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Larvas do astral

Rui Lage explora o lado ocultista de Fernando Pessoa, numa viagem ficcionada do poeta ao Portugal profundo e arcaico da província, no início dos anos 30 do século passado

Fernando Pessoa e os seus heterónimos têm sido um tema recorrente na ficção literária portuguesa das últimas décadas. Pense-se em “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago (1984); em “Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa”, de Antonio Tabucchi (1994); ou em “Boa Noite, Senhor Soares”, de Mário Cláudio (2008). O que distingue a aproximação feita ao autor de “Mensagem” neste primeiro romance de Rui Lage, até agora conhecido (e reconhecido) como excelente poeta e ensaísta, é o modo como foge à imagem cristalizada de Pessoa: o empregado de escritório quase sem biografia, entregue à obra genial (fragmentária e fechada numa arca para a posteridade), circulando por Lisboa entre “flagrantes delitros”, projetos editoriais quixotescos e cartas de amor “ridículas” dirigidas a Ophélia Queiroz.

Fazendo pleno uso das prerrogativas da ficção, Rui Lage decidiu mostrar-nos um Fernando Pessoa muito diferente, arrancado ao torpor citadino por um desafio impossível de recusar. A ação propriamente dita tem lugar em 1931, quatro anos antes da morte do poeta, quando recebe no seu escritório da Rua dos Douradores uma carta dirigida à agência Bandarra, empresa de “Investigações Ocultistas e Paranormais”, montada com o seu grande amigo Augusto Ferreira Gomes para sacar dinheiro a viúvas inconsoláveis, em falsas sessões de espiritismo e fotografias do espírito dos mortos. Desta vez, porém, a questão parece séria. O padre de uma remota aldeia na serra do Alvão (a fictícia Cova do Sapo) implora aos “doutores” lisboetas que esclareçam o mistério que há dois meses não permite aos habitantes o consolo do sono. 
A partir das 11 da noite, toda a gente se fecha a sete chaves, enquanto “avantesmas” espalham pelas ruas uivos de outro mundo, coices brutais nas portas e bizarras luzes (“a rimar uns azuis e uns roxos”), antes de revolverem o solo do cemitério, desenterrando os mortos e largando-lhes os ossos na soleira das casas.

Só a promessa de boa paga afasta Pessoa de Lisboa, onde um dilema sentimental o faz hesitar entre uma fantasmática Ophélia e a carnal Hanni Jaeger, a “dama escarlate”, antiga namorada de Aleister Crowley, o mago inglês com quem Pessoa urdiu um célebre pseudossuicídio na Boca do Inferno, em Cascais. Bastava a minuciosa descrição da longuíssima viagem de comboio até às fragas trasmontanas para que “O Invisível” valesse a pena. Com impressionante solidez narrativa, o narrador conduz-nos da capital, onde a ‘intelligentsia’ ouve jazz no Palácio Foz, ao Portugal mais profundo, da pobreza extrema e das superstições, uma sociedade arcaica onde tudo é “excessivo, cruento”. À laia de detetive esotérico, Pessoa acaba por resolver o caso bicudo, que o leva a aventuras subterrâneas à laia de Indiana Jones e a encontros alucinados com várias formas de “larvas do astral” (por exemplo, um deus dos lusitanos, em forma de javali gigante), num esforço enorme para fechar o rasgão entre dois planos da realidade — o visível e o invisível — que esteve na origem de tudo.

Além de se interessar pela faceta ocultista do poeta (nomeadamente a “visão etérica”, esse “dom ingrato” que conseguiu domesticar e lhe permitia “contemplar o fluido magnético que emana dos corpos animais”, uma espécie de olhar para lá da superfície das coisas), Rui Lage inventa-lhe uma origem muito precisa. Na biografia de Fernando Pessoa sempre houve um vazio: os nove anos passados em Durban, na África do Sul, sobre os quais pouco disse e menos escreveu. Com uma prosa pujante, deambulando no meio do caos vegetal que se opõe à ordem da civilização branca, é nesse tempo da infância que “O Invisível” situa a iniciação de Pessoa aos rituais da feitiçaria zulu, primeiro vislumbre de um além a que uns chamam “plano astral” e outros “quarta dimensão”, bem como ao jogo de espelhos da heteronímia (na figura de Alexander Search).

Ao apresentar-nos um Pessoa capaz de arroubos eróticos em lugares públicos e de se embrenhar nos recessos da província mais distante, enfrentando criaturas ectoplásmicas, Rui Lage forçou talvez em excesso os limites da verosimilhança. Mas o que fica da sua estreia como romancista, além da coragem de misturar géneros e registos, é a altíssima qualidade da sua escrita, em particular quando descreve as desoladas extensões nortenhas: “Quando acordou, já o lusco-fusco laminava a serra de ouros e púrpuras. Rebanhos desciam dos altos ao colo das casas tristes, as cabras ínfimas pedras em marcha nos flancos da montanha. A noite porteira rechaçou os últimos pinheiros até restar só o espinhaço da serra, com as primeiras estrelas a assomarem nos postigos do éter. Um cutelo imponderável cortara a paisagem em duas metades, céu para cima, terra para baixo. Soprava-lhe na ferida o vento, flautista caprichoso.”