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Terra devastada

Filip Zivanovic, o rapaz que vagueia nos décors desolados de “A Árvore”, de André Gil Mata

Da Bósnia, André Gil Mata envia-nos um filme que flirta com o cinema de Béla Tarr

Em 2012, André Gil Mata estreou-se nas longas com um documentário magnífico. Chamava-se “Cativeiro” e, nele, o cineasta fechava-se num apartamento para filmar os últimos dias da sua avó moribunda, num registo intimista que surpreendia pelo modo invulgar como combinava a frontalidade e o pudor. Depois disso, Mata instalou-se em Sarajevo para estudar na Film Factory: a escola de cinema que foi dinamizada pelo húngaro Béla Tarr. Durante esse estágio na Bósnia, Mata deu à luz duas novas longas: “Como Me Apaixonei por Eva Ras” (2016) e “A Árvore”, a sua primeira obra estritamente ficcional, que evoca de uma forma clara o cinema de Tarr.

Estamos perante uma evidência que se manifesta logo na abertura. Aí, o que temos? Um plano sequência de 15 minutos que, por via de um moroso travelling (reminiscente daquele com o qual arranca o “Damnation” de Tarr), nos apresenta às três únicas personagens do filme. Quem são elas? Um rapaz pré-adolescente que olha pela janela da sua casa enquanto a mãe prepara o jantar, e um velho que, no quarto ao lado (cujo aspeto degradado contrasta com o ambiente acolhedor da divisão anterior), se encontra deitado na cama, imerso numa escuridão que vai sendo iluminada pelos clarões intermitentes das explosões que ouvimos ao longe.

A influência de Tarr não se fará sentir menos no que se segue: uma narrativa despida de eventos salientes e quase isenta de diálogos, que vai acompanhando a excursão noturna daquele velho através de uma terra nevada, devastada e desertificada (a Bósnia da Guerra de 1992-1995, presume-se). Por meio de uma série de planos longuíssimos que nos tornam cúmplices do seu esforço físico, vê-lo-emos carregar às costas uma vara de madeira, onde ele vai pendurando as garrafas que pretende encher de água numa fonte longínqua.

Com a via sacra desta figura crística se ocupará a metade inicial de um filme que parece ter dificuldade em encontrar uma voz própria, colando-se a cada passo à obra que lhe serve de modelo. Trata-se de uma impressão que se esbaterá na segunda parte: aquela que deixa o velho para trás, para se focar no rapaz, que, descobrindo-se de súbito sozinho (a mãe desapareceu), vai agora vagueando pelos mesmos décors desolados. O primeiro indício de que “A Árvore” está longe de se reduzir a um exercício de estilo, esse, chega-nos por intermédio de uma cena que corre o risco de passar despercebida. Falamos daquela em que, a partir da janela de uma casa abandonada, o rapaz assiste à marcha de um pelotão de soldados que vão comunicando em alemão. A cena é notável, não só porque usa de maneira inteligente o som diegético para nos dar o contracampo do olhar do miúdo (nunca vemos os soldados), mas sobretudo porque nos implanta de imediato numa outra história: a da II Guerra Mundial. Começamos nesse instante a suspeitar daquilo que será confirmado nas últimas sequências, onde os trajetos separados (mas paralelos) das personagens e do rapaz por fim se cruzam. A saber: que Mata faz confluir dois tempos num mesmo espaço, para atribuir dois corpos a uma mesma figura — percebemos então que o velho persegue o rapaz como quem corre atrás da infância que perdeu. E percebemos, por inerência, que o filme comporta consigo uma carga fantástica e onírica que é completamente estranha ao cinema de Tarr. Um mero ‘trabalho de escola’? Não nos parece.