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Não é justo lembrar Nixon (à direita na imagem) apenas pela sua queda em desgraça e negligenciar por completo outros feitos que alcançou na Casa Branca

foto Wally McNamee / Corbis via Getty Images

Quarenta anos separam os mandatos de Richard Nixon e Barack Obama enquanto inquilinos da Casa Branca. Ambos tiveram as suas singularidades: o republicano foi o único Presidente norte-americano a demitir-se do cargo; o democrata foi, até à data, o único afro-americano eleito para a presidência dos Estados Unidos. Duas notáveis biografias recentemente editadas são um precioso auxílio para conhecer mais de perto o perfil humano e político dos dois homens

Reinaldo Serrano

Nomeado para o Pulitzer de 2018, de John Aloysious Farrell diz-se ser um obcecado com o detalhe, o que, quando de investigação se trata, constitui mais virtude que defeito. Assim sendo, que se diga ser de sua autoria uma das mais recentes e mais interessantes biografias sobre a complexa figura que foi o 37.º Presidente norte-americano – Richard Milhous Nixon de seu nome, de 1969 a 1974, o seu mandato que, na realidade, foram dois: o primeiro de 1969 a 1972 e o segundo de 1973 a agosto de 1974, quando renuncia à Casa Branca na sequência do Caso Watergate. Será, aliás, por este escândalo que será recordado até à sua morte em 1994 e pela História da vida política dos Estados Unidos para todo o sempre.

Uma das questões que podem colocar-se desde já prende-se com a justeza ou não de lembrar Nixon apenas pela sua queda em desgraça, negligenciando por completo outros feitos que o natural da californiana localidade de Yorba Linda possa ter alcançado. E a verdade é que os alcançou, nomeadamente a título pessoal. O livro de Farrell tem, aliás, a virtude de ser minucioso relativamente ao percurso inicial e individual daquele que viria a ser o mais controverso Presidente dos EUA.

As origens humildes da família Nixon estão bem expressas na centena de páginas em que o biógrafo narra as vicissitudes pelas quais passaram Richard, o segundo de cinco filhos do casal Francis e Hanna, e como essas origens desenvolveram uma espécie de raiva e de amargura latentes que haveriam de moldar e de perdurar na personalidade humana e política de Richard, bem como inflacionar a sua própria ambição. Quer isto dizer que, para melhor compreender a ação política de Richard Nixon é bom ter sempre presente as dificuldades pelas quais passou e os complexos que tais dificuldades incutiram no jovem, no adulto e na personalidade política.

“Richard Nixon: The Life” (por enquanto só há em inglês) torna-se, deste modo, uma leitura obrigatória para entender a turbulência da administração Nixon, a desconcertante figura que caía para se levantar de novo, a figura rancorosa e em alguns casos paranoica e complexada mas que, ainda assim, conseguiu deixar marca na diplomacia norte-americana. As históricas visitas à China e à União Soviética em 1972 foram decisivas para serenar os ânimos sempre acicatados entre as duas superpotências e o país de Mao, entre o Ocidente e o Oriente, assim como abriram caminho para a normalização de relações entre os dois blocos.

Do ponto de vista interno e externo, cumpre de igual modo recordar o papel desempenhado por Richard Nixon na Guerra do Vietname: foi a sua administração que levou a cabo o que na altura ficou conhecido como a estratégia da “paz com honra”. Basicamente, Nixon procedeu à retirada gradual das tropas norte-americanas do Vietname enquanto providenciava apoio tático e logístico ao exército do sul para que pudesse defender-se das incursões militares do norte. A solução até podia ter funcionado, não fosse o facto de a vitória do conflito ter pendido para o norte comunista que unificou o país sob o seu domínio. Quanto aos Estados Unidos, é sabido o trauma que a guerra vietnamita causou numa sociedade que nunca foi capaz de sara as feridas da contenda.

Bem sei que muito foi dito, escrito e mostrado sobre os anos da administração Nixon e do homem que sentiu necessidade de dizer numa transmissão televisiva que não era “um patife”. Mas à medida que se percorrem as quase 800 páginas desta biografia é impossível não pensar em atenuantes (e, nalguns casos, em agravantes) para a conduta presidencial mais escrutinada no país do Tio Sam. Chegados ao fim da estimulante leitura, a conclusão é, no mínimo, surpreendente: o caso Watergate é um detalhe (importante e decisivo, é certo) na incrível vida de Richard Nixon, descrita com mestria pela pena de um dos investigadores que integrou a equipa “Spotlight” do “Boston Globe”. Lembram-se?

A biografia “Rising Star: The Making of Barack Obama” é um regalo e uma descoberta sobre o trajeto de vida pessoal e política que antecedeu a eleição de Obama para a Casa Branca

A biografia “Rising Star: The Making of Barack Obama” é um regalo e uma descoberta sobre o trajeto de vida pessoal e política que antecedeu a eleição de Obama para a Casa Branca

Foto Pete Souza / White House via Getty Images

Como decerto se lembrarão (uns com saudade, outros nem por isso) dos anos de Barack Hussein Obama na Casa Branca. Até lá, houve todo um percurso fascinante do jovem político nascido de mãe norte-americana (do Kansas) e de pai queniano em Honolulu, capital do Havai. É justamente este percurso, bem menos conhecido que a atividade política do 44.º Presidente dos EUA, que podemos seguir a par e passo em “Rising Star: The Making of Barack Obama”. A biografia tem a assinatura de David J. Garrow, o historiador e biógrafo norte-americano já laureado com o Pulitzer em 1987 pelo seu (notável) retrato de Martin Luther King, Jr em “Bearing the Cross”, um livro que li há cerca de 13 anos e que mantenho como uma das mais notáveis narrativas biográficas com que já me deparei.

Sem querer ou sequer pretender alongar-me muito, aqui deixo a certeza de uma leitura fascinante... e demorada: são quase 1500 páginas, inúmeras fontes e referências, e uma letra de tamanho assaz irritante para quem já não dispensa os óculos no ritual do mergulho literário. Este é garantidamente um regalo e uma descoberta sobre o trajeto de vida pessoal e política que antecedeu a eleição de Barack Obama para a Casa Branca. O livro está cheio de pequenas histórias, relatos e incidências que fortalecem a narrativa e enriquecem o conhecimento, pelo que em momento algum nos sentimos enfastiados ou desinteressados perante as descrições e testemunhos que, no seu conjunto, formam um retrato tão completo quanto possível de uma figura maior no panorama político dos Estados Unidos e do mundo que concedeu a Barack Obama o Prémio Nobel da Paz em 2009.

Obama cumpriu os seus dois mandatos entre janeiro de 2009 e janeiro de 2017. Basta pensar em quem lhe sucedeu para reforçar a importância de ler esta íntima biografia do homem que disse um dia sermos nós próprios a mudança que procuramos.