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Paulo Mendes da Rocha: “A Arquitetura é uma forma peculiar do conhecimento do género humano”

Paulo Mendes da Rocha é sócio Honorário da Casa da Arquitectura

Alberto Frias

Arquiteto brasileiro homenageado este domingo na Casa da Arquitectura, em Matosinhos, com o título do sócio honorário. Na Galeria da Casa foi inaugurada a exposição “Duas Casas”, com obras de sua autoria

Não cabia mais ninguém no edifício da Tanoaria da Casa da Arquitectura (CA), em Matosinhos. Num fim de semana marcado pelos diferentes atos relacionados com a inauguração da grande exposição “Infinito Vão”, dedicada a 90 anos de arquitetura brasileira, o fim de tarde deste domingo tinha um aliciante especial. Após a visita e lançamento do livro “Duas Casas de Paulo Mendes da Rocha”, seguir-se-ia o que foi anunciado como uma conferência de um dos mais relevantes arquitetos do mundo vivos.

Não chegou a sê-lo. Mendes da Rocha optou por um tom coloquial e foi breve, embora intenso nas palavras ditas, tal como tem sido toda a sua vida pessoal e profissional.

Arrancou de uma forma inesperada. Foi de imediato ao âmago da questão que o levava ali e justificava todo o esforço que tem sido feito para transformar a CA numa estrutura da maior relevância. É que, afirmou o arquiteto brasileiro, “A arquitetura é uma forma de conhecimento do género humano” desde os tempos mais remotos, desde o momento da primeira pedra. Razão pela qual, acrescentou “tem uma capacidade enorme de educação”, que deve ser compreendida, notada e respeitada pelos poderes políticos.

É uma observação que ganha ainda maior atualidade quando se constata, como afirmou o arquiteto, que “vivemos num tempo de ignorância e obscurantismo, que ainda existe”.

Se a simples existência da CA, nos seus atuais termos, e com a enorme capacidade que tem tido para atrair a boa vontade de inúmeros doares, como sucedeu com a grande coleção de arquitetura brasileira que está a construir, tudo isso se transforma, aos olhos de Mendes da Rocha, em algo “de estimulante, espantoso e emocionante”. Isto no sentido em que a CA materializa a ideia da arquitetura “como uma forma peculiar de conhecimento do género humano”.

Essa característica muito particular torna imperioso prosseguiu “dar uma dimensão política á arquitetura, sobretudo na ideia de construção da cidade”. Razão pela qual, acrescentou, a CA “tem de ser um instrumento fundamental de política juntos dos governos”, até mesmo no contexto da construção da polis.

Ao desenvolver o conceito de que “a natureza não é habitável”, com que terminou esta curta conversa, Mendes da Rocha sublinhou que “a arquitetura tem um papel crucial ao tornar a natureza habitável. Isso significa transformá-la de acordo com um projeto”.

A arquitetura e a política

Afinal, concluiu, “a arquitetura tem um sentido político e dialético num universo muito maior do que a simples construção de edifícios”.

Em simultâneo com a exposição “Infinito Vão”, a CA abriu a mostra “Duas casas de Paulo Mendes da Rocha”, que estará patente até 10 de fevereiro de 2019 na Galeria da Casa.

Com curadoria de Nuno Sampaio, Fernando Serapião e Guilherme Wisnik, permite o contacto com dois projetos muito particulares do acervo de Mendes da Rocha, situados, um no Brasil, o outro em Portugal, e desenhados e construídos com três décadas de distância

São duas casas familiares – a Casa Gerassi, em São paulo, e a Casa Quelhas, em Lisboa, desenhada em coautoria com Inês Lobo – apresentadas a partir de maquetes, fotos de Leonardo Finotti e o registo audiovisual, seja da construção das habitações, seja dos respetivos interiores.

Paulo Mendes da Rocha nasceu em 25 de outubro de 1928, em Vitória, Espírito Santo, Brasil. Foi um dos responsáveis pela introdução de uma sensibilidade modernista na arquitetura do seu país. Formado em arquitetura, em1954, na Universidade Mackenzie, em São Paulo, venceu o concurso para o Jockey Club em Goiânia em 1963 e em 1969 foi selecionado (com Flavio Motta, Julio Katinsky e Ruy Ohtake) para construir o Pavilhão Brasileiro da Expo 1970 em Ōsaka. Professor na Universidade de São Paulo, foi, durante a ditadura militar brasileira, afastado do ensino durante dez anos, juntamente com outros professores.

Desenvolveu muito trabalho a nível internacional, mesmo se grande parte da sua obra se encontra em São Paulo, como o Museu Brasileiro da Escultura (1995). Assinou casas, prédios de apartamentos, estádios, escolas, clubes sociais, escritórios, clínicas, terminais de autocarros, bibliotecas e um reservatório. Premiado em 2006 com o Pritzker (tal como o fora já Oscar Niemeyer), o mais importante galardão de arquitetura do mundo, recebeu ao longo da vida alguns dos mais importantes prémios de arquitetura.