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Nuno Cardoso é o novo diretor-artístico do Teatro Nacional São João

Nuno Carinhas, atual diretor-artístico, abandona o cargo no dia 31 de dezembro, mas continuará ligado à casa. Tem uma estreia marcada para o Dia Mundial do Teatro, em 2019, e estará associado às comemorações, em 2020, do centenário do TNSJ

Nuno Cardoso na sua vertente de ator, muitas vezes psota em segundo plano

Nuno Cardoso na sua vertente de ator, muitas vezes psota em segundo plano

D.R.

Nuno Cardoso, 48 anos, ator e encenador, nascido em Canas de Senhorim, no concelho de Nelas, distrito de Viseu, é a escolha da Secretaria de Estado da Cultura para novo diretor-artístico do Teatro Nacional São João a partir de 1 de janeiro de 2019. Substitui Nuno Carinhas, 64 anos, pintor, cenógrafo, figurinista e encenador, que ocupava o cargo desde março de 2009.

Os dois têm trabalhado em conjunto ao longo dos anos em múltiplos projetos. Nuno Cardoso chegou mesmo a ser responsável pelo Teatro Carlos Alberto, integrado na estrutura do TNSJ.

Era uma renovação esperada, em linha com as mudanças decorrentes da nomeação de Pedro Sobrado como presidente do Conselho de Administração do teatro. Ele próprio um profundo conhecedor da casa, e muito centrado em criar todo um conjunto de novas propostas e novas linguagens para o Teatro Nacional.

Não decorre daqui uma rutura com Nuno Carinhas, diretor artístico do Teatro Nacional São João desde março de 2009, e que terminava agora o seu mandato. De resto, continuará a ter uma participação muito ativa na programação do teatro. Na passada semana estreou a sua versão de “Otelo”, de Shakespeare. No dia 13 de dezembro apresenta “Uma noite no futuro”, com textos de Gil Vicente e Samuel Beckett, e em março, no Dia Mundial do Teatro, levará à cena a peça “Vocês Conhecem do Cinema”.

Nuno Cardoso representa uma aposta na disponibilidade para o risco e o assumir de novos caminhos a partir do olhar de alguém que, mesmo se nos últimos anos tem feito um percurso em parte ligado à estrutura que agora vai dirigir, nas suas múltiplas valências, com o Carlos Alberto e o Mosteiro de São Bento da Vitória, também sempre esteve ligado a projetos mais alternativos, com conceções estéticas muito próprias.

Venceu em março de 2016 o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores para Melhor Espetáculo do Ano, com "Demónios", de Lars Norén. Tem sido visto como um dos mais estimulantes encenadores portugueses da atualidade, com um trabalho muito eclético, na sua qualidade de encenador, mas também de ator, com passagem indiferenciada por textos clássicos e contemporâneos. Com um leque muito diversificado de registos, com posições pessoais, políticas e artísticas muito consistentes, não abdica de manter no seu currículo a ligação a trabalhos experimentais e com comunidades locais, onde monta espetáculos com não profissionais.

O começo no CITAC

Nuno Cardoso iniciou a sua carreira ainda enquanto estudante universitário, em 1994, no CITAC – Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra. No mesmo ano começa a trabalhar no Porto e ajuda a fundar o “Visões Úteis”, um dos grupos independentes mais marcantes das últimas décadas. Em 2001, aparece como um dos fundadores do “Ao Cabo Teatro”, onde assume o cargo de diretor artístico. Ali leva ao palco alguns grandes clássicos, como Sófocles, Ésquilo, Racine, Molière, Tchékhov, mas também Ibsen, O’Neill, Tennessee Williams, Dürrenmatt, Sarah Kane, Lars Nóren e Marius von Mayenburg.

Ficaram na memória as suas incursões no universo de Tchekhov, por exemplo, com as peças “Platonov” e a “Gaivota”, mas muito em particular “As Três Irmãs”. De Fiódor Dostoiévski chegou a encenar no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, uma muito particular versão a partir de Cadernos de Subterrâneo, com a peça “Subterrâneo: O fim dos fins é não fazer nada, de.

Um dos seus grandes trabalhos como ator aconteceu em 1999, com reposição em 2013, curiosamente numa encenação de Nuno Carinhas, quando puseram em cena “A Solidão dos Campos de Algodão”, com texto de Bernard Marie Koltês.

A partir do próximo dia 2 de novembro, o Teatro Carlos Alberto apresenta a peça “Bella Figura”, de Yasmina Reza, com encenação de Nuno Cardoso. Após ter passado por Gorki, com “Veraneantes”, em 2017, e Shakespeare, com “Timão de Atenas”, este ano, o novo diretor artístico do TNSJ regressa com Yasmina Reza aos autores contemporâneos.