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Meu coração é verde, amarelo e branco (azul marinho)

FOTO NACHO DOCE / REUTERS

Será que cada país tem os políticos que merece? A pergunta recorda-me uma outra proferida por Jon Stewart quando teve o Presidente Barack Obama como convidado: seremos nós aquilo que esperávamos de nós? Filosofia à parte, o Brasil inicia um novo ciclo na sua atribulada história. O que aqui se propõe é lembrar menos as agruras da história e colher nela o que de melhor o imenso país nos tem dado

Reinaldo Serrano

O título da crónica remete para uma estrofe do refrão de uma popular canção brasileira, feita sucesso graças aos “Incríveis”, banda paulista que entre 1961 e 1973 alcançou assinalável êxito do lado de lá do Atlântico, pese embora os ecos do sucesso também se tenham feito sentir por cá nos primeiros anos da década de 70 do século passado. O tema onde a estrofe se insere chama-se “Eu te amo, meu Brasil”, sendo a dupla Dom & Rafael responsável pela sua autoria. Consta que a canção foi feita para assinalar a participação da seleção brasileira no Campeonato do Mundo de futebol, realizado no México em 1970. O tema dos irmãos Farias (Eustáquio e Eduardo) ressurgiu em popularidade com os “Incríveis”, e foi “assimilado” pelo regime ditatorial do General Emílio Médici, que dirigiu o Brasil entre 1969 e 1974.

Em 2018, a imensa nação “achada” há mais de cinco séculos define o seu futuro num ato eleitoral que pode trazer de volta o espectro de uma (para sermos eufemísticos) “democracia relativa”, por via do que se conhecem ser as ideias de Jair Bolsonaro, sucessor confirmado de Michel Temer. E é por esta razão, é por esta incerteza quanto ao futuro do Brasil, que me ocorreu ser oportuno relembrar as oferendas culturais que a outrora joia do Império nos concedeu, concede e há de conceder, invocando como que em jeito de consolação a canção que nos diz: tristeza, por favor vá embora.

Bastava lembrar a bossa nova, na área da música, para nos reconciliarmos com a desditosa pátria brasileira que, “mesmo na noite mais triste” (para citar Alegre) nunca perdeu o norte em matéria de criatividade artística. Carlinhos Lira, João Gilberto, Vinicius de Moraes, entre muitos outros, são a prova viva de que “não há machado que corte a raiz ao pensamento” (para citar Carlos de Oliveira). A MPB (Música Popular Brasileira) também continua viva: Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Maria Bethânia, a nova vaga de autores e cantores, autoras e cantoras, provam a vitalidade perpétua de um género que há muito ultrapassou fronteiras. O samba, o pagode, o axê, a capoeira, o funk, o choro e muitas outras expressões são a confirmação da diversidade cultural e musical das terras de Vera Cruz.

No domínio das letras, Jorge Amado (“Gabriela, Cravo e Canela” continua a ser um clássico, mas é bom não esquecer de ler “A morte de Quincas Berro d´Água” ou o menos conhecido “Suor”), João Guimarães Rosa e o seu poderoso “Grande Sertão: Veredas”, o perseguido Graciliano Ramos e as “Memórias do Cárcere”, “Angústia” e “Vidas Secas”, o poeta Carlos Drummond de Andrade e “Rosa do Povo”, “Contos de Aprendiz”, “Claro Enigma” ou “Os Dias Lindos”, e o versátil e notável Machado de Assis com “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ou “Dom Casmurro” são a óbvia evidência de que a língua de Camões sai enriquecida pela genialidade destes e outros autores.

No cinema, é importante não esquecer a importância de nomes como Walter Salles, Fernando Meirelles, Glauber Rocha, Bruno Barreto ou Nelson Pereira dos Santos. Cada um deles, distintos na obra e no tempo, é um exemplo de como um grande país em termos geográficos pode igualmente ser um grande país em termos cinematográficos. Na televisão, Portugal está sobejamente ciente da qualidade das produções brasileiras que, ontem como hoje, continuam a ser presença regular (pese embora com menos intensidade) nos vários canais, além da decisiva influência que exerceram (deixemo-nos de pudores) na própria produção nacional.

No desporto, Brasil é sinónimo de futebol, mas também relevante no andebol, no voleibol, no basquetebol, nos desportos radicais, no olimpismo, etc... Na moda, deu ao mundo das mais conhecidas modelos que pisam as passarelas.

Na política, o Brasil é o que se viu, o que se vê e o que se pode prever... Capistrano de Abreu, um dos pioneiros na historiografia do país, disse um dia que “a história do Brasil dá a ideia de uma casa edificada na areia”; o tempo viria a dar-lhe razão. Sobretudo este tempo em que a dúvida e o seu benefício constituem as palavras-chave no furo de um país que sempre teve tudo para dar certo, mesmo quando deu errado.

Espero sinceramente que as sugestões que aqui deixei em matéria de leitura, música e cinema sirvam para, pelo menos (e sem o mínimo vestígio de presunção) preencher o eventual vazio deixado em todos aqueles que não se reveem em Jair Bolsonaro. O seu primeiro discurso enquanto Presidente eleito deixou a porta entreaberta para uma esperança em que muitos não acreditam. A desconfiança é muita e muitos são os que dizem ser preciso estar atento e vigilante. É bom, no entanto, não esquecer que não são apenas os regimes autoritários que carecem de escrutínio; também as democracias precisam de vigilância, sob pena de se tornarem naquilo que mais criticam. O futuro do Brasil não começou hoje e, num ontem muito longínquo, façamos fé nas palavras de Alexandre Herculano: “O Brasil é a nossa melhor colónia, depois que deixou de ser colónia nossa”.