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Morrer num beijo

“Otelo”, com encenação de Nuno Carinhas, proporciona uma viagem 
à sociedade veneziana do século XVII

joão tuna

“Otelo” é a segunda incursão do encenador Nuno Carinhas no universo shakespeariano e vai ser estreada no dia 28 no Teatro São João. O Expresso acompanhou o processo de criação

Os ponteiros do relógio marcam 20h. A pontualidade é britânica, a índole também. Há um cartaz na fachada do Teatro Nacional São João onde se lê: “Só me resta beijar-te e sucumbir, morrer num beijo.” Serve para promover a primeira grande produção própria da temporada, com estreia agendada para 28 de setembro e récitas estendidas até 13 de outubro. “Muita merda. Até já”, diz ao elenco, antes de mais um ensaio corrido na imponente sala portuense, a atriz Sara Barros Leitão, a assumir o papel de assistente de encenação. É ela o braço direito indispensável de Nuno Carinhas, dramaturgista, cenógrafo e figurinista comprometido artisticamente em levar a bom porto aquela que define como a “tragédia de excelência” de Shakespeare, depois de, em 2017, ter dado uma nova roupagem a “Macbeth”, tida como a peça maldita do teatrólogo mais representado em todo o mundo.

O Expresso acompanhou os bastidores da viagem de “Otelo”, iniciada há dois meses, ainda no Mosteiro São Bento da Vitória, com as primeiras sessões de leitura da obra, nas quais, em círculo, o grupo ia analisando, debatendo e lapidando a tradução de Daniel Jonas. O texto leva-nos a uma revisitação da sociedade veneziana do século XVII, onde a liberalidade de costumes impera. Cenário para guerras domésticas e batalhas morais entre o querer e o dever, onde a ambição desmesurada se alicerça ardilosamente numa incomensurável violência intelectual, capaz de levar à total derrocada psicológica. “Pensa-se que Freud só existiu porque houve Shakespeare primeiro. Todos os materiais da problemática freudiana podem ser encontrados aqui”, fez notar Daniel Jonas ao conjunto de intérpretes durante uma das primeiras reuniões de trabalho.

Ali, na cidade famosa pelos seus canais, sente-se um vibrante pulsar económico a agitar as águas negras de Veneza, onde desaguam temas tão transversais e contemporâneos como a emancipação da mulher ou a rejeição social pela figura do estrangeiro, transportados no enredo para a ilha de Chipre. “A personagem de Otelo simboliza quem vem de fora, do outro lado do mundo”, apresenta Nuno Carinhas, relativamente a um exímio general militar, conhecido como o ‘Mouro de Veneza’, um “errante, sem casa, sem sítio e que se ancora na cidade motivado pela paixão por Desdémona”, mulher mais nova e submissa, entregue ao amor e aos desígnios de um homem mais velho, desafiando as convenções sociais. É ela a semente pura e luminosa capaz de acordar paixões prontas para matar. Ciúme. Loucura. Perdição. É este o percurso do protagonista, trilhado pela implosão dos afetos, até um abismo individual, numa queda para dentro, numa teia de intrigas tecida cruelmente através de relações pessoais bélicas. Assiste-se ao exílio do coração, expulso pelos caprichos de uma inteligência maligna. Uma tempestade faz naufragar a esquadra turca e afasta o cenário de guerra, mas instalam-se nuvens ácidas que corroem o espírito, obliterando a virtude, adensando a penumbra dos medos que correm dentro das veias.

A peça, dividida em cinco atos, conta com a representação de João Cardoso (Otelo) e Maria João Pinho (Desdémona) nos papéis principais, enquanto Dinarte Branco dá corpo e voz ao maquiavélico, oportunista e provocador Iago, porta-estandarte que agita a bandeira do ressentimento, manipulando todas as outras personagens num tabuleiro de xadrez onde a ambição e a vingança desmedidas são as únicas regras conhecidas, jogando sempre no risco, rumo ao colapso e à ruína. António Durães, Diana Sá, Joana Carvalho, Jorge Mota, Paulo Freixinho, Pedro Almendra e Pedro Frias completam o elenco.

O trabalho de cenografia transforma o palco num enorme espelho, projetando imagens distorcidas das personagens e dos objetos, “metáforas de lugares mentais e das águas sujas de Veneza”, como explica Nuno Carinhas, também responsável pelos figurinos, mais contemporâneos, onde os fatos de gala, os vestidos e os uniformes militares nos remetem para os dias de hoje, criando uma maior proximidade com um texto escrito em 1604. “Era a única forma que havia naquela época de se fazer um texto sobre a emancipação da mulher. Acho que este espetáculo é sobre violência doméstica. Só há três mulheres nesta peça, e todas elas tentam emancipar-se à sua maneira”, frisa Sara Barros Leitão.
O processo de criação artística foi acompanhado por especialistas, como a investigadora Maria Sequeira Mendes, profunda estudiosa da obra de William Shakespeare. A professora de Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa assumirá também a responsabilidade de coordenar o seminário “Otelo Fora de Si”, a realizar no São João entre 22 de setembro e 6 de outubro.

Embora os conflitos mais pungentes esbatidos na diegese ocorram dentro do corpo, há ainda assim vários momentos de confronto físico entre as personagens, motivo pelo qual os atores trabalharam de perto com o mestre de armas Miguel Andrade Gomes, campeão mundial de esgrima artística em 2000 e que há mais de 20 anos colabora com o Teatro Nacional São João. É ele quem corrige a postura e apresenta o leque de movimentos mais adequados no momento de fazer um gesto de continência ou de manusear uma adaga. “O fundamental é que os atores não se magoem. Quando se simula perigo, não é necessário haver risco, porque o público não ganha nada ao ver uma coisa perigosa em palco”, salienta ao Expresso. “Os atores são pessoas multifacetadas, mas há intérpretes com menor motricidade ou com pouca noção rítmica dos seus movimentos. É preciso ter, nesses casos, muito cuidado, porque não estamos a trabalhar com esponjas, mas sim com armas de metal”, adverte o responsável pelo desenho de lutas, que já tinha trabalhado com Nuno Carinhas em “Macbeth”.

O espetáculo conta com desenho de luz de Nuno Meira, sonoplastia de Francisco Leal e ainda a voz e elocução de Carlos Meireles. “Otelo” pode ser visto todas as quartas e sábados pelas 19h, às quintas e sextas pelas 21h e aos domingos à tarde pelas 16h.