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A zona suja

Vencedor do Prémio LeYa em 2014, Afonso Reis Cabral regressa com um romance sobre a anatomia de um crime verdadeiro

antónio pedro ferreira

Quatro anos depois de “O Meu Irmão”, Afonso Reis Cabral mergulha ficcionalmente na terrível história de Gisberta, a transexual morta por um grupo de rapazes no Porto em 2006

Já passaram mais de 12 anos sobre os factos, mas os contornos da morte de Gisberta Salce Júnior continuam bem vívidos na memória coletiva. Em fevereiro de 2006, a transexual brasileira, sem-abrigo e toxicodependente foi encontrada nas fundações de um prédio abandonado, despida da cintura para baixo e com marcas de um espancamento brutal. Nas semanas seguintes, em choque, o país ficou a saber que Gisberta encontrara o seu sórdido fim às mãos de um grupo de rapazes com idades compreendidas entre os 12 e os 15 anos, quase todos jovens problemáticos que estavam internados na Oficina de São José, posteriormente fechada por notório abandono dos menores a seu cargo e suspeitas de pedofilia.

Na nota final de “Pão de Açúcar”, o romance em que arriscou mergulhar no coração das trevas desta história, Afonso Reis Cabral enumera vários ecos da tragédia na produção artística recente: um documentário, uma curta-metragem, abordagens teatrais, um poema “em jeito de elegia” de Alberto Pimenta e uma canção de Pedro Abrunhosa (‘Balada de Gisberta’). Quatro anos depois da estreia literária, com “O Meu Irmão”, livro em que já lidava com doses generosas de negrume, decidiu mais uma vez colocar-se na pele de um narrador que está nos seus antípodas. Desta vez não apenas na dimensão psicológica, mas também sociológica, cultural e etária.

Embora “pouco mais novo” do que o autor, no momento da escrita do livro, o narrador de “Pão de Açúcar” recorda os acontecimentos que viveu com apenas 12 anos. Ele é Rafael Tiago, mecânico de automóveis com uma tatuagem de óleo na pele da mão esquerda, um trauma insuperável na memória e uma pasta caótica, cheia de apontamentos desirmanados, recortes de jornal e peças processuais do julgamento. Afonso Reis Cabral apresenta-o na “Nota antes”, uma espécie de preâmbulo à ficção, em que se estabelece o necessário pacto com o leitor, sem o qual o romance ficaria coxo. Basicamente, ficamos a saber que o autor, depois de ter visitado os lugares onde as coisas se passaram e investigado tudo o que era possível investigar, decidiu apropriar-se daquelas semanas da vida de Rafael: “A história é tua, como se fosses tu a contá-la, mas eu escrevo-a por ti.”

A principal dificuldade nasce de já sabermos como a história acaba. O resto, o que aconteceu antes, essa lenta deriva de um bando de miúdos com tendências marginais, é abordado aos apalpões, como quem tateia no escuro, tentando compreender o que os terá levado a fazer o que fizeram. De início, começaram por proteger Gisberta, levando-lhe arroz e cuidando da sua barraca, mas a dada altura precipitaram-se nos mecanismos do ódio, provavelmente alimentado pela estranheza diante de um outro inclassificável (esse corpo de mulher que já foi homem, ameaça aos seus estereótipos de masculinidade). Afonso Reis Cabral oferece-nos a perspetiva de um dos protagonistas do drama, um dos que mais se aproximou da vítima e com ela construiu uma relação afetiva complexa.

Em 56 capítulos enxutos, de uma economia narrativa exemplar, entramos lentamente no mundo de Rafael, mas também dos seus amigos mais próximos (Nélson, o brutamontes desmiolado; Samuel, o “artista” com jeito para o desenho) e dos seus rivais, liderados por um Fábio que gosta de exercer o poder. Quase sem darmos conta, tornamo-nos parte da maralha, acompanhamos as surtidas às “zonas sujas” do Porto, os choques e tensões no seio do grupo, a lógica de quem vive o presente com a noção de que o futuro é demasiado incerto, longínquo ou, quem sabe, inexistente.

Além da verosimilhança da voz narrativa, Afonso Reis Cabral conseguiu algo ainda mais difícil: tornar credível um universo com o qual nunca teve qualquer contacto direto (no caso de “O Meu Irmão”, pelo contrário, estava mais do que familiarizado com as contingências de quem sofre da síndrome de Down). Seca e por vezes áspera, a prosa adequa-se à dureza da existência dos chamados ‘gunas’, e os diálogos captam com rigor o seu vernáculo característico. Além disso, o texto nunca se afasta da sua matriz ficcional. Ou seja, não são feitos comentários ao crime em si, nem condenações, nem juízos morais, nem desculpabilizações.

Afonso Reis Cabral deixa a nu o cerne negro, visceral e cru, de uma tragédia do nosso tempo. Em torno desse núcleo, porém, dispôs pessoas reais — humanizadas, sempre, mesmo se assistimos ao processo da sua implacável desumanização. É assim com Gisberta, figura que se ergue das páginas com uma espécie de aura feérica e melancólica. E é assim com os rapazes que a morte marcou para sempre, com uma sombra mais indelével do que uma tatuagem de óleo na mão.