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Isabel Pires de Lima em entrevista: “João Ribas foi desleal com a administração de Serralves”

Isabel Pires de Lima

Jorge Simão

João Ribas ainda não esclareceu as razões que levaram à sua demissão de diretor do museu de Serralves, após a inaguração da exposição dedicada a Mapplethorpe. Mas a administradora Isabel Pires de Lima, em entrevista ao Expresso, garante que a atitude que precede a demissão é já por si desleal

Isabel Pires de Lima, administradora da Fundação Serralves, foi surpreendida pela demissão de João Ribas, director do museu, na passada na sexta-feira. Apenas um dia depois da inauguração da exposição dedicada a Robert Mapplethorpe, na qual João Ribas participou como director e também curador responsável. Até agora não se sabem as razões que levaram à decisão de João Ribas, dado o silêncio ao qual o próprio se votou, mas já houve denúncias, feitas por trabalhadores e ex-trabalhadores da fundação, que preferiram ficar no anonimato, de mau ambiente criado pela presidente, Ana Pinho, desde que chegou ao poder em 2015. É certo ainda que João Ribas disse, em entrevista ao Público, dias antes da inauguração, que não teria fotografias de Mapplethorpe, nomeadamente as de cariz sexual, numa zona de acesso reservado a maiores de 18 anos, mas foi isso que veio a acontecer. Por isso, falou-se em censura. Depois de um breve comunicado de Serralves, quem vem hoje dar explicações é Isabel Pires de Lima. Em entrevista telefónica ao Expresso, a administradora considera a atitude de João Ribas desleal.

Como soube da demissão de João Ribas?
Soube por ele, por um telefonema brevíssimo, que ele me fez na sexta-feira, no final da tarde, e que, de resto, foi interrompido porque eu estava na estrada. Disse-me que ia apresentar a demissão e que não tinha condições para continuar. Não consegui logo responder-lhe. Enviei-lhe uma mensagem a dizer-lhe que recomendava calma e que ele viesse conversar connosco na segunda-feira, coisa que seria normal. E coisa que não aconteceu, porque ele entretanto, ou concomitantemente, enviou um e-mail para a comissão executiva dizendo que iria apresentar a sua demissão. Apresentou a demissão por e-mail e com este laconismo.

E qual é a justificação que ele lhe dá?
Nenhuma até ao momento.

Ao telefone também não lhe deu nenhuma?
Não. Também não teve condições para conversar comigo. Nem seria pelo telefone que ele me iria dar justificações, mas sim ao colectivo do executivo ou à presidente.

João Ribas demitiu-se da direção do museu de Serralves mna sexta feira, um dia depois da inauguração da exposição de Robert Mapplethorpe em que ele próprio participou

João Ribas demitiu-se da direção do museu de Serralves mna sexta feira, um dia depois da inauguração da exposição de Robert Mapplethorpe em que ele próprio participou

Rui Duarte Silva

Há um conflito entre João Ribas e a presidente da administração, Ana Pinho, como tem sido noticiado?
Não há conflito pessoalizado. Nem há conflito. E a prova de que não houve conflito é que João Ribas inaugurou a exposição, na quinta-feira à noite, como curador e fez a visita guiada dando a sua explicação sobre a curadoria.

Ribas disse antes que era contra as salas de acesso reservado. Mas duas salas têm acesso reservado...
Sim, ele era contra. Mas não podia ser. Quando esta exposição foi proposta à administração pela anterior directora, Suzanne Cotter, ficou definido, primeiro, que o curador seria João Ribas, que na altura era vice-diretor, e também que se houvesse obras de conteúdo sexual explícito na escolha do curador, elas teria de ser apresentadas em espaço de reserva como acontece desde o Hermitage ao Grand Palais em Paris, e como, de resto, a Fundação Mapplethorpe confirmou que é comum acontecer em inúmeros museus. Depois a escolha das obras foi inteira e exclusivamente da responsabilidade do João Ribas. As 159 obras foram escolhidas por ele. Se cerca de 40 são de conteúdo sexual explícito e de temática sadomasoquista é óbvio que têm de ser expostas num espaço reservado. João Ribas sabe, desde a primeira hora, que quadros com essas características teriam de ser expostos em espaço de reserva. Só ele poderá explicar a razão porque dá uma entrevista, oito dias antes, dizendo que não haveria espaços de acesso condicionado nesta exposição.

JOSÉ COELHO

Das 179 fotografias que faziam parte da exposição só são apresentadas em Serralves 159. Porquê?
Também terá de perguntar a João Ribas. Essa é uma das nossas perplexidades. Foi ele que decidiu não expôr essas 20. E até lamentamos muito que ele o tenha feito. Pagamos essas fotos e não são expostas. Vi algumas delas durante a montagem e sei dizer que há duas ou mais de conteúdo sexual explícito, e há várias que também não são de conteúdo sexual explícito. Surpreende-nos que ele tinha excluído 20 obras. É bastante penalizador para a fundação, que pagou 179.

Essa pode ser a razão para o diferendo?
Não faço a mais pequena ideia. A questão das 20 obras é uma surpresa. Não é prática da administração de Serralves interferir nas escolhas dos curadores, nem nas escolhas artísticas.

Há também a escolha da exposição de Joana Vasconcelos. Não passou pelo diretor do Museu...
O João Ribas não era diretor do museu quando foram feitos os primeiros contactos. Era a Suzanne Cotter. O João Ribas nunca se manifestou contra a exposição da Joana Vasconcelos.

Ele ainda não escolheu nenhuma exposição desde que chegou à direcção?
Ele está a preparar o próximo ano. A programação ainda não foi apresentada à administração. Está atrasado. Não posso falar dessa programação. Os contactos estão em curso. Nalguns casos há contratos assinados, noutros não. A proposta não foi ao conselho de administração.

Qual é a avaliação que faz da direcção de João Ribas?
Tivémos pouco tempo para avaliar o trabalho de João Ribas. Não há de facto muito tempo para poder julgar o trabalho dele. Fez esta exposição que nós achamos excelente. O trabalho de curadoria do João Ribas foi sempre um trabalho extremamente positivo. Tão positivo que nós o escolhemos através de um concurso onde havia vários candidatos internacionais.

No jornal Público a declaração de uma ex-funcionária dá a entender que houve uma saída em massa de funcionários de Serralves.
Não houve.

Quantas pessoas saíram?
Não sei dizer. Mas sei que saiu uma pessoa do sector financeiro, outra do sector da comunicação, outra do editorial. Foram as últimas saídas de que me lembro.

Quantos funcionários tem Serralves?
À volta de 80 e tal. Não sei dizer com todo o rigor. Também houve admissões recentes.

Como é que se justificam as acusações de totalitarismo e mau ambiente?
Eu não tenho resposta para dar. Parece-me que é de considerar a declaração de Suzanne Cotter que trabalhou dois anos e meio com esta administração e que foi bem clara quando disse que nunca teve qualquer interferência por parte da administração nas suas escolhas artísticas. É evidente que a proposta de uma exposição é apresentada à administração. Tem de ser, até para ser submetida a uma análise financeira. É o primeiro dos critérios que tem de ser posto em marcha. Tudo o resto tem de ser ponderado no Conselho de Administração. Sempre assim foi, e continuará a ser. Por isso é que administração está lá.

Considera uma deslealdade a forma como João Ribas geriu esta situação?
Claro que sim. Considero uma deslealdade. Pois se ele tem uma orientação expressa do Conselho de Administração quanto à necessidade de criar ou não uma zona de acesso reservado evidentemente que as declarações que fez a semana passada não são corretas. É uma deslealdade para com o conselho de administração.

Qual é o processo que pode decorrer daqui?
Neste momento, nenhum. Temos de perceber as razões que o levaram a demitir-se. A bola não está do nosso lado.

Já o tentaram contactar?
Não. Estamos à espera que ele venha ter connosco. Será o normal. Vamos ver se ele o fará ou não.

Desde quinta-feira, dia de abertura da exposição, a situação em relação ao acesso reservado mudou?
O primeiro aviso estava mal colocado, porque se destinava a espectáculos e não a situações de museu. Foi por isso que se alterou para "acesso reservado a maiores de 18 anos, ou a menores acompanhados de tutores, pais".

Não tem um mínimo de idade?
Não.

Uma situação desta natureza já tinha ocorrido em Serralves?
Não, desde que tenho memória. Nunca houve uma exposição que pudesse levantar questões desta natureza. Mas na outra exposição há uma obra que está em espaço reservado.

Ana Pinho, presidente da Fundação Serralves

Ana Pinho, presidente da Fundação Serralves

rui duarte silva

O que pode esta polémica provocar na imagem da fundação?
Poucas consequências terá. Evidentemente complica a gestão da programação do próximo ano, que é preciso decidir com outro director, que importa encontrar, ou com o vice-director. Não afetará muito mais.

Em termos de imagem não ficará uma mácula, depois das acusações de censura, de totalitarismo?
Acho até o contrário. A exposição vai beneficiar de um maior número de visitantes, o que é bom, e evidenciará que a Fundação de Serralves é um espaço de liberdade, onde é possível expôr o Mapplethorpe.

Porque é que não foi a presidente Ana Pinho, mas a administradora Isabel Pires de Lima, a falar pela administração de Serralves?
Sou um dos membros da comissão executiva que estava cá. A Dr.ª Ana Pinho não estava sequer em Portugal. Fui eu que fui escalada.