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Natalie Portman: “Estamos a viver num tempo em que tudo se vende”

FOTo Vittorio Zunino Celotto/Getty Images

A atriz de “Closer” e de Cisne Negro” é uma estrela da pop music assombrada por um trauma de adolescência em “Vox Lux”, de Brady Corbet — e falou-nos do preço da fama. O filme estreou-se em Veneza e em Toronto, onde a encontrámos, e há de chegar às salas portuguesas a tempo dos Óscares

A segunda longa-metragem do americano Brady Corbet começa em 1999, numa alvorada de novo século que será traumática para a adolescente Celeste: ela escapa por um triz a um tiroteio premeditado na sua escola perpetrado por um dos seus colegas. Vinte anos depois, e já mãe de uma adolescente, Celeste (Natalie Portman pega na personagem a meio do filme e na sua fase adulta) tornou-se numa estrela no firmamento da pop adorada por milhões de fãs, mas o seu comportamento continua a ser condicionado por aquele massacre.

“Vox Lux” fala-nos de traumas, da fama, do terrorismo ou da violação da privacidade de uma artista popular que você também é. Enquanto atriz, pensou nestes temas à luz da sua própria experiência?
Este filme foi feito para pensarmos nestes temas e, por eles, pensamos em nós próprios. A questão do atentado na escola de Celeste — um problema com o qual a América tem infelizmente sido obrigada a conviver — vem do facto de Brady Corbet ter estado em Paris durante o ataque ao Bataclan: ele vivia a poucos metros e a génese da história de “Vox Lux” vem daí.

Não é inesperado que uma história que começa com um ato terrorista acabe por fixar-se numa estrela pop?
Eu acho que não porque nós estamos a viver num tempo em que tudo se vende. A atenção também se negoceia, afeta a política, a cultura, o modo como nos relacionamos uns com os outros. E esta mercantilização de tudo em que até a violência é uma moeda de troca acaba por colocar o terrorismo e o estrelato pop a um nível paralelo, ou seja, ambos existem porque lhes damos atenção. Ao darmos-lhes atenção, tornamo-los poderosos. E isso é muito perigoso. Neste sentido, “Vox Lux” é talvez o filme mais político que já fiz.

Segue a música pop?
Interesso-me por ela. Não é a música que ouço mais em casa, só mergulhei a sério neste universo durante a preparação do filme. Interesso-me pelos espetáculos, e pela produção ligada à música, que é muito exigente.

E teve alguma inspiração particular para fazer a personagem de Celeste?
Seguramente, mas preferia não falar de ninguém porque Celeste é, de facto, uma personagem de ficção que Brady escreveu. Fartei-me de ver documentários sobre divas pop da atualidade, confesso. Queria apanhar certos pormenores, aqui e ali. No YouTube, também. Tornou-se uma ferramenta de trabalho.

Por causa das cenas de palco em que a sua personagem atua como num concerto a sério?
Exato. Nós não tivemos muito tempo de rodagem e ir para um palco fingir que sou uma estrela pop, acredite, não é o mais fácil dos papéis que uma atriz pode ter. Felizmente, o coreógrafo do filme é o meu marido [o francês Benjamin Millepied], pude ensaiar em casa! E claro, como influência maior, tínhamos a Sia, que compôs a maior parte das canções.

O facto de ser famosa ajudou-a a interpretar uma mulher famosa?
Hum, não tenho nada que ver com a Celeste... Nem gosto de desenhar paralelos com as minhas personagens, porque isso é perigoso. Mas a verdade é que estou agora a dar entrevistas e, no filme, também Celeste as dá, vai dizer-me isso, não é?

Às tantas, Celeste canta isto: “I’m a private girl in a public world.”
Eu acho que ser uma pop star não é para todos. Poucos aguentam. É um trabalho de uma exaustão tal, as digressões, tudo aquilo — nada que se compare a ser atriz de cinema. Não é humano aquilo que lhes é exigido. Artistas como a Celeste, na vida real, quando vão para a estrada, dão 150 concertos por ano, três horas por concerto... São insanos os níveis de resistência a que estas vedetas são submetidas.

Acha que as canções originais do filme se podem tornar populares quando “Vox Lux” chegar às salas com a sua banda sonora?
Isso seria muito interessante e sinal de que o filme tinha deixado a sua marca nas pessoas. As canções são boas, francamente é o que acho.

Teve duplos quando as interpretou?
Não, sou só eu. Não há duplos. Acho que se nota [risos]! Não consigo chegar ao nível da Sia, por quem tenho a maior admiração.

“Vox Lux” critica a cultura pop? Ou antes a celebra?
É um filme em que não podemos dissociar esses aspetos, pois eles estão ambos presentes e um complementa o outro.

Há comparação possível entre a rodagem de “Cisne Negro” e a de “Vox Lux”, dois filmes muito exigentes para si a nível físico?
São duas experiências muito distintas. “Cisne Negro” foi uma maratona que me exigiu uma preparação física e um regresso à dança muito intensos. O treino do ballet é assim, conheço-o bem: complexo e perfeccionista. Para “Voz Lux”, tive apenas dez dias de rodagem. Foi antes uma corrida de sprint. A dança era outra. Outro tipo de explosão..

Porque é que a voz off que acompanha o filme e nos conta a sua história é do Willem Dafoe e não sua?
Acho que Brady quis vincar uma distância, como se este filme fosse mais uma fábula do nosso tempo do que qualquer outra coisa. Ou, como ele diz, uma pop opera.