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“Só se pode censurar a censura”. A fronteira entre arte e pornografia em museus como Serralves

JOSÉ COELHO

Polémica com exposição de Mapplethorpe em Serralves levanta debate sobre a mediação que um museu deve ter com o público. Artistas e curadores falam ao Expresso sobre a arte como lugar de liberdade

Selecionar obras de um artista em função do seu cariz sexual é curar ou censurar? A pergunta nasce a propósito da polémica que levou à demissão do diretor do museu de Serralves, que bateu com a porta depois de alegadamente ter sido contrariado pela administração da Fundação, em circunstâncias que ainda não são claras e que têm versões contraditórias. Em causa está a retirada de fotografias explícitas e chocantes de Mapplethorpe, bem como a existência de uma sala vedada a menores de idade, onde são exibidas fotografias com práticas sexuais sadomasoquistas.

O Expresso contactou personalidades das artes, para analisar o caso, mas poucos quiseram falar especificamente do sucedido em Serralves. Foi o caso de Pedro Gadanho, diretor do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), que se limitou a dizer uma frase: “Só tenho isto a dizer: não são só os tempos políticos que vivemos que são populistas. Os da cultura também são”.

"Toda a gente sabe o que é uma exposição de Robert Mapplethope, é um artista cuja obra é apresentada e está mais do que divulgada", diz a artista Ana Vidigal. "Eu por, exemplo, já as vi inúmeras vezes em museus e exposições internacionais. O que me surpreende é como é que um instituição como Serralves, que aceitou expor a obra de Mapplethorpe, sabendo que o curador escolheria determinadas obras, depois impõe um limite de idade ao interditar a entrada de menores de 18 anos numa sala. Como é que isto acontece?", interroga.

JOSÉ COELHO

Para Delfim Sardo, crítico de arte e curador, a questão da interdição, ou do tipo de mediação que um museu deve ter com o público, é questão que deve ser pensada e colocada em debate. Não querendo falar especificamente do caso de Serralves, pois "ainda não tive a oportunidade de ver a exposição", Delfim Sardo sublinha que a premissa fundamental de qualquer instituição de arte deve ser a consciência de que é um espaço de liberdade, de reflexão e de crítica: "Como curador, posso dizer que o meu trabalho é sempre um exercício de mediação entre os artistas e o público. Cabe às instituições decidir mostrá-lo, no sentido da liberdade e com contexto. Deve informar, mas não ser paternalista. A opção do que quer ver é uma escolha que no limite é sempre do público. Esta é a fronteira permanente e o exercício que se deve fazer."

Delfim Sardo

Delfim Sardo

antónio pedro ferreira

O tema da fronteira do que é choque ou do que são imagens explícitas, que neste momento parece estar sempre tão centrado na relação da arte com a sexualidade e a pornografia, sempre esteve presente na história da arte.

"Os artistas sempre namoraram e flirtaram com a pornografia. Faz parte da provocação e da vibração que uma obra de arte tenta provocar", continua Delfim Sardo. Para o curador, muito mais importante do que as questões ligadas ao sexo, que tanto parecem indignar uma moral e uma ética dos tempos em que vivemos, são as de "trabalhar com "conteúdos políticos fortes”. Por exemplo, prossegue, “como é que eu exporia a obra da fotógrafa e documentarista Leni Riefenstahl, que do ponto de vista estético são belas imagens, mas que envolvem a propaganda de uma das maiores tragédias da humanidade", interroga o curador, referindo-se à conhecida criadora de propaganda do regime nazi de Hitler.

Também João Louro e Julião Sarmento fazem questão de deixar claro de que todos os artistas estão e estarão sempre contra a censura. "A única censura que deveria existir é censurar a censura", brinca Julião Sarmento, num jogo de palavras alusivo ao Maio de 68. A interrogação sobre o erótico foi sempre uma das questões centrais na obra de Sarmento que, precisamente em 1996, numa exposição em Londres, onde entre o trabalho escolhido estava um filme com um excerto de conteúdo pornográfico, lhe foi anunciado que iria ser retirado da mostra do artista português: "Cancelei imediatamente todo a exposição", revela.

Julião Sarmento

Julião Sarmento

Tiago Miranda

Para Julião Sarmento não deixa de ser curioso verificar que, há vinte anos, uma polémica semelhante à que está em discussão em Serralves aconteceu numa mostra de Robert Mapplethorpe em Cincinnati. "Por causa dessa exposição o diretor daquele museu, Dannis Barrie, também se demitiu. Esta história esteve na origem do documentário "Dirty Pictures", de Frank Pierson. O mais espantoso é que, 20 anos depois, um diretor de um museu se volte a demitir por causa de Mapplethorpe."

O "pli" de Deleuze
"A moral e a ética têm sempre um protagonismo excessivo. Neste aspeto ao contrário do que poderíamos esperar, e desejar, o tempo nunca avança num sentido cronológico", avança por sua vez João Louro.

João Louro

João Louro

Gonçalo Rosa da Silva

"Essa relação com o tempo nunca é linear, vai-se alterando de acordo com as circunstâncias e, neste sentido, existem sempre personagens com as quais temos de conviver e que impõem as regras e as condicionantes”, prossegue Joao Louro. “São caminhos que temos de ultrapassar e com os quais temos de conviver, é o que filósofo Gilles Deleuze chama de "pli", ou de contornos interiores. A arte evolui nesse caminho: Porque está a olhar o seu tempo, antecipando-o, e inventando o tempo que vamos percorrer.”

“Este é também o confito que se estabelece com a moral vigente", reflete o artista que representou Portugal em Veneza em 2015. "Os artistas inventam o caminho, e é por isso que a arte é irreverente e transformadora."

São precisamente as questões ligadas à moral e à ética no percurso da história de arte que sempre mais interessaram o curador e filósofo Paulo Pires do Vale. Ao longo do tempo que os artistas se atravessam no espaço público e se tornam poder, ou contrapoder, também o olhar do que é considerado próprio ou impróprio de representação vai variando.

Paulo Pires do Vale lembra por exemplo a obra "Origem do Mundo", do pintor francês Gustave Courbe, que mais de um século depois da sua realização continua a ser polémica, por causa do desenho da vagina estar demasiado exposto, e que ainda há pouco tempo foi retirada de uma exposição.

Robert Mapllethorpe, "Self Portrait", 1983

Robert Mapllethorpe, "Self Portrait", 1983

Robert Mapplethorpe Foundation

"Desde o início do tempo que a nudez foi objeto de reflexão e de controvérsia", diz Pires do Vale, lembrando as pinturas de Michelangelo, da capela Sistina, em Roma, que um século depois de terem sido feitas foram cobertas, por se considerarem impudicas.

"A Morte da Virgem", de Caravaggio foi outra das obras fundamentais da História de Arte que foi recusada, depois de ter sido encomendada ao pintor renascentista italiano, por "ter circulado um boato que a Virgem representada, que aparecia deitada e esverdeada, tinha sido retratada a partir da imagem de uma prostituta encontrada morta num rio", refere o filósofo curador.

O que é espantoso, e sintomático do tempo em que vivemos, é que em pleno século XXI as questões ligadas à sexualidade e pornografia trabalhadas num contexto artístico ainda sejam causa de polémica, dizem-nos todos. Num tempo em que a pornografia é acessível em sites com sexo explícito, em filmes, em revistas, como é que ainda nos confrontamos com uma moral paternalista e autoritária que permite o contexto comercial e censura o trabalho artístico onde, precisamente, a obra sobre o corpo, a sexualidade no contexto e reflexão do tempo a que pertence, deveria estar livre de qualquer constrangimento.

"Quais são os limites? Quem decide o que se pode ou não ver e a partir de que idade?", interroga Paulo Pires do Vale, recordando o cineasta e artista Pier Paolo Pasolini, outro maldito do seu tempo, contando um das suas últimas histórias: "Depois de ter realizado "Salò ou os 120 dias de Sodoma”, numa entrevista para a televisão italiana, onde lhe perguntavam se não iria mais uma vez provocar escândalo, Pasolini respondeu: 'escandalizar é um direito, ser escandalizado um prazer. Não devemos nunca impedir esse prazer".