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Glenn Close: “Hollywood adora histórias de mulheres que acabam na sarjeta”

A grande atriz americana que todos conhecemos de filmes como “Atração Fatal” e “Ligações Perigosas” interpreta uma mulher com segredos a viver na sombra de um prémio Nobel em “A Mulher”, atualmente nas salas

SAMIR HUSSEIN

Fez há pouco um ano, Glenn Close esteve na Suíça, no Festival de Zurique, que a homenageou e aproveitou para fazer a estreia internacional de “A Mulher”, uma adaptação do best-seller da americana Meg Wolitzer dirigida pelo sueco Björn Runge. O filme estreou-se entre nós na semana passada e vale por uma atriz que se revelou disposta a falar de 40 anos de carreira com os olhos no futuro.

Neste novo filme, a sua personagem, que se chama Joan, questiona uma vida inteira de frustração e mentira no momento em que o marido, escritor célebre, se prepara para receber um Prémio Nobel em Estocolmo. Qual é a sua opinião sobre aquela mulher? Como é que a ‘encontrou’?
Quando eu disse ‘sim’ ao filme, não conseguia justificar a razão que levou Joan a ficar com o marido tanto tempo. Debati-me com esse problema e acho que não há uma espectadora deste filme que não vá perguntar-se o mesmo a si própria. Mas o argumento ajudou-me a mapear a psicologia da personagem e as suas emoções. Dei-me então conta de que, no fundo, Joan é muito mais cúmplice do que vítima. E as coisas aqui tornam-se muito mais interessantes.

O marido [papel de Jonathan Pryce] chega a perguntar-lhe: “como me podes amar se és a única que sabe que eu não tenho talento...”
Exato, é um momento-chave do filme. E uma questão muito profunda, porque é a realidade de muitos casais. O trabalho, aquilo que produzimos, é o que nos valoriza como pessoas. A nossa vida profissional acaba sempre por condicionar a nossa vida privada. E de repente temos este homem, que é uma estrela no seu mundo, prestes a ser coroado com o maior dos reconhecimentos da área, e que contudo é uma fraude na esfera privada.

De certa forma, ambos encontraram uma solução para continuar a viver juntos...
Amam-se e deixaram seduzir-se por uma situação favorável. Ele é um homem carismático, foi-o toda a vida, percebemos isso. Mas a última pergunta que ele faz à mulher é: “Ainda gostas de mim?” E parte-me o coração saber que ele não tem a certeza disso depois de ter passado com ela uma vida inteira. Afinal, talvez ele não goste de si próprio. Tudo isto foram descobertas que nós, atores e realizador, fizemos durante a rodagem.

Há alguma coisa de si em Joan?
Não. Sempre olhei para a vida de uma forma muito prática. E sempre me preocupei com o que se está a passar em cada momento. Sinto-me com sorte por poder dizer que fui o contrário dela. Só que a Joan fala em nome de muitas mulheres, infelizmente. E é aqui que a personagem se torna relevante. De que modo é que as mulheres se sentem realizadas numa relação? Até que ponto se sacrificam? Qual é o equilíbrio de poder entre eles e elas numa vida a dois?

Estamos a atravessar um momento em que Hollywood voltou a colocar-se essas questões.
E é tão irónico que tudo tenha começado por um caso de abuso sexual, não é? Por um acumular de fugas de informação. Até ao movimento #MeToo, que também voltou a relançar a diferença de salários entre homens e mulheres na indústria do cinema e outros princípios básicos de igualdade.

Há discriminação sexual em Hollywood?
As coisas estão a mudar agora. Mas sempre houve discriminação entre homens e mulheres em Hollywood. A melhor maneira de se ganhar dinheiro ali foi sempre esta: ser homem e ter entre 18 e 45 anos. É esta a fórmula. Quando funciona, esses atores ganham muito dinheiro. Talvez só Julia Roberts tenha estado em lugar igual, porque os filmes dela eram estrondosos êxitos no box office.

Alguma vez este filme teria existido se você não tivesse entrado nele?
Boa pergunta. Provavelmente, não. É um filme independente. Sei que a minha influência e a minha presença favoreceram o financiamento. Mas não lhes dei dois milhões de dólares do meu bolso...

Não seria inédito: em 2011, coescreveu e produziu “Albert Nobbs”, que lhe valeu mais uma nomeação para os Óscares...
Mas a história desse romance era simplesmente extraordinária. E aquele papel tinha que ser meu. Gostava de escrever outro argumento assim, conseguir parar, sentar-me e fazê-lo. E a produção de cinema fascina-me, não é algo que esteja distante dos meus horizontes. Como disse, os estúdios focam-se em atores entre os 18 e os 45 anos. Ora, que tipo de mulher quer um homem dessa faixa etária? Não uma como eu (risos). Há pessoas nos estúdios de Hollywood que não compreendem que a sexualidade de uma pessoa dura até ao momento da sua morte.

“A Mulher” também nos fala de emancipação. Recorda-se de algum episódio em que teve que lutar pela sua?
Tenho muitos, não caberiam todos na entrevista. Mas prefiro contar uma história da minha avó materna que me fez muito pensar em Joan. Ela tinha uma grande amiga, a quem chamávamos de tia Helen, embora soubéssemos que não era nossa tia. Quando a minha avó morreu, a tia Helen contou-me: “Sabes qual era o maior desejo dela? Ser atriz.” A minha avó nunca me disse nada. Nunca lhe permitiram ser o que queria. A minha mãe, basicamente, seguiu-lhe os passos. Sacrificou tudo para estar ao lado do meu pai. Casou muito nova, a vida dela a partir daí estancou. Ele teve estudos ótimos, ela nunca acabou o liceu. É esta a minha ascendência. Fiz agora um episódio-piloto de um telefilme para a Amazon, “Sea Oak”. É a história de uma velhinha submissa que regressa do mundo dos mortos para reclamar tudo o que não teve na vida...

Ficou preocupada quando a sua filha, Annie Starke, lhe disse que também queria ser atriz
É impossível estar nesta profissão e não ficar preocupada com tal escolha. Os meus amigos mais próximos costumam perguntar-me como pude eu deixar que isso acontecesse. Mas eu olho para ela desde que nasceu e sei que optou pelo que queria por decisão dela.

Tem um rol de personagens femininas muito fortes no passado, da manipuladora viúva de “Ligações Perigosas” à terrível Cruella de Vil de “Os 101 Dálmatas”? Esses papéis foram uma vantagem para si, ou um obstáculo?
Hollywood adora mulheres fortes. E também adora histórias de mulheres que acabam na sarjeta. Pensam que somos muito corajosas quando conseguimos ser mesmo feias. E têm razão, não são estúpidos, sabem que a audiência vai responder emocionalmente a esse tipo de personagens. Veja a história do cinema, está cheia delas... Sei que isto pode parecer um cliché.

Qual é o cliché que mais detesta?
O de que todas as atrizes são incrivelmente caprichosas e vivem num mundo de fantasia. É uma ideia feita que vem da idade de ouro de Hollywood e que já então era falsa e injusta.

Receber um prémio à carreira como este em Zurique é agradável, ou preocupante?
É agradável porque, afinal, recompensa um corpo de trabalho de uma vida inteira, não vem do nada. Isso é gratificante. Mas não sou pessoa de ficar fascinada com prémios.