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No meio disto tudo, do nascer e morrer, o que é que fica?

Ela nasceu num culto religioso e aos 5 anos esteve às portas da morte porque um espigão dos caminhos de ferro acertou-lhe na cabeça. Morou em 14 casas na primeira década de vida. O pai quis fazer dela a próxima Britney Spears, ela fugiu para fazer de si própria o que queria. Melhor assim: Adrianne Lenker tem disco novo e é sobre sobreviver no abismo

Créditos: conta do Facebook de Adrianne Lenker

“Abysskiss” acaba com uma morte. Nada trágico, nem todas têm de o ser. Uma pessoa nasce, cresce, acorda às seis da manhã para trabalhar na quinta, ama alguém, casa-se, até tem filhos, eles saem de casa, há coisas boas e más. E no fim morre-se.

Mas “abysskiss”, o 2.º álbum a solo de Adrianne Lenker, a voz dos Big Thief - ou melhor, “aquela” voz dos Big Thief -, também começa com alguém que nasce. Que sai de um ventre morno e berra, aquele berro seco e desesperado de alguém que não está preparado para o frio cá fora.

No meio disto tudo, do nascer e morrer, o que é que fica? Bem, parece que é a vida, essa coisa em que, por vias misteriosas, tudo se balança e equilibra.

Sobre isso da vida convém dizer duas ou três coisas sobre Adrianne Lenker, esse espírito único que anda entre nós.

Ela tem apenas 27 anos, mas já passou por umas quantas. Vidas, leia-se. Passa-se por umas quantas quando se nasce num culto religioso e aos 5 anos se está às portas da morte porque um espigão, daqueles grandões que seguram os carris dos caminhos de ferro, nos acerta em cheio na cabeça. Nessa altura, ela e família já viviam como seminómadas, encafuados numa carrinha azul pelas estradas do midwest norte-americano. Adrianne também morou em 14 casas até aos 8, altura em que escreveu uma canção sobre estar “enfurecida com o mundo”. Pudera.

No meio de tudo isso, o pai viu nela uma potencial futura estrela pop, até Lenker se chatear disso de viver das decisões dos outros e fugir para Nova Iorque. Tinha 16 anos.

Depois disso, preocupou-se em fazer o que gostava. E sobreviver.

Créditos: conta do Facebook de Adrianne Lenker

Acho que podemos todos concordar que é muita coisa para tão pouco tempo e talvez por isso só com a entrada no lado errado dos 20 Lenker tenha tido espaço para a sua muy própria idade dos porquês. E para sair desse turbilhão de questões, ela teve de voltar ao início de tudo, ao lado selvagem, àquilo que a vida não lhe deu tempo para descobrir quando era garota, porque nem todas as garotas puderam ser garotas: com “abysskiss”, um conjunto de 10 pequenas canções que compôs no último ano, só ela e uma guitarra e um ocasional cameo de um piano, Lenker procura as primeiras imagens, os sentimentos em bruto, os instintos primordiais - uma espécie de busca pelo coração das coisas.

E a natureza é o coração das coisas porque tudo começa e acaba nela.

Em “abysskiss” é a natureza que nos vai explicar, por tão simples quanto bonitas metáforas, os amores puros mas complicados, aquilo que ganhamos e perdemos, os medos, o desejo, a dor por alguém, as saudades. Entre os dedilhados na guitarra, Lenker fala-nos do quentinho do ventre que nos trouxe cá, do vento ululante que traz inquietações, como as ondas do mar que sobem e subitamente desaparecem. Ou do tempo que é preciso embalar nos nossos braços, gentilmente, ou da terra que nos aleija mas também nos cura as feridas quando nela as mãos enterramos.

E das pessoas que são rios acidentados, dos abismos infinitos que impedem que dois apaixonados se beijem.

Porque haverá sempre coisas maiores que nós, não é? E quanto mais cedo reconhecermos isso, mais fácil será lidar com os nossos demónios, seja aos 16, quando o nosso pai quer tornar-nos a próxima Britney Spears, ou aos 27, quando estamos sozinhos no mundo.

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É por isso que este álbum, em que a voz cristalina de Lenker se despojou das eletricidades dos Big Thief - a guitarra elétrica que surge em “Out of your mind” é apenas uma guitarra elétrica que se agarrou do chão e se começou a arranhar -, parece fazer tanto sentido para esta miúda/mulher de 27 anos. É um álbum muito dela, só ela e a sua composição e a sua escrita e a sua guitarra. Nada mais, porque a natureza também é assim, como estas canções: solitária, crua, sem corantes ou conservantes.

Como todos os álbuns de uma pessoa só, uma pessoa e a sua guitarra, “abysskiss” é aparentemente simples, aparentemente modesto, aparentemente repetitivo. Mas só aparentemente. É preciso paciência para ele, mas ele traz recompensa: não tardará até acordarmos com o “No one can be my man, be my man, be my man, be my man” de “from” na cabeça. Com as notas de piano tocadas lá atrás naquela que é uma das mais bonitas - ou mesmo a mais bonita - canção deste ano da graça de 2018, “terminal paradise”, o tal primeiro tema que começa com um nascimento. Ou com a cavalgada de pónei de “symbol” ou as palavras desse conto telúrico que é “10 miles”, onde pessoas morrem, mas antes disso riram-se muito alto e beijaram-se de forma enlouquecida.

Mais do que com qualquer disco dos Big Thief, banda que só não é maior porque, teoria minha, as pessoas têm medo de serem arrastadas pela fragilidade de Lenker (e com razão), em “abysskiss” (que é um nome incrível, deixem que vos diga), ela quer levar-nos à sua maior intimidade. Uma recém-descoberta intimidade.

E quando se entra lá, aviso já, é impossível sair.