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A nova Eva

FOTO Thomas Lohnes/Getty Images

Voz incómoda num Brasil em convulsão política, Linn da Quebrada descreve-se como “bicha, trans, preta e periférica” e traz a sua música hoje ao Porto e amanhã ao Barreiro

Quando o Expresso esteve à conversa com Linn da Quebrada, em junho passado, Jair Bolsonaro ainda não tinha apresentado a candidatura à Presidência do Brasil. Se a autoproclamada “terrorista de género” era incómoda então, calculamos que se torne um transtorno ainda maior agora, num país a braços com uma batalha política cujo desfecho poderá ser a subida ao poder de um candidato defensor de argumentos pouco favoráveis às mulheres, cidadãs e cidadãos LGBT, afro-brasileiros e indígenas. “Bicha, trans, preta e periférica.” É desta forma, sem rodeios, que a artista oriunda de um bairro desfavorecido de São Paulo se descreve. A popularidade da proposta extremista de Bolsonaro não será estranha se pensamos no Brasil como o país com o maior número de homicídios de pessoas transgénero no mundo inteiro (facto atestado por um estudo da ONG Transgender Europe, publicado no final de 2016). “É importante salientar essa violência que enfrentamos no Brasil enquanto pessoas trans, mas também temos de dizer que há muitas formas de se matar uma pessoa”, defende Linn da Quebrada, depois de assentir que o medo de morrer “é um medo que vivemos, todos os dias, em qualquer lugar do mundo”. “Não se mata alguém apenas com uma facada, com um tiro... As identidades trans ocupam esse espaço do marcador social da morte no mundo todo. Onde estão as pessoas trans? Que espaços estes corpos ocupam? Podemos ir mais profundamente ainda e pensar individualmente: quantas pessoas trans conhece você, que está conversando comigo? Quantas pessoas trans você beijou no rosto nesse último mês? Com quantas pessoas trans você trabalha? Sinto que, às vezes, é como se isto fosse um longo e cruel processo de tortura para ver até onde vamos aguentar sobreviver. Se não nos vemos representadas nos meios de comunicação, se não conseguimos ocupar espaços no mercado de trabalho, se não somos bem vistas na instituição da família, se não somos nem ao menos aceites na instituição do amor, nessa instituição política do amor, então tudo isso são formas de nos matar, de matar a nossa identidade.”

Questionada sobre a realidade de um país que tanto se mostra despudorado durante a grande festa do Carnaval como se deixa embalar por um resistente conservadorismo, a artista é perentória: “O Brasil é complexo.” E não hesita no momento de apontar o dedo a Portugal — no concerto que deu em Lisboa, em março, assinou uma versão inflamável de ‘Não Foi Cabral’, da funkeira MC Carol, cantando versos como “não me leve a mal/ quem descobriu o Brasil não foi Cabral/ Pedro Álvares Cabral/ chegou a 22 de abril/ depois colonizou/ chamando de Pau-Brasil”. “Esta ligação entre Portugal e o Brasil é algo em que não podemos deixar de pensar”, defende, “pensar em como o mundo se foi construindo dessa forma eurocêntrica e em como o Brasil nasceu fruto de um estupro. Essa invasão na construção da nossa identidade, enquanto nação, e essa colonização fazem com que a gente passe, também, por um processo de descolonização dos nossos corpos. Trata-se disso... Trata-se exatamente disso. O Brasil está passando por esse processo de descolonização dos corpos e das identidades, tal como vários outros lugares do mundo”. Sobre as mudanças sociais operadas com a chegada de Michel Temer ao poder e a herança deixada por Lula da Silva, Linn não tem grandes dúvidas. “Há um processo longo, que vem sendo construído há muito tempo”, começa por dizer, “o movimento de Lula permitiu a pretos e pobres entrar nas universidades, uma ascensão da classe C, várias coisas. Estávamos sendo privadas de informação, e é esse o lance. A informação não só informa como forma e formata os corpos. Quando a gente começa a ter mais possibilidade e mais referência e informação, também, isso transforma-nos... Essa transformação vem acontecendo desde o Governo de Lula. E com o Governo de Temer, com todo o processo de arquitetura deste golpe que o Brasil está sofrendo, há uma tentativa de nos fragilizar. A política que se exerce é a política do medo. Este Governo amedronta, com todas estas ferramentas e artimanhas, um determinado grupo de corpos que já estava habituado ao poder e tenta fragilizar-nos, a nós, enquanto grupo. Nós que estávamos, também, formando uma identidade de grupo e a reconhecer-nos enquanto grupo. É assim, justamente, fazendo-nos perder a nossa identidade, que nos fragiliza”.

Linn da Quebrada regressa a Portugal esta semana com concertos marcados para hoje, às 21h, no Maus Hábitos, Porto, e amanhã, às 23h45, no Out.Fest, no Barreiro (ver pág. 85) ainda com “Pajubá”, álbum de estreia, editado no ano passado, que inclui canções tão provocadoras quanto ‘Enviadescer’, ‘Dedo Nucué’ ou ‘Submissa do 7º Dia’. Paralelamente, aterrou também nos ecrãs de cinema com o documentário “Bixa Travesty” (depois de ter encerrado o festival Queer Lisboa, terá honras de abertura do Queer Porto, quarta-feira, às 21h30, no Teatro Municipal Rivoli). Galardoado com um prémio Teddy, distinção para produções que abordam temáticas LGBT do Festival Internacional de Cinema de Berlim, o filme realizado por Claudia Priscilla e Kiko Goifman traça um retrato emocionante da artista e ativista brasileira, “a nova Eva”, ex-testemunha de Jeová, que se assume “filha das travas, obra das trevas”. “O filme não é um filme sobre mim, é um filme comigo”, esclarece, “tal como o álbum, é, também, fruto da fricção com outras pessoas e de fricção interna para entender e formular quem sou, o que significa habitar o meu corpo. O processo de dar nome à minha identidade é um processo vivo. Sabendo que não me entendo como homem nem como mulher… Se entre ser homem e ser mulher eu prefiro ser eu, o que é este corpo? É do processo de tentar entender o que sou que nasce a ‘Bixa Travesty’, identidade que me atribuí naquele momento, porque era como entendia o meu corpo. Trata-se de entender o que é uma bixa travesty, o que come uma bixa travesty, quem come uma bixa travesty, onde vive, que espaços ocupa. É aí que surge esse processo vivo, que é o filme”.

FOTO Mariana Smania

Quando a questionamos sobre o advento da música na sua vida, garante que surgiu de forma inesperada. “A música foi uma surpresa, de certa forma”, explica, “já vinha praticando arte, e a arte, para mim, significa poder criar sobre a minha própria existência, as minhas relações. Já vinha pesquisando no teatro e na dança, tentando entender algumas coisas com o meu corpo. A música tem o poder de chegar às pessoas e mostrou-me que tudo o que eu buscara, desde sempre, era um diálogo. Foi aí que comecei a escrever mais e a pensar naquilo que escrevia como música. Ela surge de forma despretensiosa e como possibilidade efetiva de diálogo. É também nesse momento que se começa a perceber que outras narrativas precisavam de ser ditas. A minha narrativa precisava de ocupar esse espaço, não só por mim e pela minha voz, mas como eco de mais vozes, também”. Assim se percebe que quando se ouve, se vê ou se pensa em Linn da Quebrada, torna-se impossível dissociar a pessoa da artista. A sua música é uma arma que diz estar apontada à própria cabeça, “apontada para uma tradição que se tinha consolidado no meu corpo”. “O que estou conseguindo com o meu trabalho é a humanização das identidades trans, que até agora ocuparam espaços de desumanização. Gosto muito de pensar na minha música como um feitiço, como magia. E pensando assim, o que é que a minha música evoca e o que evoca essa grande maioria de produções musicais atuais? Quem eram as pessoas que ocupavam esses espaços? Percebemos agora, porque o meu corpo e a minha identidade chamam à atenção, que não se esperava que nós também ocupássemos esses espaços de representação. Que espaço as travestis e as pessoas pretas ocupavam no imaginário social? Fomos privadas de ocupar esse espaço político e afetivo no imaginário social e é importante ocuparmo-lo porque isso possibilita que outras pessoas contactem connosco.”