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Bater, evitar, atirar

Bater, evitar, atirar 
são algumas das ações da dança “The Waves”, 
de Noé Soulier

Pierre Ricci

As ações quotidianas feitas dança do século XXI, segundo Noé Soulier

Claudia Galhós

Hoje, Noé Soulier está em presença dupla no Porto: logo pela manhã, às 11h, no Teatro do Campo Alegre, o coreógrafo francês dá uma conferência sobre “Fazer Corpos” (“Making Bodies”, no título original); às 19h, apresenta a sua última criação, “The Waves”, espetáculo de dança para seis bailarinos coproduzido pelo Teatro Rivoli. As duas iniciativas estão profundamente ligadas, porque, nesta peça, Noé leva mais longe a pesquisa que tem vindo a fazer em outras coreografias (“Faits et Gestes”, apresentado no Festival DDD de 2017, é um exemplo): abordar o movimento a partir da execução de objetivos práticos. Ou seja, neste caso, a partir de ações como bater, evitar e atirar.

Aquilo sobre o qual Noé vai falar na conferência é da mesma natureza do que fala no espetáculo. “Enquanto bailarino, trabalhei diferentes abordagens ao movimento que se inscrevem em momentos diferentes da história desta arte, desde o bailado, a dança moderna, a técnica Cunningham, Trisha Brown... Pensei que explorar o movimento a partir da ideia de executar objetivos práticos, não sendo novo, é menos explorado do que uma abordagem geométrica, mecânica, anatómica ou mais orgânica, que passe pela contração e respiração...” Se a estratégia de composição não é exatamente nova, o criador francês utiliza-a com uma consciência amadurecida e renovada das suas implicações. Isto é, parte de ações normalmente associadas à concretização de um objetivo para construir o vocabulário coreográfico de “The Waves” — bater, evitar, agarrar, atirar... Deste modo, cria uma peça de dança contemporânea introduzindo variáveis que transformam o significado do movimento, a forma como é expresso, a sua intencionalidade. Diz Noé que o jogo se faz muito na articulação entre a imaginação do bailarino, aquilo em que está a pensar, que transforma a forma como se move, e o facto de o espectador não ter acesso a esse pensamento. Dá o exemplo de bater: “A intenção mantém-se lá, mas feita com uma parte do corpo que não é a adequada para executar eficazmente esse objetivo, ou com uma orientação e direção que não é certa, ou então os objetos evocados para a ação não estão lá. A imaginação do bailarino altera a forma como se move mas quem vê não tem acesso a essa informação.” E, assim, a coleção de movimentos gerados produz significados que podem fazer eco no espectador e ativar a sua memória. Este “agir” que é desencadeado pelos objetivos tem formas essenciais de se expressar, que Noé identifica como “agir sobre algo exterior, reagir a algo que acontece no seu entorno, agir no próprio corpo, tomando-o como alvo”. E, para que não haja dúvidas, dá exemplo de “agir sobre si próprio, sobre o próprio corpo”, que os bailarinos executam: “Alteramos a ação de atirar. O gesto é associado a algo exterior ao corpo. Aqui, os bailarinos atiram-se a si próprios, atiram partes do seu corpo, a mão ou o joelho, como se fosse possível lançá-los para fora do corpo.” No espetáculo, há uma recorrência, diz Noé, que consiste em “haver sempre algo que não está lá, algo que falta; podem ser os objetos que não estão presentes, podem ser movimentos não terminados ou interrompidos”... E assim se abre espaço para o espectador completar o que lá não está com as suas próprias memórias e as muitas associações de imaginação que este catálogo de ações produz.