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Corpo do delito

“A Última Porta Antes da Noite” é o 29º romance de António Lobo Antunes

FOTO TIAGO MIRANDA

Inspirando-se num crime real, António Lobo Antunes escreveu sobre cinco vozes que são como “ruínas fantasmagóricas”

Digamos que o esforço que se exige a um leitor de António Lobo Antunes — e referimo-nos especificamente, no caso, a este seu último romance — seria aparentado ao que se exigiria a um leitor desta recensão se, de repente, entrasse por ela dentro o urso de brincar engordado a serradura que dorme na arca ao fundo do corredor alguém (eu?) o depositou ali há décadas a costura do pescoço rasgada por uma lâmina afiada de brincar, era Natal e as prendas chegavam de Berlim — a Senhora nunca foi a Berlim, mãe — não chaminé o urso não roto ainda, antes as curvas na estrada o vómito no plástico opaco (o pai opaco) as duas de mãos apartadas outra curva, o rugir ainda longe o mar, a velha de negro a abrir, a cada curva o vómito Senhora, a velha de negro a abrir a porta do quarto, uma recensão sem chave enquanto a velha, o quarto negro (o pai opaco em Berlim e depois junto ao mar) um facto real e o resto inventado, o pai em Berlim e depois junto ao mar e o esforço de prosseguir em lentidão, ao contrário das curvas, depois de uma curva outra e outra e outra, um fantasma entre fantasmas todos reais factos. Naturalmente, um urso de brincar, para mais roto, não é coisa que caiba numa recensão, para mais sem chave, já numa ficção seria perfeitamente plausível — e admissível — e mesmo de pleno direito, pois que tudo o que cabe na cabeça de um ficcionista cabe numa ficção. Desde que. Por exemplo: “Das poucas vezes que o visitei na cave do café encontrei sempre um corcunda de gravata sentado numa cadeira de verga perto da sua mesa a admirá-lo, como é que os alfaiates conseguem fazer fatos para marrecos é que me espanta.”

As todavias — em que o leitor vai tropeçando com confessada e crescente perplexidade: “Enquanto lá fora uma lâmpada azul não cessava de rodopiar entupindo o trânsito, realmente, afirmo eu, que confusão a existência, só as todavias podem tornar isto habitável” — chegam, presume-se, de um poema de David Mourão-Ferreira (“Na janela mais alta de Lisboa,/ és a ave chamada Todavia:/ a que posta no céu não se desvia,/ mas que perto do rio já não voa…”) e a ordem das frases é realmente alterada, baralhada, há palavras dissecadas: “Os cobradores colocaram o homem no bidão, isto é deixaram-no cair lá dentro, de cabeça a bada — De que estamos à espera? lar numa inércia de fardo”, “de facto sou um bocado artolas primo Júlio, aceito, todos lá em casa mais, a irmã do homem no parque, todos lá em casa mais inteligentes que eu” ou “a respiração da minha mulher tornando-se mais, quem não conhece os penhascos da noite, forte, chupando rebuçados de palavras confusas para subir sono acima”. Os exemplos multiplicam-se ao longo das 453 páginas.

Dizia o poeta brasileiro Mário Quintana: “O estilo é uma dificuldade de expressão.” Há um lado de boutade nisto. Se a dificuldade de expressão não existisse, dificilmente existiria literatura. Ou tudo seria literatura. O que daria no mesmo. A literatura é (também) uma luta contra a dificuldade de expressão. A.L.A. foi assim criando um estilo. Um estilo feito de torceduras discursivas, com saudável desprezo pela linearidade, adepto do fragmentário, da decomposição das palavras, do atropelamento da sintaxe, e que compõe uma escrita a que o próprio chamou há já vários anos “delírio organizado”. Delírio seja, mas delírio de cariz indiscutivelmente realista, feito de matéria bem corpórea: “As madeixas dela vulgaríssimas, o verniz de uma das unhas estalado ou seja a vida” (pág. 10); “eu tão longe do doutor no parque, em calções, descalço, a esfregar na manga as lágrimas do nariz que é por onde os desgostos se manifestam sempre, quais olhos, quais soluços, contra a infelicidade funga-se” (pág. 41); “e eu com ganas de lhe esmagar um tijolo na voz” (pág. 42); “a idade é uma empresa de demolições” (pág. 51); “a certeza que menos dentes nas suas palavras do que quando o segurei pelo pescoço” (pág. 67); “o médico — Atenção aos açúcares dando-me ideia que os açúcares perdizes prestes a saírem de uma moita e eu decidido a matá-las com uma espingarda cheia de dietas” (págs. 78 e 79) “um pedaço de jornal às cambalhotas estacionamento fora” (pág. 125); “e eu a levantar-me devagar falhando um passo, falhando outro, equilibrando-me a custo no macarrão cozido dos ossos” (pág. 369)…

Neste fluxo de aparência caótica (não havendo como fugir à âncora do fluxo de consciência) — lembramo-nos naturalmente do velhinho Faulkner e também, claro, de Beckett – vai assentando a construção de “A Última Porta Antes da Noite”, uma sucessão em 25 capítulos de confissões inconfessáveis, mostra de horrores matizados pela culpa (às vezes), que dão voz a cinco personagens, todas elas implicadas num crime real a partir do qual A.L.A. escreveu o seu 29º romance — e lembramo-nos de “A Balada da Praia dos Cães”, de José Cardoso Pires, até porque todos os pretextos são bons para lembrar José Cardoso Pires. Neste caso, há um empresário assassinado na presença da filha, uma criança, o corpo morto roído pelo ácido num bidão antes de ser lançado ao rio. Uma convicção une os cinco homens envolvidos na operação, incluindo o seu mandante, o Doutor: “Não havendo corpo não há crime.”

Tal como Judite, o último amor de Barba Azul, falou em “a última porta antes da noite” – frase que A.L.A. terá ouvido a George Steiner e que este cita no seu ensaio sobre a decadência do humanismo, “No Castelo do Barba Azul” (Relógio D’Água, trad. de Miguel Serras Pereira), frase retirada da ópera de 1911 de Bela Bartók de título homónimo, inspirada por sua vez no famoso conto de Charles Perrault (a criação é uma sucessão de matrioscas…), usando-a aliás Steiner como metáfora para a situação da cultura ocidental: “We seem to stand, in regard to a theory of culture, where Judith stands when she asks to open the last door on the night” — assim nós, leitores, vamos assistindo ao abrir de portas para a intimidade de cada uma das personagens, mundos privados povoados de medos, crueldades e mulheres, de fragilidades e crime e culpa (às vezes). E é neste ponto, neste retrato que se esperaria polifónico da incomunicabilidade subjacente a todos os cinco homens (“meninos”), é neste tentar dar voz a ruínas fantasmagóricas que recuam, todas elas, a infâncias desamadas, que o último romance de A.L.A. tropeça nos próprios pés, criando no leitor um efeito de estranhamento que se transforma de um estranhamento que gera curiosidade ou mesmo ansiedade ou desconsolo (porque não?) — “Não façam mal à minha filha”, repete e repete o homem que em algum momento terá sabido que ia morrer — num confronto com um turbilhão de palavras que se miram no espelho, sem nos deixar verdadeiramente ver o que poderá estar por detrás do espelho, linguagem ainda, claro, que mais poderia ser, mas linguagem que nos abriria portas a vozes distintas capazes de nos conduzir pela intriga, já que numa intriga assenta, por vontade do escritor, “A Última Porta Antes da Noite”. A polifonia não seria esperada se o ponto de partida não fossem as cinco vozes eleitas: as regras não foram ditadas pelo leitor. Assim, as nuances e pormenores não chegam para que que nos consigamos orientar neste mar de “frases aperfeiçoadas”, cantos de sereia de homens-meninos-criminosos.