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Escritor italiano resgata a história de obras desaparecidas de autores consagrados

Giorgio van Straten

Elisabetta Villa/Getty

Ernest Hemingway, George Byron, Sylvia Plath, Nikolai Gógol, Malcolm Lowry, Bruno Schulz, Romano Bilenchi e Walter Benjamin são os oito autores de obras que existiram e, em determinada altura, deixaram de existir, sem nunca terem sido tornadas públicas

O ensaísta italiano Giorgio van Straten lançou-se numa viagem pela literatura, para investigar a história de oito livros que existiram e já não existem, cujo resultado está agora em "Histórias de Livros Perdidos", publicado em Portugal pela Elsinore.

Ernest Hemingway, George Byron, Sylvia Plath, Nikolai Gógol, Malcolm Lowry, Bruno Schulz, Romano Bilenchi e Walter Benjamin são os oito autores de obras que existiram e, em determinada altura, deixaram de existir, sem nunca terem sido tornadas públicas e com muito poucas -- ou nenhumas -- possibilidades de algum dia virem a ressurgir.

Foram "livros perdidos, queimados, rasgados, roubados, simplesmente desaparecidos, que sabemos terem sido escritos, que sabemos existirem", escreve o autor, Giorgio van Straten, acrescentando depois: "As pistas são fracas e a esperança de os encontrar reduzida, mas procurá-los não será já um modo de os lermos?"

Na introdução, Giorgio Van Straten esclarece que "os livros perdidos são aqueles que o autor escreveu, embora, por vezes, não tenha conseguido acabá-los; são livros que alguém viu, que talvez tenha até lido, mas que foram destruídos ou dos quais não se soube mais nada". Os motivos que levam à sua perda são os mais diversos e no primeiro caso abordado, trata-se de um livro sobre o qual Giorgio Van Straten pode dar testemunho direto, por ter sido uma das poucas pessoas que o leram antes de ser destruído.

Após a morte do escritor italiano Romano Bilenchi, a sua viúva descobriu -- durante a reorganização dos papeis do marido -- um manuscrito inacabado de um romance, intitulado "Il viale" ("A avenida"), que havia sido escrito muito anos antes, mas que, provavelmente por ser um romance que tratava de um acontecimento real e secreto -- a relação extraconjugal do autor -- ficou no fundo da gaveta.

Giorgio Van Straten leu-o e só não o fotocopiou por lealdade para com a mulher do autor, a quem prometera restituir o original sem o duplicar, ato de que se arrependeria mais tarde, em 2010, já depois da morte de Maria, quando tomou conhecimento de que esta o queimara.

Final semelhante teve um romance inacabado da escritora Sylvia Plath, cujo título provisório era "Double Exposure" e que, após a sua morte, ficou entregue ao marido -- de quem estava separada -, o também escritor Ted Hughes, único herdeiro dos seus papeis, que incluíam cartas, poemas, diários e as 130 páginas escritas deste romance. "O que fazer com estes papéis? Hughes fez escolhas, e foram escolhas radicais, destinadas a marcar o futuro da obra de Sylvia Plath": destruiu os últimos meses do seu diário, justificando que não queria que os filhos alguma vez o lessem, e disse que o texto do romance "foi perdido algures durante os anos 70".

Depois há Walter Benjamim e Bruno Schulz, ambos judeus, ambos desaparecidos durante a guerra juntamente com os seus últimos livros. O primeiro tentou fugir de França para Espanha clandestinamente, acompanhado sempre de uma mala preta que nunca largava, com um manuscrito dentro que afirmava ser mais importante do que ele próprio.

Quando chegou a Espanha, tarde da noite, soube que no dia seguinte seria entregue aos alemães e suicidou-se. Os seus pertences foram registados numa lista, e incluíam "alguns papeis", dos quais nunca mais se soube, supondo-se que se trataria do manuscrito que o seu autor referira.

O escritor polaco Bruno Schulz, "protegido" de um oficial nazi, foi morto por outro oficial nazi, em 1942, como forma de vingança, durante uma discussão entre os dois alemães. Acontece que este escritor se havia dedicado a um romance intitulado "O Messias", que considerava a obra decisiva da sua vida, mas que desapareceu com o seu autor, havendo várias teorias sobre o que Schulz poderia ter feito com aquele texto datilografado, desde enterrá-lo num jardim, a emparedá-lo num muro ou num pavimento, o que muitos escritores judeus faziam na altura.

Nikolai Gogol começou a escrever uma obra intitulada "Almas mortas", cuja primeira parte foi publicada, mas que pretendia que fosse uma obra tripartida, uma espécie de "A Divina Comédia", com inferno purgatório e paraíso. Mas o seu perfeccionismo decretou a sua derrota: Gogol escreveu e reescreveu o que seria o segundo volume, e numa noite em que pernoitava em casa de um amigo, incapaz de conseguir um texto com a qualidade que se propusera, lançou os seus escritos na lareira. O escritor morreria dez dias depois.

Também Malcolm Lowry quis criar uma espécie de "A Divina Comédia", cujo volume correspondente ao inferno é o romance "Debaixo do vulcão", considerado a sua obra prima. Durante nove anos, trabalhou no romance que corresponderia ao paraíso, "Rumo ao mar branco", mas um incêndio na sua casa destruiu tudo, incluindo a única cópia existente desta história.

Os primeiros ensaios narrativos de Ernest Hemingway, considerado um dos grandes escritores do século passado, desapareceram em Paris, mais concretamente de dentro de um comboio na Gare de Lyon. A sua mulher encontrava-se nesse comboio e levava consigo uma mala com os manuscritos para os entregar ao marido, em Lausanne, mas uma sede imprevista, levou-a a descer do comboio para ir buscar uma garrafa de água, e quando voltou ao compartimento, a mala tinha desaparecido.

O oitavo desaparecimento relatado é o das "Memórias" de George Byron, poeta conhecido como Lord Byron, e tratou-se de um caso de censura, já que nesses textos o escritor tratava das recordações privadas e "provavelmente" revelava a sua homossexualidade. Os textos acabaram também lançados à lareira, sendo duas as pessoas que mais pugnavam por este desfecho: um amigo do escritor, que fora seu amante, e a meia irmã, Augusta Leigh, com quem tinha tido uma relação incestuosa.