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Gustavo Dudamel ao Expresso: “Não imagina o que me dói o meu país”

Ana Baião

É sucessor dos grandes numa das maiores orquestras do mundo. E é o eterno jovem de Barquisimeto que cresceu no projeto social El Sistema, a rock star que não esquece as origens — ainda que o laço com a Venezuela se mantenha via Skype. Falámos com ele e assistimos a um ensaio na Gubenkian. E vimos como um maestro se transforma em dois

Tínhamos lido algures que não havia um só Gustavo Dudamel, mas dois: um reservado e tranquilo, outro enfático e extrovertido. Aquele que entrou na sala nessa tarde — Gulbenkian, setembro, uma quarta-feira de ensaios — era claramente o primeiro. Atravessava a porta com as mãos nos bolsos das calças cinzentas, camisola lisa preta, todo ele a querer passar despercebido apesar do aparato que, há anos, a sua simples presença congrega. Há sempre quem o siga, há sempre um intermediário, e neste caso não seria diferente. Combinar uma hora de conversa não foi fácil, mesmo após ficar assente que a entrevista decorreria em Lisboa, aproveitando a viagem que culminou no concerto de abertura da temporada da Fundação, com a Gustav Mahler Chamber Orchestra. Mas voltemos à entrada em cena que é menos do seu agrado — a do frente a frente com um jornalista. Percebeu-se depressa que a aura de rock star, à qual se colam manias várias, não passa de um ardil para ser o menos incomodado possível e poder assim concentrar-se no essencial.

Aos 37 anos é o maestro mais jovem que alguma vez chegou a titular da LA Phil, a Filarmónica de Los Angeles, hoje das orquestras mais importantes do mundo, no lugar outrora ocupado por Otto Klemperer, Zubin Mehta, Carlo Maria Giulini, André Previn e Esa-Pekka Salonen. É também o primeiro latino-americano, nascido em Barquisimeto, quarta cidade da Venezuela, em janeiro de 1981— e talvez esta seja a razão por que, na América de Donald Trump, em pleno debate sobre a construção do muro, a LA Phil respondeu com uma semana dedicada ao México. “Quando as pessoas dizem ‘falem, tomem posição’, eu respondo que isto é tomar uma posição. Nós não falamos, fazemos”, afiançou com aquele misto de humor e seriedade com que aborda os temas mais duros. De seguida contou que viaja muito, quase o ano todo, e que do avião não vê o nome dos países, nem as linhas de fronteira. “Vejo rios, montanhas, cidades.” Como num concerto em que oponentes políticos se sentam lado a lado e até apertam a mão no final.

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