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Filipe Carvalho: “O truque é não desistir dos sonhos antes de tentar”

nuno botelho

Começou a trabalhar na área do motion design há uma década e o reconhecimento maior chegou agora. O genérico da série “Counterpart” fez dele o primeiro português de sempre a vencer um Emmy

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Tudo começou com a nomeação ao Emmy, mas acabou mesmo por vencer o prémio. Como se lida com notícias destas?
Só a nomeação já teve um impacto considerável. Ficámos muito contentes, muito excitados pela possibilidade de ganharmos. E quando fomos à cerimónia lá em Los Angeles, e chamaram os nossos nomes, foi uma explosão. Mas os segundos antes, quando anunciaram os vários concorrentes na categoria, também são complicados de gerir. Há um bater do coração mais forte. Eu não me lembro de grande coisa dessa altura, entre estar no lugar e chegar ao palco. Há uma grande névoa nas nossas cabeças, de tão extasiados que estávamos. Lembro-me, sim, de a minha mulher me apertar tanto a mão que fiquei com marcas vermelhas. E lembro-me ainda de me levantar, fechar o casaco e dar-lhe um beijinho. Foram as duas coisas que me tinha pedido para fazer e não me esqueci.

Esta ida marcou também a primeira vez que esteve pessoalmente com muitos dos colegas com quem trabalha à distância. Como foi esse encontro?
Ia com uma grande expectativa dessa parte porque era muito importante para mim conhecer as pessoas com quem trabalho, com muitas delas há cerca de 10 anos. Queria conhecer, apertar a mão, dar um abraço e finalmente associar nomes a caras. Era algo que não existia, por fazermos tudo por e-mail ou quando muito através de skype calls. Isso, de facto, era o mais importante para mim: perceber a reação à minha presença e saber se era ou não aceite pela comunidade de design americana. Sempre me senti um pouco um intruso, que trabalha remotamente de Lisboa para lá. Depois, aparecer ali de paraquedas, nomeado para um Emmy, podia sentir-me um pouco à parte… Não aconteceu. Aceitaram-me como um irmão. Para mim isso é que foi o culminar destes anos a trabalhar com os Estados Unidos. Perceber que era aceite por eles como um deles.

E o que é que “Counterpart” tinha de especial para conquistar um Emmy?
Não sei… Acho que potencialmente teremos ganho porque o nosso conceito era mais forte. Quando se vê o genérico do “Counterpart”, aquela micro-história que é contada naquela sequência está intimamente ligada com a série. Quem vê os dois reconhece isso. Este genérico só funciona para “Counterpart”, com elementos muito específicos da série como é o caso do jogo “Go”, jogado pela personagem principal. Eles dão muito valor a isso. Depois acho que a nossa execução foi a melhor. Filmámos, fizemos 3D, fizemos animação 2D, usámos fotografia… Tínhamos de tudo.

Como é que começou a sua ligação aos estúdios norte-americanos?
Foi com uma ideia que eu andava a arrastar comigo já há alguns anos. Trabalhava como web designer, em 2008, e sempre quis fazer coisas para filmes e para séries de televisão nos Estados Unidos. Sempre me identifiquei com a cultura americana, então tive de tentar. E para tentar construí um portfólio de coisas fictícias. Inventei séries e filmes, fiz uns genéricos para isso e pus no site. Depois enviei um único e-mail para uma empresa e fiquei à espera. De facto, tive resposta e comecei a trabalhar com eles. O truque é não desistir dos sonhos antes de tentar. O pior que pode acontecer é não acontecer nada.

E essas tentativas dão sempre alguma bagagem...
Sim, e pelo menos sabemos que tentámos. Eu não queria chegar a velho e pensar que se calhar devia ter tentado. Eu tentei e tive a sorte de conseguir. Mas claro que depois é preciso fazer um bom trabalho para que confiem em nós e nos deem trabalho.

E continuou sempre a conciliá-lo com o trabalho em Portugal?
Sempre fui freelancer, e até há cerca de dois anos e meio tinha também um full time durante o dia. Depois à noite é que trabalhava com os Estados Unidos até às quatro ou cinco da manhã, quase todas as noites durante oito anos. Entretanto decidi montar o meu próprio estúdio, a Foreign Affairs, e continuo então agora com o mercado americano.

O prémio fala por si, mas esta nova fase da carreira está a correr bem?
Sim. A Foreign Affairs já executou trabalhos para os Estados Unidos, em breve vamos poder mostrar alguns, e continuo também como freelancer. “Counterpart” é um projeto de 2017, fi-lo há quase um ano, e agora apareceu o Emmy. Só o facto de ter ido a Los Angeles e de ter feito os contactos que fiz, além do feedback que tenho tido, já vai ajudar bastante no futuro.

O que é que o seu trabalho tem de diferente para se destacar?
Eu acho que há duas coisas, principalmente. Uma delas, que foi apontada como uma diferença em mim pelos clientes que eu ia tendo, é que tenho um estilo muito cinematográfico, muito dramático e muito à base de fotografia e de filmagem. Existe uma tendência no motion design de fazer muita coisa e a minha estratégia é o minimalismo. Comparo o meu estilo ao de um fotógrafo, que tira uma foto e é essa foto que se torna o ícone de algo. Tento que uma imagem seja o ícone de tudo e é a partir daí que desdobro para o resto. No caso do “Counterpart” foram as peças de “Go”, pretas e brancas sobre o quadriculado.

E a outra diferença?
Acho que o facto de ter trabalhado tanto tempo com um full time job em Portugal, que me dava apenas as noites para os Estados Unidos, permitiu-me filtrar um pouco aquilo que ia aceitando. Eu nunca fiz muito trabalhos de rebrand para canais, de reality-shows ou para marcas como a Nike ou a Apple. E isso é algo que muitos dos meus colegas não podem fazer. Têm de aceitar todos os trabalhos que puderem para pagar as contas.

Ganhar o Emmy é um salto de gigante no reconhecimento. Vai abrir mais portas ou ainda é cedo para o dizer?
É um bocado cedo, mas há uma coisa que eu já percebi. Agora sempre que assinar seja o que for — quer seja em notícias, entrevistas, bios ou mesmo em conferências — já não sou o Filipe Carvalho. Sou o Emmy Award Winner Filipe Carvalho. Vou ser isso para o resto da minha vida, quer ganhe mais Emmys ou não. E isso é uma diferença que se nota nos contactos das pessoas, no tipo de trabalhos que já me estão a oferecer. Não estava à espera que fosse tão rápido. Depois também não estava à espera da reação que tive quando cheguei a Portugal. Achei que ia ter algum impacto no nosso país, mas só quando voltei me apercebi através da Academia de Cinema que era o primeiro Emmy de prime-time de sempre. E isso fez com que fosse um bigger deal do que eu estava à espera.

E agora, quais são os próximos passos?
Continuo a trabalhar como freelancer e isso é para continuar num futuro próximo. Quanto à Foreign Affairs, está em expansão e cada vez a ter mais clientes. É cada vez mais o centro da minha atenção no dia a dia. E tenho um projeto especial, muito próximo do meu coração, e que estou a fazer em parceria com a Até ao Fim do Mundo. Ganhámos um apoio do ICA — Instituto do Cinema e do Audiovisual no ano passado e vamos fazer uma série documental de animação, sobre fotojornalistas e jornalistas de guerra, em situações de crise. Estamos muito interessados em saber essas histórias. Estamos à procura de apoios e o nosso objetivo é lançá-la no mercado internacional. Já tenho alguns contactos com os Estados Unidos e vai ser lançada no ano que vem.