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Giacometti dá a mão a Chafes em Paris

Rui Chafes vai à capital francesa visitar Alberto Giacometti. A visita chama-se “Gris, Vide, Cris.”, terá lugar na Fundação Gulbenkian e decorre de 1 de outubro a 3 de dezembro. É o encontro entre um dos nomes da escultura atual e um mestre da escultura do século XX

A ferida, aquela ferida humana que só os homens solitários carregam sem esforço, como um destino ou uma provação é a mais simples descrição daquilo que se pode dizer sobre a obra de Alberto Giacometti.

Intocável de tão sensível, marca a grandiosidade na escultura do século XX (1901/1966) e parece, a cada olhar, impossível de ser mexida, tapada, cruzada, mais trabalhada.

Ora esse incalculável privilégio cabe a Rui Chafes a partir de dia 1 de outubro e até dia 3 de dezembro, na Fundação Gulbenkian, em Paris.

O escultor português vai apresentar a sua obra negra, bem mais pesada no seu ferro em relação ao bronze ou ao gesso de Giacometti num diálogo que se pretende comungue de linguagens díspares e nele consiga arrebatar o mesmo sentimento de obra de arte, o da leveza do homem, da mulher e do animal, nesse figurativo constante da obra do suíço e dessa leveza que só o despojamento atinge.

O escultor português tem entre mãos uma das tarefas mais difíceis da sua vida, apesar de já ter dado provas de tornear as pequenas formas com a leveza das grandes esferas. No entanto, “concorrer”, lado a lado, com aquele mestre da escultura que nos habituámos a ver como um expoente quase impossível de alcançar, não acontece todos os dias e não pode ser descurado. O seu traço caído, já sem força e com a vitalidade de toda a gente que já viveu, como dele fala Jean Genet num livro publicado em 1958 - ainda o mestre era vivo e trabalhava nos seus três m2 de ateliê -, aquela finura e delicadeza, a espessura invisível, esguia e fortíssima, a um só tempo, continuam a marcar o imaginário dos amantes de Giacometti, dos críticos de arte, e dos artistas.

Um mundo que estará alerta para saber onde Chafes acertou e onde falhou. Como tocou, qual ousadia ou mesmo sacrilégio, dirão alguns puristas, ao misturar a sua marca escultórica bem mais agressiva e nada figurativa, mesmo a roçar o não objeto, nesse mesmo lugar do belo. É que Chafes foi convidado pela própria Fundação Giacometti para trabalhar à volta do universo daquele artista e foi-lhe mesmo concedido terminar, se assim o entender, uma peça do escultor.

A responsabilidade, que é muita, será uma prova de fogo para Rui Chafes, nascido precisamente no mesmo ano do falecimento do escultor suíço (1966). E, para o homem das formas duras e tantas vezes fechadas em si mesmas, nada disto é uma coincidência.

A admiração de Chafes por Giacometti será outro desafio para o escultor português que maior sucesso tem alcançado no país e no estrangeiro, foi Prémio Pessoa em 2015, veio evoluindo subtilmente na criação de uma relação segura das suas peças com o espaço e tem conseguido levar a beleza para o que muitos consideram mesmo objetos de tortura nas suas formas inidentificáveis.