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Sombras. O imaginário de Stephen King

O escritor americano, numa sessão fotográfica em Paris, há cinco anos

Foto Ulf Andersen/Getty Images

Há um célebre adágio popular espanhol que, de quando em vez e consoante as circunstâncias, é transferido para os hábitos portugueses: “Eu não creio em bruxas, mas que as há, há”. Esta perceção do Mal mesmo quando não é visível é uma das imagens de marca do imaginário de Stephen King. O popular autor norte-americano volta a explorar o tema em duas séries dignas de visionamento, em duas obras dignas de leitura.

Reinaldo Serrano

O dia ainda não raiou numa pequena localidade do Maine. Está frio. Um razoável grupo de pessoas cumpre o protocolo improvisado que transforma o aglomerado numa fila ordeira em frente a um edifício comunitário. Todos procuram um novo “boost” de sonho americano que esperam possível na feira de emprego que há de abrir as suas portas dentro de algumas horas. Os que já lá estão querem integrar a primeira horda de possibilidades. A uma curta distância, alguém jaz no labirinto de uma consciência contranatura. Oculto na sua própria perversão, esse alguém aguarda um sinal inescrutável que ditará o cumprimento de um destino. Ei-lo que avança, então. Resoluto, obstinado, sem freio na intenção nem no carro que derruba indiscriminadamente os incautos da fila que da ordem se fez caos. O que se seguirá depois disso é o objeto de “Mr. Mercedes”, mais um exercício sobre a condição humana lavrado por Stephen King.

O livro homónimo de onde saiu a série televisiva é o primeiro de 3 que narram as peripécias de uma investigação conduzida pelo detetive Bill Hodges numa luta frenética para deter o “serial killer” do City Center e uma série de crimes que deixaram a horrível marca da destruição. O primeiro livro foi publicado em 2014, o segundo (“Finders Keepers”, “Perdido e Achado” em português) em 2015 e o terceiro (“End of Watch”, “Fim de Turno” em português) em 2016. Curiosamente, Portugal parece ter sido apostado em força na obra de King, quase toda ela disponível entre nós.

A série “Mr. Mercedes” viu a luz do dia em 2017 e ressurgiu no recente agosto deste ano, para uma segunda temporada tão empolgante quanto a primeira. À semelhança da palavra escrita, a eficácia narrativa transfere-se sem esforço para a linguagem televisiva, a que não será alheio o facto de por detrás dela estar o experiente e sempre competente olhar de David E. Kelley – o homem que nos deu, entre muitos outros, títulos como “Picket Fences”, Big Little Lies”, “Chicago Hope” ou a inesquecível “Boston Legal”. Se aliarmos a extraordinária competência de Kelley ao virtuosismo de King, é fácil concluir sobre a garantia de qualidade que a trilogia do escritor alcançou na televisão graças ao talento do produtor e argumentista.

O que surpreende na obra de King é o facto de sabermos estar perante uma fórmula que já conhecemos e que, ainda assim, nos consegue surpreender e, mais ainda, enlevar sem qualquer esforço que não seja o de ansiar pelo desenvolvimento da narrativa que já valeu ao autor mais de 50 adaptações para cinema e televisão -- ele que é há muito o mais célebre natural e habitante do estado norte-americano do Maine.

Sem precisar de provas sobre o que acima foi dito, aqui acrescento mais um exemplo – recente – de uma bem sucedida adaptação ao pequeno écrã: “Castle Rock”, que já tem uma segunda temporada garantida para 2019, estreou em julho deste ano e foi desde logo recebida com entusiasmo pelos fãs de King, mas também pela crítica que nem sempre aplaude com gosto o sucesso do autor. A fórmula permanece intacta, a sedução idem, e o que aqui se mostra é o argumento complexo que envolve o desaparecimento de uma criança, o seu resgate e o mistério que um e outro acontecimento tiveram no passado e têm no presente de – adivinharam – uma pequena localidade do Maine.

Uma vez mais, o reflexo do medo é simultaneamente o reflexo de nós próprios, com o Mal que surge sem aviso ou insinuação, originando sempre mais perguntas que respostas, numa espécie de dialética onde o Bem parece não ter lugar. A série conta com notáveis desempenhos, sobretudo o de Bill Skarsgaard (que, curiosamente ou não, foi “Pennywise”, o palhaço maléfico da mais recente adaptação de “It”, também de Stephen King), o de Melanie Lynskey” (a tal de “Heavenly Creatures”) e de Andrew Morton (lembrar-se-ão dele em “Moonlight” ou “Selma”).

Por tudo isto se recomenda o visionamento das duas séries e, sobretudo, a leitura dos títulos do septuagenário Stephen King. Umas e outra garantirão inquietude e entretenimento como poucos autores conseguem assegurar e, ao mesmo tempo provar que, contrariando as más línguas dos pouco esclarecidos, é possível conciliar o conceito de “bestseller” à qualidade de uma carreira – King vendeu até ao momento cerca de 400 milhões de livros...