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Alentejo da água e das pedras

foto BENTO AMARO

A água dos rios, ribeiros, barragens e pegos, as antas e vestígios pré-históricos, os sobreiros e as oliveiras a marcarem a paisagem deste Alentejo

Indo para lá de Ponte de Sor e abaixo do Tejo, onde principiam as planícies, correm córregos, resistem carrascais e sobreiros. A terra amarela pinta-se de verde a perder de vista, há castelos e menires, poetas e escritores, tapeçarias e barros, pedras e ribeiras. O Alentejo é largueza de horizontes onde o céu de outono trocou o amarelo pelos vermelhos e laranjas e fez crescer o verde.

Por baixo de um céu azul, há vilas tranquilas, cantadores no meio do casario, conversas sem fim, terras e gentes e uma enorme planície, marca de um Alentejo que se veste para o outono, mais vermelho e amarelo, um viçoso verde, princípio e fim, mudança dos ciclos da natureza, mais contemplação e caminho, mais andança. Mais água, como a que corre por baixo da Ponte de Vila Formosa, em Alter do Chão, a mais bem conservada ponte romana de Portugal, que unia Lisboa a Mérida e que hoje permite, ainda, a travessia da ribeira da Seda, pela EN 245, na fronteira dos municípios de Alter do Chão e do Crato, vila com a “Varanda do Grão Prior”, pedras que espreitam, ao largo, o Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa.

A varanda do Palácio do Grão-Prior cimeira as arcadas daquela que foi casa do primeiro grão-mestre dos Cavaleiros Hospitalários, instalados por ordem do Infante no Crato. Aqui corre a água, espetam-se as pedras que acompanham um roteiro diferente por terras da grande planície. No Crato encontra a Anta do Tapadão, um megalítico com mais de cinco mil anos e tido como um dos mais bem conservados. Pedras inclinadas que marcam o monte e as pastagens.

UM ALENTEJO FLUVIAL

Sigamos ao encontro da planície e atravessemos a Ponte de Vila Formosa, arcos perfeitos, aduelas gémeas e a ribeira da Seda, que vem a crescer desde a serra de São Mamede. É a ribeira que marca o itinerário, o murmúrio das águas, os ruídos da passarada que quebram o silêncio. Atravessamos ao encontro de “um Alentejo mais fluvial que tem muita procura pelos turistas”, constata Mário de Freitas, administrador da Abaixo a Monotonia, uma agência de viagens que tem atraído cada vez mais visitantes à planície.

Logo depois do Crato, Alter do Chão, povo e vila com origens na Idade do Ferro e atravessada por uma das três vias militares que ligavam Lisboa a Mérida. Do Jardim dos Álamos observa-se o escorrer do casario, aposto em ruas de calçada onde se espreitam antigas casas fidalgas. É também aqui, na Coudelaria de Alter, que se criam os cavalos de raça lusitana e onde está a Escola Portuguesa de Arte Equestre. Na Coudelaria de Alter há falcoeiros, cavalariças e visitas. Tudo para ver num espanto antes de regresso ao caminho da ribeira da Seda, cada vez mais larga e solta.

Avancemos ao encontro de Avis, pela EN-370, onde o castelo foi construído em segredo, logrando enganar os mouros e protegendo os mestres da Ordem. Do Castelo de Avis subsistem três das suas seis torres: da Rainha, do Convento e de Santo António, e de qualquer uma delas se avista o Maranhão, um enorme espelho de água que nos devolve a ribeira da Seda que nos haverá de levar a Mora, montado e olivais, pinheiros e vides, e água. Água que corre abundante nas ribeiras de Têra, da Raia e da Seda e marca a vida do concelho, como o atesta o Fluviário, ponto de visita obrigatório em Mora, com mais de 600 exemplares de peixes que povoam os rios de Portugal, mostrando a fauna e flora dos rios ibéricos, num percurso desde a nascente até à foz.

BENTO AMARO

Um pouco antes encontra o Núcleo Museológico da Barroca, onde estão expostas realistas fotografias, que contam a andança dos campos e os compassos da vida da planície. Descubra o passadiço, uma estrutura de madeira que acompanha a ribeira do Raia e que o leva ao Fluviário. Escute o rouxinol, abrigado nos sobreiros, contemple as ovelhas e as vacas apascentando a existência, a vida que brota da terra e que envolve o Fluviário, aberto há pouco mais de uma década e “cada vez mais um destino e não só passagem”, explica o autarca Luís Simão que aponta também o Museu do Megalitismo, “uma outra estrutura que obriga a uma visita detalhada”.

PEDRAS, MENIRES E CROMELEQUES

Mora guarda um cromeleque, menires dispostos em círculo, com seis monólitos, sinais da Pré-História, que se explicam no Museu do Megalitismo, uma viagem a outra era, mantendo a geografia. O interior acompanha os altos e baixos da paisagem, uma estrutura de madeira ondulada escondida na antiga estação ferroviária, que foi remodelada para receber o novo equipamento cultural de Mora. Os achados arqueológicos da região comprovam as deslocações do centro da Europa, “quando as primeiras comunidades de agricultores se estavam a desenvolver e a estabelecer no interior alentejano, até ao período visigótico”, refere Daniela Paz, arqueóloga e cicerone da exposição do Museu do Megalitismo de Mora. Vídeos tridimensionais, simulador de escavações e objetos arqueológicos constituem o acervo.

O novo museu expõe o que resultou de mais de cem anos de escavações na planície alentejana. Foi o arqueólogo Vergílio Correia quem primeiro esventrou o concelho, em 1914, mas “todos os anos temos descoberto coisas novas”, esclarece o autarca.

Em exposição, mais de 1500 peças do megalitismo, num espaço organizado em quatro áreas: Apresentação, Vida, Morte e Contemplação. Também é possível contemplar todo o museu, através de uma escadaria que dá acesso ao nível mais alto de toda a estrutura de madeira.

O acervo mostra ainda como “a região constitui um dos polos principais do megalitismo na Península ibérica”, conclui a arqueóloga, que nos remete para Pavia, a povoação mais antiga do concelho, explicando a demanda, o caminho convidando à reflexão, o infinito que quase se toca, o bucólico da paisagem soprada pelo vento outonal. Em Pavia abundam numerosos monumentos megalíticos, 230 motivos incluindo uma anta que foi transformada em capela, num passado já longínquo. Custódia Casanova, uma pintora e formidável cicerone da vila, conta que a povoação “remonta a um núcleo de imigrantes italianos, fixados a instâncias de D. Afonso III ou de D. Dinis”. Foi também aqui que Fernando Namora exerceu medicina e escreveu o romance “O Trigo e o Joio”, baseado nas andanças da população que observava do seu consultório, hoje um espaço museológico. De novo a água, dançando com as pedras. A ribeira da Têra, que mais à frente encontra a da Seda, para formar a da Raia. Estamos já no Cabeção, seguindo sempre o murmúrio da água, onde há peixes do rio, vinho da talha e folhas de outono que se desprendem das parreiras, o quadrante que muda. Aqui a água que corre transforma-se numa pista de pesca natural, procurada por pescadores de toda a Europa que a cada dois anos cá vêm disputar campeonatos.

A vila foi couto de Avis e protege a Mata Nacional de Cabeção, pinheiros mansos sem conto, protegidos pela Ermida do Salvador do Mundo, edificada no século XIV e que mantém a traça original do portal gótico. Mas o espírito reclama a talha, “que se haverá de abrir daqui por algumas semanas”, antecipa Manuel Inês, um dos produtores de vinho da freguesia, que na segunda semana de dezembro abrem as adegas e dão a provar o vinho novo, tradição com 24 anos de existência. O vinho continua, tal como noutros milénios, a ser feito em talhas de barro, algumas delas com séculos de história e que “é candidata a Património Cultural Imaterial da Humanidade, junto da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO)”, afirma Ceia da Silva, presidente da Entidade de Turismo do Alentejo que está a promover a construção de um grande troço da Ecopista Lisboa-Badajoz. Um outro troço já permite pedaladas, através da antiga linha de comboio que fazia a ligação entre Mora e Évora, voltando a trazer a água ao encontro do caminho e atravessando ribeiras, açudes e charcos.

ÁGUA ABUNDANTE ROMPENDO A PLANÍCIE

É a quantidade de água que faz de Mora “um estratégico ponto de observação de aves. A região fornece alimentação e proteção”, revela Jaime Pires, proprietário do Solar dos Lilases, um pequeno hotel escarrapachado na bordadura da planície morense. “A existência de muita água, que corre todo o ano, com a agricultura, as pastagens e a criação de gado, dão um forte contributo para a presença frequente e intensa de muitas e variadas aves, incluindo as de rapina, como os peneireiros e abutres pretos.”

Mas Mora é também couto de caça, por onde pululam lebres e javalis, veados e pombos, patos e perdizes. E quando chegar novembro a vila prepara, como sucede há mais de duas décadas, a Mostra Gastronómica de Caça, oportunidade única de provar mais de 40 receitas diferentes, algumas delas preservadas por José Vinagre, que explora o restaurante O Poço em Brotas, onde se prova coelho frito, perdiz no forno e arroz de lebre. Já o veado, de ensopado, come-se no Santo António. E com a mastigação percebe-se melhor a paisagem, melodia feita silêncio, o meridiano que nos acolhe, a planície que enche o olho e continua a surpreender pelo amontoar das pedras.

BENTO AMARO

Em Brotas foi descoberto, já neste milénio, um alinhamento em Anta da Cruz, um monumento megalítico, único na Europa. Foi em 2011 que junto ao marco geodésico foram descobertos os novos menires. Desde 1970 que não eram identificados menires e de uma só penada foram encontrados seis menires dispostos em forma de cruz, alinhados pelos pontos cardeais. Um espanto numa aldeia, rara e pequena, que revela enorme beleza e bonita arquitetura. As Casas de Confraria, edificações destinadas a acolher os peregrinos que visitavam o Santuário de Nossa Senhora de Brotas, encaminham à fé, pedindo os pastores proteção ao gado. Cada casa expõe lápides que recordam a antiga propriedade destes albergues que, entretanto, foram transformados em alojamento local.

O casario branco estende-se num anfiteatro, escorrendo das encostas e guardando o Santuário de Nossa Senhora de Brotas, de linhas manuelinas e revestido, desde o século XVII, a azulejos, bem conservados, depois de um restauro recente. A igreja esconde frescos e uma coleção de fatos da procissão da Senhora das Brotas, bordados a ouro. Afastando-se um pouco mais encontra a Torre das Águias, construída em 1520 por ordem de Dom Manuel.

PELO RAMAL ATÉ AO CASTELO REDONDO

Voltemos ao museu de onde já partiram comboios, na linha ferroviária que ficou conhecida como Ramal de Mora e que é hoje um trilho de bicicletas, atravessando o montado, por onde passeiam os rebanhos e cresce a esteva. E com a passagem as cores vermelhas e amarelas das árvores, aquecendo o verde das pastagens.

A poucos quilómetros de Mora, à escuta do outono, encontra Arraio­los, com um extraordinário castelo olhando à planície que se avista do alto do Monte de São Pedro e que guarda uma capela, mostrando o fabuloso panorama da planície sem fim.

Para lá das muralhas o casario, extenso e bem conservado e o antigo Hospital do Espírito Santo, transformado em Centro Interpretativo do Tapete. Tapetes que mostram uma história bordada à mão, arte trazida pelos mouros, tecido preenchido com um ponto único, desenhando motivos florestais e talvez o artesanato mais antigo do país.

Ao alto o castelo, construído em 1305 e um dos poucos no mundo de arquitetura circular. Ao baixo o emaranhado de ruas e ruelas, onde porfiam as oficinas das tecedeiras que bordam os tapetes de Arraiolos, a grande maioria concentrada na Rua Alexandre Herculano. A escassos metros a Casa do Plátano, outro alojamento local, mostra como é preservada a arte de bem receber. Saindo da vila branca, encontra Santana do Campo, com inúmeros monumentos megalíticos, e o Monte da Ravasqueira, que tem em exposição dezenas de carruagens, arreios e atrelagens de diferentes épocas e estilos. No Vimieiro, a velha fábrica da moagem é hoje um elegante e acolhedor hotel, para o vislumbre da paisagem alentejana. E também aqui a água, chamada de ribeira do Divor que haverá de chegar ao Sorraia, já em Coruche, não sem antes preencher as pequenas cascatas da Aldeia da Serra, a terra interminável, o pequeno monte.

O outono pode bem ser esse outro Alentejo, o que pede demora para apreciar a pacatez, as gentes e a comida. Uma paragem para descansar, conhecer a história portuguesa e deliciar-se com uma cozinha que continua autêntica. Afinal, este Alentejo, feito de água e pedras, guarda histórias, lendas e segredos numa terra que é nossa e que continua a surpreender.