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#livros. Quando o amor é uma frase feita

ANA BAIÃO

Não há coração que resista a tanta bagatela

Uma lição que muito boa gente devia aprender (não apenas os políticos) é a não fazer promessas que não possa cumprir. Ponham os olhos no escritor Pedro Frases Feitas – perdão, Chagas Freitas: prometeu falhar e, ainda que o seu livro tenha sido um sucesso retumbante, ele falhou-nos com estrondo, porque ajudou a criar uma geração de escritores proveta que copiam a mesma fórmula fácil. Tudo o que é preciso saber sobre o amor está em “O Amor é Fodido”, que o Miguel Esteves Cardoso escreveu há mais de 20 anos. O que temos agora são sucedâneos baratos, cheio de frases fofinhas partilhadas até à exaustão nas redes sociais.

A seguir ao Chagas, chegou o Raul Minh’Alma (é possível que Pedro Miguel Queirós, o nome de batismo, soasse menos romântico), autor de obras como “Larga Quem Não Te Agarra” e “Todos os Dias São Para Sempre”. Depois veio o Afonso Noite-Luar, um autor porno-erótico que se esconde atrás de uma máscara e que nos deixa outra importante lição de vida: “Ela Primeiro”. O mais recente membro do clube da autoajuda sentimental apresenta-se com o pseudónimo Francisco Sexto Sentido (a sério, onde é que esta gente vai buscar estes nomes?!) e uma obra cujo o título – “Chega Aqui Que Vamos Falar de Amor” – poderia ter sido tirado de um álbum dos Santos & Pecadores.

Descobri-o numa banca de supermercado, numa secção que poderia chamar-se “banalidades literárias para corações remendados”. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a capa, onde um tipo que parece o sósia do Frederico Varandas, o novo presidente do Sporting, carrega uma mulher às cavalitas. Depois, é impossível ficar indiferente à subtileza dos apelidos do autor. Quem é, afinal, este Sexto Sentido? Talvez seja um escritor consagrado que se leva demasiado a sério para assumir a paternidade da obra. Ou alguém que nos quer vender a sua homeopatia dos afetos mas não tem coragem para se assumir. A biografia que nos é apresentada não deixa grandes pistas.

“Sou o Francisco Sexto Sentido. Atrevo-me a dizer que vim para ser diferente e para dizer o que se calhar nunca ouviste de outra boca. O Amor anda a ser maltratado e eu quero mostrá-lo tal como é: maravilhoso.

Detesto mitos. É tempo de reescrever tudo e não ter medo de nada. Sim, as mulheres podem ser compreendidas. Sim, devemos amar demasiado. Não, não é possível ser feliz sozinho. Gosto de dizer que Loucura é o meu nome do meio e que te encontrei entre 7 biliões de pessoas. No fundo, só quero fazer-te acreditar que se calhar tudo o que ouviste até agora sobre o Amor era mentira. Deixas-me tentar?”

A editora garante que o livro é bom e “está bem escrito”. O problema é que, com uma apresentação destas, não há boa vontade que resista. Ainda assim, dei-lhe uma segunda oportunidade para criar uma boa primeira impressão e atirei-me ao arranque do texto, que costuma bastar-me para perceber se a obra vale a pena ou não. Reza assim:

“Sou louco. Chama-me louco se quiseres. Loucura é o meu nome do meio (onde é que já li isto?) se precisares de me chamar. Chama-me. Não hesites. Chama-me de noite e de dia e mesmo quando não existir Sol nem Lua. Chama-me o que quiseres. Posso ser a Lua se precisares de um sonho, ou o Sol se quiseres luz e realidade”.

Desisto. Este Francisco ‘Loucura’ Sexto Sentido faz... pouco sentido. Não há coração que resista a tanta bagatela.