Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Cantores magistrais

Klaus Florian Vogt (Walther), Daniel Behle (David) e Michael Volle (Hans Sachs) na produção de Barry Kosky de “Die Meistersinger von Nürnberg”, em 2017 em Bayreuth

O encenador Barrie Kosky transforma 
“Os Mestres Cantores de Nuremberga” na história de Richard Wagner e da sua herança política

Contam-se pelos dedos de uma mão — e sobram dedos! — as produções verdadeiramente notáveis do Festival de Bayreuth nos últimos vinte anos. A verdade é que se ouve Wagner mais bem cantado e encenado noutras bandas. Sim, em Bayreuth a acústica (desenhada para “Parsifal”) é única, e o Coro é sempre magnífico, mas os elencos descem, por vezes, a níveis inaceitáveis, a direção de orquestra pode ser irregular — não lembra ao diabo chamar Plácido Domingo para dirigir “Die Walküre”! — e as encenações sofrem, em geral, da epidemia alemã do regietheater, com a música a puxar para um lado e o teatro para outro. Há quem goste e veja nisto uma ‘distanciação’ brechtiana, mas Brecht era um génio como escritor-dramaturgo (e não um assassino do drama em causa). Milagres, porém, são possíveis, como por exemplo o “Parsifal” de Stefan Herheim, em 2008, infelizmente nunca editado em DVD ou Blu-ray. Foi preciso esperar nove anos para surgir novo milagre com “Die Meistersinger von Nürnberg” encenado por Barrie Kosky e um elenco mais-que-perfeito. Refiro já que a reposição de 2018 falhou na distribuição de Eva, mas este DVD refere-se à estreia em 2017, com a suprema Anne Schwanewilms no papel cantado por Elisabeth Schwarzkopf na reabertura do Festival em 1951.

É rara a conjunção de elenco ideal com encenação inovadora e estimulante, como era norma na Bayreuth dos anos 1950 e 60, quando a terra era fértil em cantores wagnerianos e o génio de Wieland Wagner revolucionava o teatro europeu. O “Parsifal” encenado por Herheim foi sempre razoavelmente cantado, mas nunca teve a globalidade dos cantores que merecia. Aconteceu agora, com os “Mestres Cantores”, a mais humana e sensata das óperas de Wagner. Herheim (também autor de uma notável produção dos “Meistersinger” em Salzburgo, em 2013), aproveitara “Parsifal” para recapitular a história da Alemanha, incluindo o passado nazi de Bayreuth e a reunificação em 1990. Kosky planta a ópera na casa (Wahnfried) e no mundo mental de Richard Wagner, e desdobra o compositor pelos personagens de Walther von Stolzing (Wagner jovem) e de Hans Sachs (Wagner maduro). Eva é Cosima, e o pai, Veit Pogner, obviamente Franz Liszt; o maestro judeu Hermann Levi, que estreou “Parsifal” em 1882, passa a Sixtus Beckmesser. Os outros mestres do título vão saltando do grande piano (emanações do génio do compositor), tal como na produção de Herheim emergiam do livro de contos dos irmãos Grimm (ou equivalente). Discípulos, acólitos e criadagem completam a companhia. Até há lugar para os bem-amados cães de Wagner, os Terra-Nova Marke e Molly!

A tese é enunciada durante o Prelúdio, tratado como uma pantomima. Cosima sofre de enxaqueca e Wagner recebe as suas prendas preferidas, perfumes e sedas; Levi é humilhado; Liszt senta-se ao piano a tocar a nova ópera, mas é depressa enxotado pelo genro. O problema é que na ânsia de seguir a ação, esquecemos a música (que, para Wagner, é serva do drama). O II e III atos decorrem no tribunal de Nuremberga. Com as sempre-vivas memórias do Holocausto, “Die Meistersinger” padece de dois pecados: o tratamento cruel de Beckmesser e a exaltação da ‘sagrada arte alemã’. Kosky — o primeiro judeu a encenar em Bayreyth — enfrenta o primeiro pecado de caras, transformando o motim popular do II ato num pogrom (massacre de Judeus). Mais do que um Malvolio pedante (o personagem ridículo da “Noite de Reis”, de Shakespeare), Beckmesser é uma caricatura antissemita, terminando o ato como um cabeçudo. (Note-se que a destruição da sinagoga de Nuremberga em 1938 começara com a ordem maldita de ‘Fanget an!’, repetidamente ouvida nesta ópera.) Quanto à embaraçosa apologia da arte germânica que remata a ópera, Kosky pega nas palavras de Sachs, “Ich bin verklagt und muss bestehn” (Sou acusado e tenho de me defender), e num golpe de génio põe Wagner no pódio das testemunhas a dirigir-se ao público com a peroração final. A redenção será musical: o Coro, em forma de orquestra, avança de fundo do tribunal, e o espetáculo termina com Wagner a dirigir a sua própria obra.

No protagonista — o mais longo de todos os papéis wagnerianos — temos Michael Volle, o maior Sachs da atualidade (foi-o, também, em Salzburgo). Aguenta o papel como nenhum, poupando-se apenas na 1ª cena do III ato, a tempo de brilhar no tour-de-force final. A beleza tímbrica evoca Theo Adam, mas como ator é superior a todos os que vi, até na personificação de um Wagner egoísta e irrequieto. O mesmo se poderá dizer de Johannes Martin Kränzle, inultrapassável na dupla Levi-Beckmesser. Idem para Daniel Behle, o mais completo e bem-cantado David que me foi dado ouvir (outro Wagner jovem e impetuoso no amor, na leitura de Kosky). Está pronto para ascender ao papel de Walther, aqui entregue ao etéreo Klaus Florian Vogt, na sua segunda produção da ópera em Bayreuth. Schwanewilms tem a voz ideal para Eva, a mais terrena (e ardilosa) representante do Eterno Feminino, e também a idade e a estatura para fazer uma Cosima convincente. (Sabe-se que Wagner concebeu Eva como um alter ego de Cosima.) A graça foi distribuir o duplo papel de pai, Veit Pogner/Liszt, a um cantor dez anos mais novo que a intérprete das filhas: Günther Groissböck, o mais talentoso de todos os baixos alemães. Philippe Jordan limpou os aspetos tonitruantes da partitura e provou estar pronto para assumir a direção musical da Wiener Staatsoper.