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Apesar da produção esforçada, apesar dos também esforçados Rami Malek (à esq.) e Charles Hunnan, o “Papillon” deste ano nem por sombras (a palavra não é casual) remete para o universo intenso, opressivo, quente e húmido, putrefacto e envolvente que a obra estreada no cinema há 45 anos ainda hoje consegue invocar

d.r.

Para os indefetíveis defensores do progresso a qualquer custo, toda e qualquer mudança é sinónimo de graciosidade. Ainda assim, a arte (neste caso, a sétima) dá-nos sobejos exemplos de quão vã é a glória de refazer o que perfeito estava

Reinaldo Serrano

O inefável, diversificado, mas nem sempre versátil Mel Colmcille Gerard Gibson fez saber que se prepara para reeditar, sob a sua égide, uma nova versão de “A Quadrilha Selvagem” ou, no original, “Wild Bunch” (1969), consagrado western dirigido por Sam Peckinpah e por muitos considerado um clássico do género. Muita tinta correu após este anúncio e diversas questões podem ser colocadas em torno de um tema que parece ter reconquistado popularidade: os remakes cinematográficos. E uma das questões mais prementes que podem ser colocadas é a mais singela de todas: porquê? O que leva (e o que levou) um realizador a querer refazer uma obra assinada (geralmente muitos anos antes) por um outro realizador? Um tributo, um desejo de “refresh”, uma nova visão que pretende acrescentar uma espécie de mais-valia sobre o trabalho original, uma oportunidade de pegar num exemplo de sucesso e aproveitá-lo em benefício próprio muito tempo depois? Não é fácil responder ao breve questionário, mas os factos dizem-nos e os exemplos mostram-nos que o cinema está repleto de “sucedâneos” de títulos cuja reentrada em cena se revelou, regra geral, um fracasso – nalguns casos de público, noutros de crítica e noutros ainda de ambos.

Corria o ano de 1977 quando o criador de “O Pássaro com Plumas de Cristal” (1970), “Il Gatto a Nove Code” (1971) e “Profondo Rosso” (1975) se notabilizou ainda mais com “Suspiria”. O agora lendário mestre do “giallo” – o subgénero de horror no cinema italiano – fortaleceu o seu estatuto de ícone de uma certa cultura com esta história de uma bailarina norte-americana que é admitida numa conceituada academia de ballet na Alemanha para descobrir, tarde demais, que se trata de um covil de bruxas. Os minutos iniciais do filme são, mais de 40 anos passados sobre a sua estreia, um hino à edição de imagem e de som no cinema de terror.

E eis que, decorrido o mesmo tempo sob a sua estreia, um realizador de nomeada recente resolve recriar, ao seu estilo, a singular obra de Argento. O realizador é Luca Guadagnino, e a sua obra maior será, até ao momento, “Call me By Your Name” (“Chama-me pelo teu Nome”), que no ano passado embeveceu muita gente, tendo inclusivamente sido nomeado para o Óscar de Melhor Filme. Pelo que agora mesmo escrevi se concluirá que esta tentativa de fazer renascer “Suspiria” não é uma obra maior. Terá faltado ao colega italiano de Argento a arriscada opção conceptual que a obra deste último refletiu nas décadas de 70 e 80, em privilegiar a componente visual dos filmes em detrimento de uma colagem severa à narrativa e à realidade. A “Suspiria” de 2018 não tem, definitivamente, a poesia e o erotismo do original e perde-se sem remissão com deslocadas tentativas de imiscuir componentes de análise social numa história que é (que foi) na sua essência, uma batalha (desequilibrada) entre entidades malignas e uma inocência... artística. Acresce que o filme deste ano tem quase mais uma hora que o de 1977 e é bom lembrar que, em muitas situações, menos significa realmente mais.

É este um dos males de querer brincar aos clássicos quando se pensa demasiado na modernidade: social, tecnológica (sobretudo tecnológica), globalizante. Tudo o que se possa fazer trazendo para o presente o que ao passado pertence é, não apenas, anacrónico: tratando-se de um produto artístico, é uma espécie de contrafação que, ao imitar o original, limita ainda mais as suas próprias capacidades

Não querendo ser (particularmente) conservador, entendo que uma obra tem o seu tempo próprio de criação e de exibição, sendo que quanto maior for o prazo em que é admirada, maior será a probabilidade de ser elevada ao estatuto de clássico; ora – pergunto eu: fará algum sentido recriar um clássico? Fará algum sentido reescrever “Drácula”, “Frankenstein” ou... “Papillon”?

O livro, que no próximo ano celebrará meio século sobre o seu lançamento (abril de 1969), foi um sucesso junto de um público que devorou e se desvaneceu com as aventuras – reais – de Henri Charrière e da sua longa e penosa luta contra a condenação e posterior cárcere a que foi condenado em 1931 por um crime que não cometeu. A obra mereceu a atenção do cinema que a adaptou pela mão de Franklin J. Schaffner, nos idos de 73. Steve McQueen e Dustin Hoffman perpetuaram a construção de duas personagens inesquecíveis e, como tal, lembradas em permanência quando comparadas com a versão de 2018 que, em má hora, o dinamarquês Michael Noer decidiu levar à grande tela.

Apesar da produção esforçada, apesar dos também esforçados Charles Hunnan e Rami Malek, o “Papillon” deste ano nem por sombras (a palavra não é casual) remete para o universo intenso, opressivo, quente e húmido, putrefacto e envolvente que a obra estreada no cinema há 45 anos ainda hoje consegue invocar. É este um dos males de querer brincar aos clássicos quando se pensa demasiado na modernidade: social, tecnológica (sobretudo tecnológica), globalizante. Tudo o que se possa fazer trazendo para o presente o que ao passado pertence é, não apenas, anacrónico: tratando-se de um produto artístico, é uma espécie de contrafação que, ao imitar o original, limita ainda mais as suas próprias capacidades.