, aliás, uma forte influência na sua obra que não tem qualquer complexo em ir “beber” a diversas fontes da história do cinema. O de De Palma foi objeto de um quase esquecido documentário assinado em 2016 pela dupla Noah Baumbach/Jake Paltrow.

Encimado pelo nome do objeto em foco, o documentário com um par de horas é uma revelação obrigatória para os (muitos) fãs do realizador, bem como para os queiram saber um pouco mais e um pouco melhor sobre uma época a que chamaram “New Hollywood”. Neste aspeto, De Palma é um narrador privilegiado e, claramente, consagrado. Nunca reconhecido pela todo poderosa Academia enquanto realizador, tal facto nunca o impediu também de crescer em popularidade e em talento, pese embora (ou ainda bem) parte da sua obra ter sido quase sempre objeto de controvérsia. Uma das principais críticas que lhe são endossadas é o facto de recorrer a uma linguagem que alguns consideram excessiva em matéria de violência e de sexo. Um encolher dos largos ombros sempre esta crítica emerge permitiu a De Palma construir uma obra com assinatura reconhecida.

O documentário em questão passa em revista os (agora) 78 anos de vida de homem que, sem reservas, mágoas ou hesitações, expõe os prós e os contras da sua adesão à arte quando esta era já indústria: a luta para impor o seu estilo, as batalhas com produtores, alguma animosidade de que foi alvo – justamente transformada em incompreensão – são alguns exemplos de uma história contada com invulgar à vontade e humor. Claro que de fora desta longa e interessante conversa não podiam ficar as estrelas maiores do firmamento de De Palma: “Obsessão” (1976), “Carrie (1976)“, Vestida para Matar” (1980), “Blow Out” (1981), “Os Intocáveis” (1987), “Missão Impossível” (1996), “Perseguido pelo Passado” (“Carlito´s Way”, de 1993) e, sobretudo, aquele que considero ser o seu melhor filme: o injustamente olvidado “Redacted” (“Censurado”) – um poderoso retrato das atrocidades que a guerra no Iraque infligiram no coração e na mente dos que nela participaram, assinado por De Palma em 2007. A título pessoal, permito-me referir um título que admito possa ter passado ao lado dos adeptos do bom cinema: “The Fury”, datado de 1978 e um dos filmes mais curiosos do então jovem realizador.

As memórias deste passam igualmente pelos tempos vividos ao lado de Martin Scorcese, Steven Spielberg, George Lucas e Francis Ford Coppola, assim como da sua longa amizade com Robert de Niro. Histórias de bastidores ficam sempre bem para quem as escuta, principalmente se narradas pelos seus próprios intervenientes. Assim sendo, céticos e curiosos são bem-vindos ao curioso e singular universo do senhor De Palma, ainda ativo e já refeito de alguns insucessos como foram “Missão a Marte” (eu até gostei) ou “Fogueira das Vaidades” (1990), que esteve, de facto, longe de ser brilhante.

Nada disso esmoreceu a “joie de vivre” de alguém que diz sem qualquer espécie de embaraço que a sua geração de realizadores nunca poderá ser copiada. Um “statement” que para muitos é uma boa notícia, nem que seja pelas piores razões. Seja como for, vale realmente a pena visionar “De Palma” e recordar uma figura meritória na arte que é o cinema, mesmo quando esta teve de ceder à indústria que o transformou. E, já agora, revisitar a filmografia de De Palma é, também, revisitar a qualidade da banda sonora dos seus filme, assinada, entre outros, pelo genial Bernard Herrman (o compositor de Hitchcock) e pelo eficaz Pino Donaggio. Fica o convite e a promessa de um tempo bem passado...