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Sandro Resende: “É muito sedutor trabalhar com esta população”

Nuno Botelho

Vai ser inaugurado dia 16 de outubro, em Marvila, Lisboa. Chama-se Manicómio e é um projeto artístico que pretende trabalhar com doentes mentais e não só

Alexandra Carita

Alexandra Carita

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

O que é o projeto Manicómio?
O Manicómio vai ser um espaço que se vai dedicar à saúde mental, mas não só. Para já, é um open space e uma porta aberta, que é qualquer coisa de muito importante para nós. Vai ter dez ateliês com dez pessoas com experiência em saúde mental, um hub para trabalhar a área social, pessoas ou empresas, uma loja de museu, onde vamos vender os trabalhos dos artistas residentes. E vamos também ter uma sala de conferências dedicada à área social, vai ter uma galeria de arte também e um restaurante. A ideia é que o espaço tenha uma programação interessante nas áreas sociais e não só na saúde mental. O objetivo é desmistificar ao máximo a noção de saúde mental.

Onde é que fica situado?
Em Marvila, Lisboa, mas tem sido um manicómio a procura do sítio.

Quem patrocina esta aventura?
A P28, que trabalha dentro dos muros dos hospitais, também trabalha fora e tem a sua vida artística. Essa vida permitiu-nos ao longo destes anos, já estamos há quase 20 anos a trabalhar, juntar dinheiro para este projeto que tem andado nas nossas cabeças há muito tempo. Conseguimos ganhar um concurso com o Turismo de Portugal, temos apoio da Ação Social da Câmara Municipal de Lisboa, e de várias outras entidades. Todo esse financiamento vai fazer com que tenhamos uma sustentabilidade de cinco anos.

Como vão divulgar o projeto?
Vamos criar um site, o primeiro que também vai ter uma loja online onde se pode comprar os trabalhos realizados pelos doentes. E vamos tentar que se anule aquela ideia de que os trabalhos dos doentes são uma coisa muito barata, o que até desvaloriza um bocadinho os doentes. Aqui não. Vamos pôr um preço justo ao trabalho, a um trabalho de obra de arte e vamos proceder à venda nos moldes que ela existe para todos os outros artistas: 50% para a galeria, 50% para o artista. Tal como se fosse a vida real. Este conceito de igualdade é muito importante para nós. Lá por se ser doente, a obra não tem que ser mais barata. A valorização faz-se pela obra em si e não por quem a faz.

E vão fazer com que eles sobrevivam da arte?
Vamos, para já, recompensá-los de duas formas diferentes. Estes dez artistas vão ser apoiados por nós financeiramente, para que neste primeiro ano não haja aquela pressão social e económica. Eles vão ter uma espécie de um ordenado e também refeições e transportes. Isto para que a criação artística seja completamente pura e autêntica, sem aquela preocupação financeira que todos os artistas têm. Essa é a nossa pequena grande ajuda.

Como é que foram escolhidos estes dez artistas?
Já trabalho há 20 anos no Júlio de Matos, e o meu colega, o João Azevedo, também. Há quatro, cinco anos, fizemos um trabalho de pesquisa sobre tudo o que havia feito por doentes em todas as instituições públicas e privadas que existiam no país. E percebemos que existem vários artistas com muita qualidade isolados. Nesta primeira fase escolhemos dez que já conhecemos e que não vêm só da área geográfica de Lisboa.

Qual é a sua formação e como é que se aproximou dos doentes mentais do Júlio de Matos?
Era finalista da Escola Nacional de Belas-Artes e estava a fazer um trabalho sobre o reconhecimento do eu perante o outro, e achei que era interessante usar os doentes, entre aspas, para fazer um trabalho artístico. Estava a tomar um café com um amigo e vi no jornal que estavam a pedir professores de cerâmica para o Júlio de Matos. Não percebo nada de cerâmica, mas concorri. As primeiras semanas de trabalho foram muito duras. São histórias bastante tristes, por vezes. Mas depois fiquei apaixonado e manipularam-me, agora faço o que eles querem!

Como é que eles se aproximam de si, o que é que procuram?
Varia. Nós ao longo destes 20 anos temos uma máxima. Estar ocupado não é suficientemente bom para o doente, nem para nós. Nós pomos objetivos: Queres ir onde, expor o quê, saber pintar... OK, vamos lá. Todos os nossos artistas têm objetivos concretos. A nossa filosofia não é ocupá-los, é trabalhar com eles, sendo que a arte nem sempre é terapêutica, causa muita ansiedade, muita frustração. No entanto, o objetivo é pôr um artista a expor no CCB e para isso tem que fazer um trabalho bom, para que mereça expor ali. Não temos nada uma visão paternalista. Temos rejeitado muitas exposições em Santas Casas da Misericórdia, átrios que nos oferecem para as exposições dos doentes nas juntas de freguesia... Optamos sempre por fazer em espaços nobres, apostando em boas exposições. Com eles já expuseram nomes como Cabrita Reis, Jeff Koons, Emir Kusturica, Eduardo Souto de Moura, Jorge Molder e por aí fora.

Como é que conseguiram trabalhar com nomes como esses?
É muito sedutor trabalhar com esta população. E tem um lado terrível, que é quando o trabalho do doente é muito melhor do que o trabalho do artista. Isso acontece muitas vezes e para o artista dito normal, isso é muito assustador. Estes tipos são tão bons, como? Da mesma forma que tu és bom. São pessoas que têm uma doença mental como se fosse um diabético que tem que tomar o medicamento.

Onde é que eles ganham experiência?
Existe um ateliê onde trabalhamos diariamente e onde o doente mostra ao médico que gostava de frequentar aquele espaço. Depois percebe-se facilmente se ele quer ou não trabalhar ali. Depois começamos um trabalho de arte pura e dura e experimentamos todas as vertentes artísticas. O ensino da pintura, do vídeo, da fotografia, como se fosse um ateliê absolutamente normal.

Disse há pouco que a arte não é terapêutica. Existe algum benefício para eles em entrarem num projeto artístico?
O mesmo que toda a gente. O reconhecimento no meio artístico ou no meio social. Quando uma pessoa sem qualquer doença mental faz uma exposição, e tem uma repercussão na venda, nas entrevistas, no número de visitantes, é lógico que a autoestima aumenta imenso e é terapêutico tanto para o doente como para a pessoa normal. E a pessoa sente-se muito mais integrada na sociedade. Nós trabalhamos com pessoas e nunca olho para esta população como pessoas que não são capaz de fazer.

Mas se calhar têm algumas especificidades?
Sim. Mas isso não as torna diferentes das outras. A mim nem me preocupa muito saber que doença é que têm. Diria que as suas especificidades variam acima de tudo na vontade que têm em trabalhar. Percebe-se perfeitamente quando estão mais desmotivados.

Quanto tempo é que eles trabalham por dia?
Quatro horas. É muito tempo, mas é muito bom que eles façam isso.