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Incêndios. Compositora checa cria “Requiem à Floresta Portuguesa”

Foto Tiago Pereira Santos

“O Requiem é uma missa para os mortos, normalmente tocada num contexto de um funeral. Com esta forma, queria dizer que as florestas nativas portuguesas estão a morrer e não podemos ignorar isso. Depois da grande perda de vidas humanas em 2017, quis também dedicar a música às vítimas, para honrar a sua memória", explica Martina Vídenová

A artista checa Martina Vídenová assistiu aos fogos que de forma cíclica afetam Portugal e decidiu criar o "Requiem à Floresta Portuguesa", uma composição que chama a atenção para a perda dos ecossistemas nativos do país.

Martina, que trabalha como compositora musical para cinema, estudou português na Universidade de Praga e apaixonou-se pela língua e pelo país que a fez sentir-se em casa. Em 2013, quando viajava de carro pelo norte de Portugal, foi confrontada com os incêndios.

"Fiquei em choque. Quando há um pequeno fogo na República Checa, há logo uma grande cobertura na televisão, porque é uma raridade. A experiência [em Portugal] foi tão forte que não conseguia ignorar. Comecei a documentar os fogos a partir de fotos e decidi criar uma exposição em Praga, em colaboração com o Instituto Camões", conta à agência Lusa a artista, sublinhando que, no seu país, ninguém sabia dos enormes fogos que acontecem todos os anos em Portugal.
Depois dos grandes fogos de 2017, Martina Vídenová começou a compor o Requiem.

"O Requiem é uma missa para os mortos, normalmente tocada num contexto de um funeral. Com esta forma, queria dizer que as florestas nativas portuguesas estão a morrer e não podemos ignorar isso. Depois da grande perda de vidas humanas em 2017, quis também dedicar a música às vítimas, para honrar a sua memória", explica.

A música foi composta para uma orquestra de cordas, um coro misto e órgão, baseada no minimalismo, sendo que na parte vocal pode ser reconhecida a influência das composições de David Lang, refere. "A música também inclui elementos experimentais. Em algumas partes, as cordas refletem o som da madeira a queimar", diz.

Para o texto do Requiem, convidou o escritor checo David Zábranský, que, para esta composição, trabalha em torno da palavra 'azul', como representativa de esperança, optando por não falar diretamente sobre o fogo.

Durante o processo criativo, Martina conta que chegou a perder a sua grande esperança de obter apoio financeiro para o projeto, depois de meses quase sem respostas positivas. Na primavera, decidiu compor uma música completamente nova.

"A música, de repente, começou a fazer sentido", notou. Em julho, a obra foi gravada no Conservatório do Porto, com a participação de membros da Orquestra Sinfónica e do Coro da Casa da Música, e conduzida pelo maestro Jan Wierzba, que dirige a Orquestra Clássica do Centro.

"Todas as pessoas que se envolveram foram profissionais fantásticos e, ao mesmo tempo, artistas muito humildes. Todos estavam honestamente entusiasmados com a ideia do projeto, o que foi crucial para o seu resultado", vinca Martina Vídenová, referindo que quase 60 pessoas já colaboraram com a iniciativa.

No entanto, o projeto ainda está à procura de financiamento para apoiar a sua edição e produção, tendo lançado uma campanha de crowdfunding (https://gogetfunding.com/home-is-the-place-where-fire-burns/) para cobrir as despesas, que termina no dia 12. Já recebeu apoio da Câmara de Viana do Castelo, do Instituto Camões e da Lipor.

A apresentação do "Requiem à Floresta Portuguesa" vai ser ainda este ano, sendo que a data será divulgada em breve, afirmou.