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“Não é possível ser homem hoje como há 20 anos”

JOEL SAGET/AFP/Getty

Escritora franco-marroquina Leila Slimani, vencedora do Prémio Gouncort em 2016, considera que o feminismo deve ser "mais global" e que está a mudar o comportamento masculino, não sendo possível "ser homem hoje como há 20 anos"

A escritora franco-marroquina Leila Slimani, vencedora do Prémio Gouncort em 2016, considerou que o feminismo deve ser "mais global" e que está a mudar o comportamento masculino, não sendo possível "ser homem hoje como há 20 anos".

Presente na Feira do Livro do Porto, a autora de "Canção Doce", livro que lhe valeu o Gouncourt há dois anos, e de "No Jardim do Ogre", ambos editados pela Alfaguara em Portugal, disse à Lusa que o feminismo e a luta pelos direitos individuais tem levado a mudanças não só nas mulheres, mas também nos homens.

Em "No Jardim do Ogre" ou "Canção Doce", duas das personagens principais, Adèle, no primeiro, e Myriam, no segundo, cresceram numa geração de mulheres que foram educadas pelas mães para poderem ser o que quisessem quando crescessem, numa reflexão sobre "a complexidade da vida da mulher moderna".

"É extraordinário, mas muito difícil, porque nunca ninguém nos disse como o fazer. Podemos ter tudo, mas isso significa que temos de fazer muitos sacrifícios, e abrir o caminho para as nossas filhas, mostrar que é possível", atirou.

A partilha "com os parceiros, com os homens" é uma parte "muito importante" também para a afirmação das mulheres, até porque "há homens que estão a tentar entender o espaço deles no mundo hoje em dia", no qual querem "admirar mulheres" e poder lutar pela igualdade de género.

"O feminismo é muito mais global, não diz respeito só a mulheres. Não é possível ser homem hoje da mesma forma que era há 20 anos. Acredito que a próxima revolução será a do homem, porque hoje em dia os homens querem ser pais, parceiros, iguais às mulheres. (...) Será o próximo passo, encontrar os dois", explicou a autora, em entrevista à Lusa.
Se "seria difícil ser uma mulher muçulmana há 50 anos", hoje "é quase uma vantagem", e é "melhor do que ser um homem branco de 50 anos", porque a visão do mundo "é provavelmente mais relevante e correta", e Slimani afasta a "vitimização" em detrimento do "privilégio de ser ouvida" por nascer neste tempo.

Enquanto natural de Marrocos, Leila Slimani sente a pressão de escrever ou abordar o país de origem, e vê o mesmo acontecer com amigos, mas pretende antes provar "que, como qualquer pessoa ou artista, no mundo podemos falar dele, e com universalidade".

"Podemos escrever, sem que tenha de ser sobre religião, o que passam as mulheres ou o nosso país. Queremos poder dizer que o mundo também nos pertence, e se quisermos escrever um romance com uma personagem chinesa, podemos fazê-lo", acrescentou à Lusa.

Ainda assim, isso não afasta "melancolia e alguma mágoa sobre a situação dos direitos individuais" em muitos países, "da homossexualidade ao feminismo", e esse engajamento com os temas é "inevitável, mas algo que tem de partir de uma decisão e não porque as pessoas esperam isso".

Questionada sobre o efeito da Primavera Árabe em países como a Tunísia ou o Egito, Slimani confessou que a situação egípcia é "muito complexa e muito triste", mas que tenta ser "otimista, mesmo sendo difícil", enquanto a Tunísia é um povo que "não desiste" e onde há lutas importantes "pelos direitos individuais, secularismo e direitos das mulheres", dentro e fora do sistema.

"Apesar da luta, o quotidiano é muito difícil, por causa da economia e do terrorismo. É um país que amo e vou sempre apoiar o povo tunisino, que é muito corajoso. Podiam ceder na face do terrorismo e da violência, mas continuam a lutar, é extraordinário", referiu.

A autora, que escreveu ainda um livro de não ficção a partir de dezenas de entrevistas com mulheres marroquinas sobre as suas vidas sexuais ("Paroles d'honneur"), acredita no poder da literatura, "a coisa mais bonita do mundo" e que "vai sobreviver a tudo, desde guerras à estupidez, está muito acima e é mais forte do que nós".

A franco-marroquina, filha do antigo ministro da Economia de Marrocos Othman Slimani, vive em Paris com o marido e os filhos, e passou pelo Porto, na Feira do Livro, antes de ir a Helsínquia, na Finlândia, mas confessou conhecer "muito bem" Portugal e, em particular, a cidade de Lisboa.

"Venho a Portugal muitas vezes. Muitos dos meus amigos saíram de Paris e vieram para Lisboa depois da crise, em 2008. Eu e o meu marido estamos quase sozinhos em Paris. Amo este país. Nasci em Rabat, perto do Atlântico, e aqui lembro-me muito do que sentia na infância", contou à Lusa.

ETIENNE LAURENT

Jornalismo, cinema e observação

Aos 36 anos, a escritora e jornalista vive o melhor momento da carreira, com o Prémio Goncourt em 2016 a abrir à autora as portas de traduções e adaptações para o cinema, e com este seu segundo romance a vender mais de 600 mil cópias em França.

O próximo romance está a ser escrito, a par de projetos no cinema, e uma adaptação francesa de "Canção Doce" está já preparada, com outra norte-americana a caminho, sendo que o que procurou abordar até hoje, nas suas obras de ficção, foi "a complexidade da vida da mulher moderna", explicou à Lusa, à margem da presença na Feira do Livro do Porto.

Depois de ter trabalhado como jornalista, em que cobriu a Primavera Árabe na Tunísia, e de ter tido aulas de representação, com vontade de trabalhar no cinema, a franco-marroquina ingressou num curso de escrita, depois de uma tentativa de romance falhada, e acabou por depurar o estilo que acabou por consagrá-la.

"O meu editor [Jean-Marie Laclavetine, da Éditions Gallimard] disse-me para não dizer o que uma personagem pensa, mas o que ela faz. Defino-me como uma existencialista, sou uma grande admiradora de Simone de Beauvoir e de Jean-Paul Sartre, e considero que somos definidos pelo que fazemos e não pela raça, a religião ou até pelos nossos sonhos", contou.

Por outro lado, a noção de se focar nas ações, em vez de descrever pensamentos, vem também de considerar o leitor "inteligente e capaz de concluir o que uma personagem é a partir do que ela faz", e de abordar a escrita com um olhar "como se, através de uma janela, ao longe, e descrevendo" as personagens e o que fazem.

"Sou muito influenciada pelo cinema, especialmente quando escrevo. Vou ao cinema todos os dias, vejo a matiné das 10:00 todos os dias em Paris. Vejo bons filmes, maus filmes, apenas para observar. É muito fácil, ao escrever, dizer: 'vou ser psicólogo e contar o que as pessoas estão a pensar', mas penso que por vezes é preciso optar antes por uma abordagem de observação", refletiu.

Além do cinema, também a carreira como jornalista, em que foi repórter durante a Primavera Árabe na Tunísia, mas também em Marrocos e na Argélia, contribuiu para a escritora que é hoje.

"Quando tens pouco tempo para escrever algo, a única forma de poder transmitir a atmosfera que se vive é observar, ser silenciosa e olhar para tudo, especialmente para os pequenos detalhes: como caminham, comem, se fumam ou não, que tempo faz naquele dia, onde estão as crianças e onde estão os mais velhos. Os pequenos detalhes dizem muito sobre política, sociologia e economia", comentou, em entrevista à Lusa.

Questionada sobre o papel da tradução na difusão da obra, a escritora assume que só começou a pensar no tema depois de começar a ser publicada, uma vez que antes podia ler "Lev Tolstoi ou Philip Roth de forma natural", mas considera o processo de tradução "fascinante".

"Graças a tradutores, podes falar com quem não te entenderia na tua língua. Claro que se perdem algumas coisas, mas, por outro lado, agradeço todos os dias aos meus tradutores, porque me dão o mundo, a possibilidade de chegar a Japão, China, Portugal ou Estados Unidos", apontou à Lusa.

Tanto "No Jardim do Ogre", o seu primeiro romance, publicado em 2014, como "Canção Doce", de 2016, ambos editados em Portugal pela Alfaguara, tratam de conflitos interiores de desejo, intimidade e de um sentimento de aprisionamento no dia-a-dia.

O livro que lhe valeu o Goncourt há dois anos, começa com a morte de duas crianças às mãos da ama 'perfeita', como a descreviam os pais, num 'choque' para os leitores, entrando depois na desconstrução da relação do trio de adultos e a proximidade entre eles.

"A intimidade é impossível. Pensamos que vamos construir isso, mas quanto mais velhos ficamos, mais tomamos consciência de que nunca se é íntimo com ninguém. A intimidade é uma ilusão. Pode acontecer, mas por uns minutos ou umas horas. Durante a maior parte da vida, estás sozinho, sem capacidade de expressares o que sentes", comentou.
Com a escrita, explicou, o objetivo é "mostrar o que está por detrás do sorriso e de dizer 'é preciso ser forte' e seguir com a vida", algo que não é fácil na vida mas "a literatura pode ir além disso".

A autora, que escreveu ainda um livro de não ficção a partir de dezenas de entrevistas com mulheres marroquinas sobre as suas vidas sexuais ("Paroles d'honneur"), acredita no poder da literatura, "a coisa mais bonita do mundo", que "vai sobreviver a tudo, desde guerras à estupidez", pois "está muito acima e é mais forte do que nós".

"Sexe et mensonges: La vie sexuelle au Maroc" e "Le diable est dans les détails", uma recolha de seis artigos escritos para o jornal Le Un, entre 2014 e 2016, são outros títulos de não ficção, de Leila Slimani.

Além das relações de intimidade e de poder no domínio do lar, há também em "Canção Doce" "o mais universal e animal dos medos que os humanos podem experienciar, que é perder os seus bebés, e que a pessoa em que mais confiamos seja quem mata os nossos amados".

"É um prazer sádico ler sobre algo que é como que um pesadelo. Um pouco como ver um filme de terror, tens medo mas queres ver. Porque há prazer no medo, e por isso é que contamos histórias às crianças, que estão sempre à espera do lobo ou do ogre", explicou.